O Teatro no Bancada Directa com a
rubrica semanal de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. O nosso homem do
teatro recorda-nos hoje a figura do grande actor Santos Manuel.
“No Palco da Saudade”
Texto inédito e integral de Salvador
Santos
SANTOS MANUEL
Foi
um actor notabilíssimo e de uma grande seriedade, um ser humano
sensível e um excelente colega, um hábil gerador de consensos que soube
cultivar amizades e cumplicidades entre os seus pares.
Descendente de
uma
família de parcos recursos da Figueira da Foz, nunca escondeu as origens
humildes que o levaram a empregar-se logo após concluído o ensino
primário, ao
mesmo tempo que frequentava o curso dos liceus em horário nocturno. Com
vinte e
dois anos fez vida em Lisboa como empregado de comércio, onde começou a
fazer
pequenos papeis como actor amador em várias colectividades da capital.
E
aos
vinte e cinco anos desafiaram-no a transferir-se para a margem esquerda
do
Tejo, onde participou no espectáculo “O Frio”, no Teatro Popular de
Almada, com direcção de Alexandre Passos, o que mudaria por completo a
sua vida.
MUITO BARULHO POR NADA de William Shakespeare teve encenação de Carlos
Avilez e foi apresentado no Parque Palmela, em Cascais
O elenco foi composto pelos actores da
Companhia: António Marques, Santos Manuel, Sérgio Silva, Teresa Côrte-Real,
Gonçalo Carvalho.
Participaram no elenco os alunos finalistas da Escola Profissional de Teatro
de Cascais: Adriana Besteiro, Alexandre Carvalho, Ana Gomes, Anna Eremin, Bruno
Santos, Christopher Hunstock, David Ferreira, Eric Vinícius, Filipe Ferreira,
Francisco Martins, Gonçalo Carvalho, Guilherme Macedo, Henrique de Carvalho,
Inês Cunha, João Pedro Jesus, Leonor Biscaia, Leonor Salgueiro, Lídia Munhoz,
Mafalda Luís de Castro, Margarida Alves-Diniz, Mariana Faria Leal, Marta
Queiroz, Mauro Silva, Mónica Alves, Natacha Almeida, Raquel Batista, Rita
Cleto, Rita Santana, Ruben Chama , Rúben Lima, Sadie Exley-Myers, Sérgio
Oliveira, Soraya Lopes, Tiago Assunção , Vanda Rodrigues e ainda pelos alunos
dos 1º e 2º anos.
Quando o mestre Fernando Amado constrói a Casa da Comédia, em 1962,
Santos Manuel é um dos seus mais dilectos pupilos. Foi ali que ele fez as suas
primeiras grandes criações, ainda enquanto amador, em peças como “Deseja-se
Mulher” de Almada Negreiros ou “Pobre Marujo” de Cocteau. Ao lado de outros
grandes talentos em potência, como Maria do Céu Guerra e Manuela de Freitas,
que davam também os primeiros passos na representação, ele foi captando as
atenções de empresários e encenadores.
Um deles foi Carlos Avilez, que não
hesitou em convidá-lo para integrar o elenco fundador do Teatro Experimental de
Cascais, onde começou por fazer “Esopaida” de António José da Silva, a que se
seguiram “O Mar” de Miguel Torga, “Auto de Mofina Mendes” de Gil Vicente e “A
Maluquinha de Arroios” de André Brun.
A criação mais emblemática de Santos Manuel surgiu logo depois, em 1967,
com “D. Quixote” de Yves Jamiaque, com a qual conquistou quatro (!) prémios
para a melhor interpretação do ano, entre os quais se destacam os atribuídos
pela imprensa portuguesa e pelo XI Ciclo de Teatro Latino de Barcelona.
A sua
figura alta e esguia, a sua voz quente, espessa e serena, e o seu rosto seco e
algo inquietante, terão contribuído para a composição daquela mítica personagem
inspirada no célebre romance de Miguel Cervantes, mas a montante de tudo isso
estava outra realidade fundamental e também insofismável: o seu enorme talento
de actor, que viria a reconfirmar em espectáculos posteriores, nos mais
diferentes palcos e sob a direcção de diversos encenadores
Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente. TEC. Santos Manuel fez o papel de frade
Ao longo da sua cinquentenária e brilhante carreira teatral, Santos
Manuel foi dirigido por pouco mais de uma dezena de encenadores, entre os quais
sobressai Carlos Avilez que o orientou em inúmeros espectáculos memoráveis, como
“Bodas de Sangue” de Lorca, “Oração” de Arrabal, “Fuenteovejuna” de Lope de
Veja ou “Um Chapéu de Palha de Itália” de Labiche. Mas são também inesquecíveis
as suas interpretações em “Preto no Branco-Morte Acidental de Um Anarquista” de
Dario Fo e “Fernão, Mentes?”, com encenação de Hélder Costa para o grupo de
teatro A Barraca, sendo que a primeira lhe rendeu mais um prémio de Melhor Actor
da Casa da Imprensa, em 1982.
Na breve passagem pelo grupo de teatro A Barraca, nas suas primitivas
instalações na lisboeta rua Alexandre Herculano, Santos Manuel teve
oportunidade de trabalhar com Augusto Boal, que o dirigiu superiormente em “Ao
Qu’Isto Chegou” (com textos de diversos autores portugueses) e “Zé do Telhado”
de Hélder Costa, espectáculos que ficaram na história do teatro português do pós-25
de Abril.
Aquele dramaturgo e encenador brasileiro e, um pouco antes, Adolfo
Gutkin e Peter Brook foram seus mestres em diversas acções de formação e
aperfeiçoamento técnico, que o próprio reconheceu como fulcrais para a
composição das muitas personagens que lhe coube depois representar, tanto no
teatro como no cinema, ou até mesmo na televisão.
O crescimento técnico-artístico de Santos Manuel foi absolutamente
notório nos filmes “Cerromaior” de Luís Filipe Rocha, “O Banqueiro Anarquista”
de Eduardo Geada e “O Rei das Berlengas” de Artur Semedo. No pequeno ecrã, a
sua coroa de glória no período de maior maturidade artística foi a participação
na peça “O Luto de Electra” de Eugene O’Neill, que Artur Ramos transpôs para
televisão.
No palco, é quase impossível destacar apenas duas ou três peças dos
seus últimos anos de carreira, mas seria imperdoável não referir o seu
desempenho em “O Caminho Para Meca” de Athol Fugard, que João Lourenço encenou
no Teatro Nacional D. Maria II, ou os espectáculos que interpretou na Companhia
Teatral do Chiado sob a direcção de Mário Viegas, designadamente “O Ensaio de Um
Sonho” de Ingmar Bergman/August Strindberg.
Fiel ao teatro e ao cinema, com um gosto especial pela rádio, onde
interpretou inúmeras peças e folhetins nas décadas de 1960/70, Santos Manuel
esteve muitas vezes presente nos ecrãs de televisão mas rejeitou sempre
participar em telenovelas.
Preferiu ocupar o seu tempo livre entre projectos
dando colaboração graciosa em agrupamentos amadores, escrevendo e dirigindo
peças nos Bombeiros Voluntários de Cascais e no Centro de Convívio da Terceira
Idade da Santa Casa da Misericórdia de Cascais. Deixou-nos subitamente aos 78
anos, no dia 29 de Julho de 2012, vítima de pneumonia.
Salvador Santos
Teatro Nacional de
São João. Porto
Porto. 2014.
Junho. 02
Duas notas do blogue Bancada Directa
1- A primeira foto de Santos Manuel refere a peça "Yvonne, princesa de Borgonha de W. Gombrowicz. Teatro Experimental de Cascais. 1974
2-In Memoriam
Santos Manuel nasceu na Figueira da Foz em 14 de Outubro de 1933 e faleceu em Cascais em 29 de Julho de 2012.
Foi uma grande figura do panorama artístico português
Salvador Santos / Adriano Rui Ribeiro
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