BANCADA DIRECTA: A grande e versátil actriz Luísa Barbosa é a recordação de hoje na rubrica “No Palco da Saudade" como sempre semanalmente coordenada pelo nosso homem do teatro Salvador Santos. É o “Teatro no Bancada Directa”

quarta-feira, 2 de julho de 2014

A grande e versátil actriz Luísa Barbosa é a recordação de hoje na rubrica “No Palco da Saudade" como sempre semanalmente coordenada pelo nosso homem do teatro Salvador Santos. É o “Teatro no Bancada Directa”




In memoriam
Luísa Barbosa nasceu em Ferreira do Alentejo em 16 de Maio de 1923 e faleceu na cidade de Setúbal em 21 de Agosto de 2003.
Foi uma excelente actriz portuguesa

A grande e versátil actriz Luísa Barbosa é a recordação de hoje na rubrica “No Palco da Saudade, como sempre semanalmente coordenada pelo nosso homem do teatro Salvador Santos. 
É o “Teatro no Bancada Directa” 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

LUÍSA BARBOSA 


A fazer fé nos registos que podemos encontrar nos mais diversos arquivos físicos e plataformas digitais sobre a atriz que hoje evocamos, ficaríamos absolutamente convencidos de que ela teria tido uma carreira artística deveras curtíssima e iniciada muito tarde. O que é errado. 

Com pouco mais de cinco anos de idade, ela subiu ao palco para uma contracena breve com a actriz Josefina Silva numa peça protagonizada pelo casal Luísa Satanela/Estevão Amarante, em Lisboa, experiência que jamais esqueceu e que repetiria noutros moldes alguns anos mais tarde, ainda adolescente, ao pertencer ao elenco de duas troupes de teatro itinerante, onde contracenou com actores de muito prestígio na época no interior do país, como Afonso Matos e Rafael de Oliveira. 

Depois desta experiência de cerca de quatro anos, desiludida com a situação que se vivia nos palcos portugueses e face à escassez de outras oportunidades de vida no território nacional, Luísa Barbosa decidiu emigrar para França. Em Paris fez de tudo para sobreviver, desde empregada de balcão a cozinheira. 

E, claro, fez também teatro para os nossos compatriotas num grupo de amadores, para além de ter escrito canções, ter ensinado português a Brigitte Bardot e de ter integrado um grupo de teatro brasileiro que andava em digressão por terras francesas. 
Neste grupo conheceu uma das suas maiores paixões, um músico de jazz com quem viveu muitas histórias engraçadas que ela contava com alguma frequência, uma delas não resistimos em partilhar convosco. Luísa Barbosa e o namorado compraram dois bilhetes para um concerto de Miles Davis no Olympia, que custaram uma fortuna. 

O concerto começou. Um pianista, um baixista e um baterista começaram a tocar. A audiência esperava impacientemente o inconfundível som do mago do trompete. Da esquerda surgiu então o artista. Chegado a meio do palco, levou o instrumento à boca e fez soar umas breves notas. De súbito, voltou a colocar o trompete debaixo do braço e saiu do palco. Os outros três músicos olharam-se e começaram a tocar, mas… de Miles Davis nada. 

O homem do baixo pousou a viola e saiu. O pianista, passados uns minutos, levantou-se e fez o mesmo. O baterista continuou a bater no prato de choque. Olhou os bastidores e saiu também. Este acontecimento foi um escândalo de grandes proporções que mereceu notícia de primeira página nos jornais franceses e honras de abertura dos noticiários de todas as rádios e televisões. 

Não só porque Miles Davis não realizou o concerto, mas também porque o público não tolerou o sucedido e arrancou as cadeiras da mítica sala de espectáculos parisiense e fê-las voar contra as paredes. Por essa razão, a actriz Luísa Barbosa costumava dizer, com a graça que a caracterizava, que já tinha pisado o palco do Olympia numa noite de lotação esgotada. Isto porque no meio de toda aquela confusão, ela e o namorado foram obrigados a fugir pelo palco, por entre gritos e urros!

Com a Revolução de Abril de 1974, Luísa Barbosa decidiu regressar a Portugal na esperança de retomar a sua vida nos palcos, tenho escolhido Viseu como terra de acolhimento. Ali ingressou no grupo de teatro Centelha, onde o actor Carlos César, que a conhecera em Paris, a encontrou a fazer “As Mãos Metidas na Terra”. 

Com o fim deste projecto por terras beirãs, em 1979, a actriz partiu para Lisboa em busca de oportunidades de trabalho, e o mais que conseguiu foi um emprego no Bar dos Artistas do Teatro D. Maria II, para, logo depois, arriscar a gestão de um restaurante do Parque Mayer, onde fez notar a sua comicidade junto da comunidade artística ligada ao teatro de revista. Ao saber do fim do grupo de Viseu, Carlos César desafiou Luísa Barbosa a ser actriz a tempo inteiro no Teatro de Animação de Setúbal. 

Entretanto, Nicolau Breyner, então actor de uma comédia no Teatro Capitólio, mas já envolvido no projecto ainda em embrião de “Vila Faia”, convidou-a a prestar provas para uma personagem secundária daquela telenovela – uma mulher aparentemente dura, mas de coração mole –, com a qual acabaria por conquistar o público. 

A partir daí, tudo mudou. Seguiram-se as séries televisivas “Gente Fina é Outra Coisa” e “Eu Show Nico”, para além de mais um conjunto de telenovelas, como “Chuva na Areia”, “Palavras Cruzadas” ou “Passerelle”.

Devido ao enorme êxito obtido na televisão, Luísa Barbosa chegou rapidamente ao cinema, primeiro a convite de Lauro António para um pequeno papel no filme “O Vestido Cor de Fogo” (1986), e mais tarde a desafio dos realizadores Leonel Vieira (“Zona J”, 1998), António Pedro Vasconcelos (“Jaime”, 1999) e Luís Filipe Rocha (“Camarate”, 2000), entre muitos outros. 
Mas a sua grande paixão era de facto o teatro, que nunca deixou fazer, passando por todos os géneros, desde o menos convencional à revista, onde se estreou com “Há Mas São Verdes!”, no Teatro Variedades, com uma interpretação admirável em rábulas como “A Dona Ameijoa” e “A Ditadora”. Luísa Barbosa era uma mulher de grande energia, muito alegre e extremamente positiva, fiel aos seus compromissos.

 E foi essa fidelidade, que sempre a norteou na vida, que a manteve ligada ao projecto artístico do Teatro Animação de Setúbal. Só a morte havia de separá-la definitivamente da companhia liderada por Carlos César, quando, a 21 de Agosto de 2003, a veio buscar sorrateiramente pela calada da noite. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto. 
Porto 2014. Junho. 30

Sem comentários:

Obrigado Pela Sua Visita !