BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa com a rubrica semanal de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. O nosso homem do teatro recorda-nos hoje a figura do grande actor Santos Manuel.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O Teatro no Bancada Directa com a rubrica semanal de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. O nosso homem do teatro recorda-nos hoje a figura do grande actor Santos Manuel.

O Teatro no Bancada Directa com a rubrica semanal de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. O nosso homem do teatro recorda-nos hoje a figura do grande actor Santos Manuel.

“No Palco da Saudade”
Texto inédito e integral de Salvador Santos

SANTOS MANUEL

Foi um actor notabilíssimo e de uma grande seriedade, um ser humano sensível e um excelente colega, um hábil gerador de consensos que soube cultivar amizades e cumplicidades entre os seus pares. 

Descendente de uma família de parcos recursos da Figueira da Foz, nunca escondeu as origens humildes que o levaram a empregar-se logo após concluído o ensino primário, ao mesmo tempo que frequentava o curso dos liceus em horário nocturno. Com vinte e dois anos fez vida em Lisboa como empregado de comércio, onde começou a fazer pequenos papeis como actor amador em várias colectividades da capital. 

E aos vinte e cinco anos desafiaram-no a transferir-se para a margem esquerda do Tejo, onde participou no espectáculo “O Frio”, no Teatro Popular de Almada, com direcção de Alexandre Passos, o que mudaria por completo a sua vida.
MUITO BARULHO POR NADA de William Shakespeare teve encenação de Carlos Avilez e foi apresentado no Parque Palmela, em Cascais
O elenco foi  composto pelos actores da Companhia: António Marques, Santos Manuel, Sérgio Silva, Teresa Côrte-Real, Gonçalo Carvalho.


Participaram no elenco os alunos finalistas da Escola Profissional de Teatro de Cascais: Adriana Besteiro, Alexandre Carvalho, Ana Gomes, Anna Eremin, Bruno Santos, Christopher Hunstock, David Ferreira, Eric Vinícius, Filipe Ferreira, Francisco Martins, Gonçalo Carvalho, Guilherme Macedo, Henrique de Carvalho, Inês Cunha, João Pedro Jesus, Leonor Biscaia, Leonor Salgueiro, Lídia Munhoz, Mafalda Luís de Castro, Margarida Alves-Diniz, Mariana Faria Leal, Marta Queiroz, Mauro Silva, Mónica Alves, Natacha Almeida, Raquel Batista, Rita Cleto, Rita Santana, Ruben Chama , Rúben Lima, Sadie Exley-Myers, Sérgio Oliveira, Soraya Lopes, Tiago Assunção , Vanda Rodrigues e ainda pelos alunos dos 1º e 2º anos.

Quando o mestre Fernando Amado constrói a Casa da Comédia, em 1962, Santos Manuel é um dos seus mais dilectos pupilos. Foi ali que ele fez as suas primeiras grandes criações, ainda enquanto amador, em peças como “Deseja-se Mulher” de Almada Negreiros ou “Pobre Marujo” de Cocteau. Ao lado de outros grandes talentos em potência, como Maria do Céu Guerra e Manuela de Freitas, que davam também os primeiros passos na representação, ele foi captando as atenções de empresários e encenadores. 

Um deles foi Carlos Avilez, que não hesitou em convidá-lo para integrar o elenco fundador do Teatro Experimental de Cascais, onde começou por fazer “Esopaida” de António José da Silva, a que se seguiram “O Mar” de Miguel Torga, “Auto de Mofina Mendes” de Gil Vicente e “A Maluquinha de Arroios” de André Brun.


A criação mais emblemática de Santos Manuel surgiu logo depois, em 1967, com “D. Quixote” de Yves Jamiaque, com a qual conquistou quatro (!) prémios para a melhor interpretação do ano, entre os quais se destacam os atribuídos pela imprensa portuguesa e pelo XI Ciclo de Teatro Latino de Barcelona. 

A sua figura alta e esguia, a sua voz quente, espessa e serena, e o seu rosto seco e algo inquietante, terão contribuído para a composição daquela mítica personagem inspirada no célebre romance de Miguel Cervantes, mas a montante de tudo isso estava outra realidade fundamental e também insofismável: o seu enorme talento de actor, que viria a reconfirmar em espectáculos posteriores, nos mais diferentes palcos e sob a direcção de diversos encenadores










Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente. TEC. Santos Manuel fez o papel de frade


Ao longo da sua cinquentenária e brilhante carreira teatral, Santos Manuel foi dirigido por pouco mais de uma dezena de encenadores, entre os quais sobressai Carlos Avilez que o orientou em inúmeros espectáculos memoráveis, como “Bodas de Sangue” de Lorca, “Oração” de Arrabal, “Fuenteovejuna” de Lope de Veja ou “Um Chapéu de Palha de Itália” de Labiche. Mas são também inesquecíveis as suas interpretações em “Preto no Branco-Morte Acidental de Um Anarquista” de Dario Fo e “Fernão, Mentes?”, com encenação de Hélder Costa para o grupo de teatro A Barraca, sendo que a primeira lhe rendeu mais um prémio de Melhor Actor da Casa da Imprensa, em 1982.

Na breve passagem pelo grupo de teatro A Barraca, nas suas primitivas instalações na lisboeta rua Alexandre Herculano, Santos Manuel teve oportunidade de trabalhar com Augusto Boal, que o dirigiu superiormente em “Ao Qu’Isto Chegou” (com textos de diversos autores portugueses) e “Zé do Telhado” de Hélder Costa, espectáculos que ficaram na história do teatro português do pós-25 de Abril. 

Aquele dramaturgo e encenador brasileiro e, um pouco antes, Adolfo Gutkin e Peter Brook foram seus mestres em diversas acções de formação e aperfeiçoamento técnico, que o próprio reconheceu como fulcrais para a composição das muitas personagens que lhe coube depois representar, tanto no teatro como no cinema, ou até mesmo na televisão.














O crescimento técnico-artístico de Santos Manuel foi absolutamente notório nos filmes “Cerromaior” de Luís Filipe Rocha, “O Banqueiro Anarquista” de Eduardo Geada e “O Rei das Berlengas” de Artur Semedo. No pequeno ecrã, a sua coroa de glória no período de maior maturidade artística foi a participação na peça “O Luto de Electra” de Eugene O’Neill, que Artur Ramos transpôs para televisão. 

No palco, é quase impossível destacar apenas duas ou três peças dos seus últimos anos de carreira, mas seria imperdoável não referir o seu desempenho em “O Caminho Para Meca” de Athol Fugard, que João Lourenço encenou no Teatro Nacional D. Maria II, ou os espectáculos que interpretou na Companhia Teatral do Chiado sob a direcção de Mário Viegas, designadamente “O Ensaio de Um Sonho” de Ingmar Bergman/August Strindberg.

Fiel ao teatro e ao cinema, com um gosto especial pela rádio, onde interpretou inúmeras peças e folhetins nas décadas de 1960/70, Santos Manuel esteve muitas vezes presente nos ecrãs de televisão mas rejeitou sempre participar em telenovelas. 

Preferiu ocupar o seu tempo livre entre projectos dando colaboração graciosa em agrupamentos amadores, escrevendo e dirigindo peças nos Bombeiros Voluntários de Cascais e no Centro de Convívio da Terceira Idade da Santa Casa da Misericórdia de Cascais. Deixou-nos subitamente aos 78 anos, no dia 29 de Julho de 2012, vítima de pneumonia.

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2014. Junho. 02

Duas notas do blogue Bancada Directa
1- A primeira foto de Santos Manuel refere a peça "Yvonne, princesa de Borgonha de W. Gombrowicz. Teatro Experimental de Cascais. 1974

2-In Memoriam
Santos Manuel nasceu na Figueira da Foz em 14 de Outubro de 1933 e faleceu em Cascais em 29 de Julho de 2012.
Foi uma grande figura do panorama artístico português 

Salvador Santos / Adriano Rui Ribeiro

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