BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade” é uma rubrica de Salvador Santos e hoje recorda quem foi a actriz Alda Rodrigues. É o Teatro no Bancada Directa

quarta-feira, 23 de julho de 2014

“No Palco da Saudade” é uma rubrica de Salvador Santos e hoje recorda quem foi a actriz Alda Rodrigues. É o Teatro no Bancada Directa

“No Palco da Saudade” é uma rubrica de Salvador Santos e hoje recorda quem foi a actriz Alda Rodrigues. É o Teatro no Bancada Directa 

“No Palco da Saudade” 
 Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

ALDA RODRIGUES 

Cinco cidades marcaram o percurso desta encantadora e inesquecível Senhora dos nossos palcos, que hoje recordamos com a saudade imensa de quem sempre lhe dedicou respeito e a máxima admiração como profissional e mulher: 

Santarém, onde nasceu e aprendeu as primeiras letras; Lisboa, onde se formou e se iniciou na representação teatral; Porto, onde se fez verdadeiramente actriz; Matosinhos, onde se tornou mãe amantíssima e esposa dedicada de um homem de enorme carácter, íntegro e fiel aos seus princípios e convicções; e Luanda, onde se exilou para acompanhar o amor da sua vida, não deixando nunca de se manter atenta ao evoluir do teatro no nosso país, ao mesmo tempo que ia lançando sementes de paixão pela Arte de Talma naquela terra. 

Peça de teatro "Grande Paz". (trilogia da Guerra - 2ª parte). Alda Rodrigues interpretou o papel de "mulher". Encenação de Luís Miguel Cintra. Teatro do Bairro Alto. 1987. 11. 21.

Com apenas onze anos, Alda Rodrigues deixou a sua cidade-berço pelos braços de sua mãe rumo à capital, onde o pai cumpria um novo desafio profissional. Nessa altura, já o teatro preenchia os seus sonhos de menina pelo que ouvia em casa. Mas teve de esperar pelos catorze anos (idade mínima de admissão) para ingressar no curso de arte de representar do Conservatório Nacional, certa de que sem uma formação base nunca atingiria o patamar de excelência que impunha a si própria como exigência em tudo o que fazia. 

Paralelamente aos estudos foi experimentando o palco da Sociedade Guilherme Coussul, onde despertou a atenção dos atores profissionais que por lá haviam dado os primeiros passos e tinham por hábito assistir às récitas daquele grupo amador. Ainda antes de concluir o curso do Conservatório, Alda Rodrigues passou uma temporada pelo Teatro do Gerifalto, grupo criado em Dezembro de 1956 e dirigido pelo poeta António Manuel Couto Viana, onde começou por interpretar uma personagem secundária da peça “A Ilha do Tesouro” de Goulard Nogueira, baseada no romance de Robert Louis Stevenson. Seguiram-se outros espectáculos para a infância naquela mesma companhia, que tinha então por palco de representações o Teatro da Trindade, onde o Mestre António Pedro a descobriu. O Teatro Experimental do Porto (TEP) tinha já quatro anos de trabalho sob a sua direção e preparava-se para virar a página para a profissionalização. 

E aquela jovem actriz vinha mesmo a calhar para o futuro do TEP. Em Julho de 1957, Alda Rodrigues terminou o curso de arte de representar e poucos meses depois já estava a ensaiar na cidade Invicta a primeira peça de um jovem dramaturgo, escalabitano como ela, que havia de subir a cena em estreia absoluta no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, no dia 23 de Novembro de 1957: “A Promessa” de Bernardo Santareno. O espectáculo foi um dos maiores sucessos do TEP e um dos que maior polémica gerou, por força da pressão exercida por um padre local junto dos sectores mais conservadores da sociedade ao considerar que a peça atentava contra os valores da Igreja. 

Só que tal atitude teve o efeito contrário ao desejado pelo pároco, já que o escândalo acabou por contribuir enormemente para o êxito daquela produção. Este casamento de Alda Rodrigues com o TEP durou dezassete anos, durante os quais criou personagens inesquecíveis para espectáculos que ficarão para sempre na história do teatro em Portugal. 

Entre eles, está naturalmente “O Barbeiro de Sevilha” de Beaumarchais, com encenação de Glória de Matos e Francisco Batista Russo, que estreou no Porto e percorreu depois várias cidades do país com enorme sucesso, assim como “Gorgónio” de Tullio Pinelli, que interpretou sob a direção de Paulo Renato, ou “A Desconhecida de Arras” de Armand Salacrou, onde foi dirigida por Luís Tito, ou ainda “Moratória” de Jorge Andrade, que marcou a sua estreia como encenadora, função que ela também assumiu em dois espectáculos para a infância com produção do TEP. 

Durante a sua estada no TEP, Alda Rodrigues conheceu o amor da sua vida, José Campelo de Sousa, um matosinhense de gema, ator e amante das artes, que a desposou e a fez feliz. Na casa do casal, em Matosinhos, onde a família se foi desenvolvendo e crescendo, respirava-se alegria, amor e harmonia, num ambiente carregado de livros, belíssimos quadros e música. 

Administrador de uma grande empresa, o homem da casa assumiu um lugar que o obrigava a fixar-se em Angola. E lá foi com ele a actriz, sem que deixasse de lado o teatro. Em Luanda, ajudou a fundar o Clube de Teatro de Angola, que contou com a colaboração de personalidades marcantes do meio cultural local, a que se juntariam os actores Guerra e Silva e Jayme Valverde e, claro, o Zé Campelo. Com a independência de Angola, Alda Rodrigues voltou para Portugal, fixando residência em Lisboa. 

E passado pouco tempo, em 1979, ei-la de regresso aos palcos no Teatro da Cornucópia para representar “Paragens Mais Remotas Que Estas Terras” (cenas cómicas de Plauto), a que se seguiram participações em espectáculos memoráveis daquela prestigiada companhia, como “O Labirinto de Creta” (textos de Gil Vicente, Goethe e Brecht), “A Mulher do Campo” de William Wycherley ou “As Três Irmãs” de Tchekhov. 

A morte haveria de a surpreender aos 49 anos, em 1988, quando utilizava um dos transportes públicos da capital, terminando abruptamente a vida de uma mulher e actriz de referência para todos nós. Na Cornucópia, onde estava a fazer o “Auto da Feira” de Gil Vicente, seria substituída por uma actriz que também serviu o TEP, Márcia Breia.

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. 07. 23 

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