Hoje é quarta feira. Dia de “O Teatro no Bancada Directa”. Rubrica preenchida por Salvador Santos com o seu tema “No Palco da Saudade”. E o nosso homem do teatro dos dias de hoje recorda-nos o grande actor de muitas saudades, de nome Carlos César
Hoje é quarta feira.
Dia de “O Teatro no Bancada Directa”.
Rubrica preenchida por Salvador Santos com o seu tema “No Palco da Saudade”.
E o nosso homem do teatro dos dias de hoje recorda-nos o grande actor de muitas saudades, de nome Carlos César.
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)
CARLOS CÉSAR
Muito pouca gente sabe ou conhece o muito que ficara para trás, nomeadamente um exílio em Paris por motivos políticos desde 1963, após um início fulgurante e muito promissor nos palcos em Lisboa, no Teatro da Trindade, em 1961, a que se seguiu a conclusão do curso do Conservatório Nacional com a brilhante classificação de dezoito valores.
Na verdade, quando se refere o seu nome, tudo parece resumir-se simplesmente aos papéis desempenhados nas novelas “Vila Faia” e “Jardins Proibidos” ou na série televisiva “Gente Fina é Outra Coisa”. O percurso artístico de Carlos César, um homem de teatro que se bateu como poucos por uma cultura descentralizada ao serviço do povo e pela dignificação da profissão de actor, teve início na companhia do Teatro D’Arte, onde se manteve por muito pouco tempo.
A sua enormíssima vontade em desbravar novos caminhos dramatúrgicos mais próximos dos problemas da sociedade portuguesa e em desvendar novas formas de produção teatral, levou-o a fundar o grupo A Máscara, no qual se iniciou na encenação. As suas propostas cénicas e algumas posições públicas irritaram a polícia política salazarista, o que acabaria por forçá-lo a um exílio em Paris que durou mais de dez anos. Afastaram-no mas não o conseguiram parar e, muito menos, calar.
Na capital francesa, Carlos César criou o Teatro Oficina Português, cujo trabalho manifestava clara oposição ao governo de Salazar, onde encenou e representou uma dúzia de peças, entre as quais a proibidíssima “Felizmente Há Luar” de Luís de Sttau Monteiro, que alcançou grande aceitação junto da comunidade portuguesa.
Atento ao que se passava no nosso país, foi recebendo informação sobre as movimentações militares e políticas que iam germinando em crescendo até eclodirem na vitoriosa Revolução dos Cravos. Por acreditar no Portugal Democrático nascido em Abril, regressou apostado num projecto de descentralização teatral que viria a ter sede de trabalho em Setúbal, cidade que serviu como homem, ator, encenador e… autarca.
Em conjunto com um grupo de jovens actores, alguns deles entretanto falecidos, como Carlos Daniel (que já aqui recordámos) ou António Assunção, Carlos César criou o Teatro de Animação de Setúbal (TAS), que, em 26 de Dezembro de 1975, estreou a sua primeira produção (“A Maratona” de Claude Confortès), no Salão de Festas da FNAT – actual INATEL.
Nascia assim um colectivo de teatro que ainda hoje perdura, tendo produzido até ao momento mais de uma centena de peças, desde os grandes clássicos a textos populares, recebendo igualmente diversos espectáculos externos, numa espécie de plataforma de intercâmbio que teve o seu início com o Festival de Teatro de Setúbal, iniciativa já extinta e que tinha por palco os Claustros do Convento de Jesus.
Paralelamente à sua actividade profissional, Carlos César chegou o ocupar o cargo de vereador da Cultura na Câmara Municipal de Setúbal, pelo Partido Socialista, mas a sua agitada vida de artista não o permitiu prolongar por muito tempo o exercício de autarca, sobretudo quando os trabalhos no cinema e na televisão começaram a ser cada vez mais exigentes.
No grande ecrã destaca-se a sua participação nos filmes “O Barão de Altamira” de Artur Semedo, “Aqui D’El Rei” de António Pedro Vasconcelos e “Afirma Pereira” de Roberto Faenza, baseado no livro homónimo de António Tabucchi.
Paralelamente, com o TAS, aposta na formação e nos encontros com o público jovem, através da realização de espectáculos de textos curriculares do ensino secundário e de iniciativas de sensibilização para as expressões artísticas, desenvolvendo o gosto pelas artes junto dos mais novos.
A acção de Carlos César no grupo de teatro de Setúbal não deixou, porém, de ser controversa, sobretudo quando, na década de 1990, as suas opções artísticas conduziram o TAS para a produção de um género teatral mais popular e musicado, sendo por isso muito criticado por diversos sectores das artes. Indiferente às contestações, manteve aquele mesmo rumo de repertório até à sua morte, que ocorreu de forma súbita e inesperada.
Quando, em 9 Janeiro de 2001, se encontrava a preparar mais um dos seus habituais trabalhos para televisão, na cidade do Porto, sentiu-se indisposto, tendo sido aconselhado por colegas e amigos a fazer exames no Hospital Universitário de Coimbra, no dia seguinte, ao regressar ao sul. Já à porta daquela unidade hospitalar conceituada em doenças cardiovasculares, acabaria por sucumbir a um ataque cardíaco fulminante.
Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2014. Junho. 16























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