BANCADA DIRECTA: Passos Coelho. O travo indelével de mentiras constantes, adocicadas por uma voz de barítono que tenta ser persuassivo, mas que não engana os portugueses. É um artigo de opinião do jornalista Henrique Monteiro do Expresso nos nossos “Fragmentos e Opiniões”

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Passos Coelho. O travo indelével de mentiras constantes, adocicadas por uma voz de barítono que tenta ser persuassivo, mas que não engana os portugueses. É um artigo de opinião do jornalista Henrique Monteiro do Expresso nos nossos “Fragmentos e Opiniões”

Passos Coelho. 
O travo indelével de mentiras constantes, adocicadas por uma voz de barítono que tenta ser persuassivo, mas que não engana os portugueses. 
É um artigo de opinião do jornalista Henrique Monteiro do Expresso nos nossos “Fragmentos e Opiniões” 

Passos, a voz de barítono e a mentira 

Talvez não por acaso, alguns dos maiores génios da música colocaram barítonos em papéis em que o protagonista, pela força das circunstâncias, era obrigado a mentir ou mesmo a agir de forma irremediável.
Lembro-me, de uma assentada, de D. Giovanni, da ópera do mesmo nome composta por Mozart, ou ainda os Fígaros - tanto o das Bodas (Mozart) como o de 'O Barbeiro de Sevilha' (Rossini). Mesmo alguns compositores mais recentes não deixaram de o fazer. 

Verdi pôs no registo barítono o anão corcunda Rigoletto (o sofrido e simpático bobo da corte que manda matar o duque que engana a sua filha, embora o mandante por engano mate a própria filha), e, já neste século, Puccini deu voz barítona ao cônsul dos EUA de 'Madama Butterfly'. 

O nome deste cônsul diz tudo - Sharpless (que significa não aguçado, não incisivo, não agudo observador). Os barítonos são pois, para Mozart e Rossini, pais da ópera moderna, a voz ideal para a sedução, por um lado, e para a mentirola, por outro. As personagens não são desagradáveis. Por exemplo, D. Giovanni, segundo conta o seu criado Leporello, tem um rol impressionante de mulheres que seduziu (e enganou). 

Diz ele: "Em Itália, seiscentas e quarenta; na Alemanha, duzentas e trinta e uma; cem em França, na Turquia noventa e uma; mas em Espanha são já mil e três". Giovanni acaba mal (a própria ópera tem como subtítulo 'O Dissoluto punido", mas isso era imperioso na moral do século XVIII). Os Fígaros vão na mesma linha. Conseguem arranjar casamentos e encontros através de falsidades, sempre com desculpas que o público sabe serem esfarrapadas, mas em que os crédulos que com eles contracenam acreditam piamente. 

Não quero com isto dizer que todos os homens com voz de barítono são, por força, sedutores e enganadores. Apenas retiro daqui que a entoação, o timbre e a musicalidade barítona se propicia à coisa. E daqui chego ao barítono Passos Coelho. Também ele é sedutor e também ele já nos enganou uma boas vezes. Mas tem uma voz que o ajuda nessa tarefa, que lhe dá credibilidade. 

E é absolutamente espantoso como a sua calma e a sua voz apaziguadora nos livraram há menos de um ano da birra de Portas e já nos trouxeram até aqui. Mas se o inferno não se vai abrir a seus pés, como para D. Giovanni, também não creio que saia de cena com a mesma apoteose com que saem os Fígaros. 
Não creio que mate quem quer defender (o país) como Rigoletto, nem que seja absolutamente Sharpeless como o cônsul da Madama Butterfly. Mas por um pouco de tudo isto há de passar. 

Porque a mentira tem perna curta e os que com ele contracenam no país, não são basbaques inventados na imaginação de um libretista. São pessoas reais. Por muito de positivo que Passos tenha feito, os barítonos acabam quase sempre ultrapassados pelos tenores.

Henrique Monteiro. Semanário Expresso. Coluna "Chamem-me o que quiserem"

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