BANCADA DIRECTA: Antonio Lopes Ribeiro é a figura que o nosso homem do teatro Salvador Santos recorda hoje na sua rubrica “No Palco da Saudade”. É, como sempre às quartas feiras, o “Teatro no Bancada Directa”.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Antonio Lopes Ribeiro é a figura que o nosso homem do teatro Salvador Santos recorda hoje na sua rubrica “No Palco da Saudade”. É, como sempre às quartas feiras, o “Teatro no Bancada Directa”.


In memoriam

Antonio Lopes Ribeiro nasceu em Lisboa em 16 de Abril de 1908 e faleceu nesta mesma cidade em 14 de Abril de 1995

Foi um notável cineasta português

Antonio Lopes Ribeiro é a figura que o nosso homem do teatro Salvador Santos recorda hoje na sua rubrica “No Palco da Saudade”. É, como sempre às quartas feiras, o “Teatro no Bancada Directa”.

“No Palco da Saudade”
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)

ANTÓNIO LOPES RIBEIRO

Acompanhou o seu irmão Francisco (Ribeirinho) em diversas aventuras teatrais, mas foi no cinema que se notabilizou, como realizador, produtor e divulgador. Começou primeiro por se evidenciar como crítico no jornal Diário de Lisboa, onde se iniciou como jornalista no início da década de 1920. Neste vespertino manteve uma página intitulada “Arte Cinematográfica / O Claro-Escuro Animado”, que assinava com as iniciais A.R. e o pseudónimo Retardador, e que terá sido, em todo o mundo, a primeira a dedicar-se exclusivamente ao cinema num jornal diário.

Ninguém se espantou, por isso, que ele se abalançasse na realização em 1928 com “Bailando ao Sol”, um filme coreográfico que representava, do ponto de vista estético, a mulher do século XX. Ainda em 1928, António Lopes Ribeiro fundou, com o também realizador Chianca de Garcia, a revista “Imagem”, a primeira de três publicações sobre cinema que dirigiu – as outras foram “Kino” (1930) e “Animatógrafo” (1933) – e em todas, entre outros aspectos, fez a apologia do cinema sonoro, que em Portugal, tal como um pouco por todo o mundo, foi recebido com bastante cepticismo.
Entretanto, escreveu com Leitão de Barros o argumento de “Maria do Mar”, obra ímpar da cinematografia nacional que estreou em 1930. E por essa altura, procurando manter-se a par do que se fazia no cinema de mais moderno na Europa, partiu para Moscovo, visitando estúdios e documentando-se sobre as novas técnicas de cinema, inclusivamente de propaganda. 

No regresso a Portugal, numa altura em que muitos alemães rumavam ao nosso país fugidos à crescente influência política do nazismo, António Lopes Ribeiro foi convidado a dirigir a parte passada em Lisboa, com actores portugueses, do filme germânico “A Menina Endiabrada”. E, em 1934, com a supervisão de Max Nosseck, foi o responsável pela realização da longa-metragem “Gado Bravo”, em cujo genérico pontifica um significativo número de nomes germânicos. 

Paralelamente, numa prova de modernidade, e até mesmo de um certo vanguardismo, realizou um documentário (a que hoje se chamaria Making of…) intitulado “A Preparação do Filme Gado Bravo”, que fez despertar a curiosidade de António Ferro, responsável pela propaganda do governo de Salazar, que lhe encomendou um filme comemorativo dos dez anos do regime.  
 A ligação entre António Lopes Ribeiro e o Estado Novo acentuar-se-ia depois, levando a que o apelidassem de cineasta do regime. Em 1938 foi nomeado director artístico da Missão Cinegráfica às Colónias de África, supervisionando durante quase todo o ano o trabalho de uma equipa de cinema enviada às nossas antigas colónias, competindo-lhe posteriormente a realização de inúmeros documentários. 

Para o efeito, criou uma empresa de produção em nome próprio, com a qual realizou também cinco longas-metragens, entre as quais se destacam “O Pai Tirano” (1941), para muitos a mais perfeita das comédias portuguesas, uma feliz combinação de teatro e cinema, e “Amor de Perdição” (1943), que, graças à popularidade da obra de Camilo Castelo Banco, constituiria um dos poucos êxitos comerciais dum filme não-humorístico e não-musical. 

Não se deixando limitar à escorreita, mas pouco criativa, realização de documentários, António Lopes Ribeiro investiu na adaptação de “A Vizinha do Lado“ (1945), do dramaturgo André Brun, cujo resultado ficou aquém das expectativas. O seu regresso aos filmes de fundo aconteceria cinco anos depois, com a adaptação da peça clássica de Almeida Garrett “Frei Luís de Sousa”, assumidamente conduzida de forma teatral, com cenários imponentes e interpretações de alguns dos nossos melhores actores da época.

A sua última longa-metragem foi a adaptação do romance de Eça de Queirós “O Primo Basílio” (1959), que, apesar de uma muito cuidada planificação, foi severamente castigada pela crítica portuguesa, que a considerou absolutamente falhada.

Na década de 1960, António Lopes Ribeiro viria a tornar-se muito popular como divulgador da sétima arte, ao conduzir o programa televisivo “Museu do Cinema”, em que apresentava filmes mudos, e com o qual ajudou a popularizar junto dos telespectadores mais jovens a figura de Charlot, a mítica personagem criada por Charlie Chaplin, actor de quem havia traduzido recentemente a biografia.
Quando se deu a Revolução dos Cravos, tomou logo a decisão de se demitir da RTP, convencido de que seria objecto de saneamento. Seria, no entanto, convidado a repor aquele programa em 1982, passando então a dedicar-se sobretudo à divulgação de filmes mudos portugueses.
Estúdios da RTP ainda no Lumiar por detrás do posto de combustível. 1962. Antonio Lopes Ribeiro apresenta a rubrica "Museu do Cinema". Colaborava o maestro Antonio Melo (os dois na foto). Ficou celebre a frase do cineasta: Ó Melo diz lá Boa Noite aos senhores espectadores.

A sua última longa-metragem foi a adaptação do romance de Eça de Queirós “O Primo Basílio” (1959), que, apesar de uma muito cuidada planificação, foi severamente castigada pela crítica portuguesa, que a considerou absolutamente falhada.

Fiel às suas convicções ideológicas de direita, mesmo após a Revolução que nos devolveu a liberdade e nos permite ainda hoje viver em democracia, António Lopes Ribeiro assumiu sempre as posições políticas que havia perfilhado durante décadas, chegando a ser candidato a deputado em diversas eleições legislativas nas listas do Partido da Democracia Cristã. 

A sua última aparição pública aconteceu em 1992, aquando da estreia da adaptação para teatro do seu filme “O Pai Tirano”, pelo Teatro de Animação de Setúbal, um projeto bastante curioso, já que se tratava originalmente de um filme sobre teatro, escrito por um homem de teatro (o seu irmão Ribeirinho). Três anos depois fomos surpreendidos com a notícia do seu falecimento, tinha ele 87 anos.
Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2014. Junho. 09

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