BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa, integrando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade” que hoje recorda essa figura de nome Deniz Jacinto

quarta-feira, 14 de maio de 2014

O Teatro no Bancada Directa, integrando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade” que hoje recorda essa figura de nome Deniz Jacinto

In memoriam
Manuel Deniz-Jacinto nasceu em Condeixa-a-Nova em 8 de Janeiro de 1915 e faleceu em Coimbra em 8 de Janeiro de 1998. 
Está sepultado em Condeixa-a-Nova, sua terra natal
Foi um dos maiores teatrólogos portugueses. Foi encenador, actor, tradutor e ensaísta. Publicou diversas obras

O Teatro no Bancada Directa, integrando  a rubrica de Salvador Santos "No Palco da Saudade", que hoje recorda essa figura de nome Deniz Jacinto

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

DENIZ JACINTO
Figura destacada da nossa cultura do século XX, desenvolveu uma notável actividade em prol da divulgação e expansão do teatro em Portugal, ao mesmo tempo que prosseguia uma relevante intervenção cívica e política em defesa da democracia. 

Além de encenador, actor, tradutor, ensaísta, conferencista, dirigente associativo, professor e investigador, foi também um esforçado resistente antifascista, combatendo a ditadura do Estado Novo nas fileiras do Movimento de Unidade Democrática, do Movimento de Unidade Nacional Antifascista e do Partido Comunista Português. A sua resistência à política de Salazar foi punida com prisão por duas vezes, entre 1949 e 1953, tendo sofrido as mais diversas torturas e castigos físicos nas cadeias do Aljube e de Caxias. 

Nascido em Condeixa-a-Nova, em 1915, Manuel Deniz Jacinto frequentou a Universidade de Coimbra ente 1933 e 1943, onde concluiu as licenciaturas em Ciências Matemáticas, Engenharia Geográfica e Ciências Pedagógicas. Durante o seu período de estudante evidenciou-se pela participação na vida académica, integrando o Orfeão Académico, que chegou a dirigir, assumindo mais tarde a presidência da Associação Académica, ao mesmo tempo que desenvolvia uma intensa actividade no Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC), de que foi um dos fundadores em 1938. 
Album da Queima das Fitas dos Quartanistas de Ciencias da Universidade de Coimbra. 1936

Aqui, no TEUC, este gigante dos palcos foi acumulando uma vasta experiência como ator, incendiando as plateias com as suas inesquecíveis personagens vicentinas. Sob a direcção do seu companheiro de várias aventuras teatrais Paulo Quintela, Deniz Jacinto criou um marcante diabo do “Auto da Barca do Inferno”, ainda hoje considerado como a melhor interpretação de sempre de uma personagem de Gil Vicente, autor de sua predilecção que estudou e divulgou intensamente. 

A par da dramaturgia vicentina, ele tinha uma preferência especial pelas tragédias gregas, que representou com imenso agrado durante a permanência no TEUC, de onde foi forçado a sair por influência da PIDE, em 1947. Dois anos antes, havia assumido o cargo de director do jornal Diário de Coimbra, onde assinou alguns artigos que determinariam a sua demissão compulsiva. Este facto viria a contribuir decisivamente para a sua prisão e posterior libertação condicional com residência fixa no Porto, onde acabou por ficar. 

A viver na cidade Invicta a partir de 13 de Fevereiro de 1953, Deniz Jacinto viria a prosseguir a sua actividade profissional no Teatro Experimental do Porto (TEP), onde exerceu os cargos de director e professor da Escola de Teatro daquela companhia, leccionando as disciplinas de História de Teatro e Arte de Dizer. O ensino e a pedagogia estiveram, aliás, sempre presentes no seu trabalho, mesmo quando exercia apenas as funções de encenador, transmitindo aos seus actores todos os ensinamentos adquiridos ao longo dos tempos. 
Essa sua especial e natural vocação levá-lo-ia mais tarde a dirigir o Curso de Teatro da Escola Superior Artística do Porto (ESAP), a partir da sua fundação. Paralelamente à sua actividade como docente, Deniz Jacinto prefaciou e traduziu várias peças, dedicou-se à crítica teatral, emprestou a sua colaboração a revistas e outras publicações culturais e participou em inúmeros colóquios, conferências, palestras e mesas-redondas. 

A este conjunto de comunicações e outros escritos juntam-se os seus estudos sobre Gil Vicente e a Tragédia Grega, que viriam a proporcionar a publicação de dois títulos extraordinariamente importantes para o conhecimento daquelas obras clássicas: “Figuras do Teatro de Gil Vicente” (editado em 1953) e “A Tragédia, Enciclopédia de Teatro (editado em 1953), de que resultou a edição, em 1991, de três volumes que reúnem toda a sua obra, e que surgem como corolário da sua carreira. 

As entidades públicas nacionais e da cidade de Coimbra ligadas aos sectores da Cultura e da Educação e a mais alta individualidade da Nação souberam honrar, ainda em vida, o Homem e a Obra. 
Como actor Deniz Jacinto fez um brilhante papel na figura do diabo na peça "Auto da Barca do Inferno". Teatro Experimental do Porto

Em 1996, o Ministério da Cultura e a Câmara Municipal de Coimbra agraciaram-no com Medalhas de Mérito Cultural, numa cerimónia promovida pelo Instituto de Teatro Paulo Quintela; em 1997, a Universidade de Coimbra homenageou-o com a Medalha de Honra; e, em 1988, o Presidente da República Mário Soares concedeu-lhe a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique. 

Estas distinções foram recebidas por Deniz Jacinto com naturalidade, mas também com o pragmatismo que o caracterizava e, sem falsas modéstias, com a consciência clara de que soubera contribuir, indubitavelmente, para o enriquecimento do teatro em Portugal. Tivemos a felicidade de conviver durante algum tempo com Deniz Jacinto, já muito trémulo e dominado pela doença de Parkinson, mas sempre lúcido; lucidez que manteve até ao fim dos seus dias. Falamos obviamente sobre teatro, mas também sobre política. 

E ele tinha bem presente na memória tudo o que fizera ao longo dos tempos, demorando-se muitas vezes em pormenores deliciosos, sobretudo quando se debruçava sobre os acontecimentos que culminaram com o cerco à Assembleia Constituinte, onde teve assento como deputado eleito pelo MDP/CDE. E sempre o vimos de rosto levantado, a tratar os deuses por tu, pronto a encetar qualquer honrada travessia, como a aquela para a qual seria chamado a 8 de Janeiro de 1998, quando a morte o veio buscar. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional dr São João. Porto 
Porto. 2014. Maio. 12

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