BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa como sempre às quartas. Integrando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade” e hoje referindo-se à saudosa figura de Paulo Quintela

quarta-feira, 7 de maio de 2014

O Teatro no Bancada Directa como sempre às quartas. Integrando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade” e hoje referindo-se à saudosa figura de Paulo Quintela


In memoriam 
Paulo Quintela nasceu em Bragança no dia 24 de Dezembro de 1905 e faleceu na cidade de Coimbra em 9 de Março de 1987 
Foi professor na Faculdade de Letras de Coimbra e tradutor literário 
 Foi um grande impulsionador activo do TEUC tendo assumido a direcção artística do grupo e sido encenador


O Teatro no Bancada Directa como sempre às quartas. 
Integrando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade” e hoje referindo-se à saudosa figura de Paulo Quintela 

“No Palco da Saudade” 
 Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)


PAULO QUINTELA
Nascido de uma família transmontana de origem humilde, em Bragança, ingressou na Universidade de Coimbra em 1922 para estudar Filologia Germânica. Frequentou, entre 1927 e 1929, a Universidade de Frederico Guilherme (actual Universidade de Humboldt), em Berlim, onde viria a exercer as funções de leitor de Português no Seminário de Línguas Românicas já depois de ter concluído a sua licenciatura. 

Em Outubro de 1933, de regresso a Portugal, ocupou o lugar de professor auxiliar de Filologia Germânica na Faculdade de Letras de Coimbra, tendo sido encarregado de cursos de Literatura Inglesa e de Literatura Alemã. Em Abril de 1969, tomou posse como professor contratado externo ao quadro daquela Faculdade e, em Outubro de 1970, foi então admitido como professor equiparado a catedrático.


 Cidadão empenhado e defensor convicto da liberdade de pensamento e expressão, Paulo Quintela colocou-se abertamente ao lado dos estudantes nas crises académicas de 1962 e 1969, tendo sido eleito em 1964 sócio honorário da Associação Académica de Coimbra. Dada a sua conhecida posição de discordância crítica, quando não mesmo de declarada rebeldia, em relação ao sistema ditatorial vigente no país até à abril de 1974, não é de estranhar que os governos de Salazar e de Caetano se houvessem recusado de forma obstinada a conceder-lhe a nomeação de professor catedrático por distinção, que fora prática universitária relativamente frequente no tempo do antigo regime. Essa nomeação, longa e justamente ansiada, viria a ser-lhe concedida apenas após a Revolução dos Cravos, em 19 de abril de 1975, a poucos meses da jubilação.


Para além da sua grande envergadura como cidadão, investigador e professor universitário, Paulo Quintela notabilizou-se também pela sua ação como diretor artístico e encenador do Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC), de que foi aliás um dos fundadores em 1938. Sob a sua direção segura e esclarecida, o TEUC soube afirmar-se no meio universitário português, durante as difíceis décadas de 1940, 50 e 60, como uma verdadeira escola ímpar de teatro e de cultura, de camaradagem fraterna e de experiência cívica. A ele se devem algumas encenações de antologia de peças de alguns dos maiores dramaturgos universais, mas o que poucos saberão é que ele foi também ator e que as suas primeiras experiências no teatro foram como… ponto.

No segundo ano de Faculdade, com pouco mais de dezassete anos, uma doença súbita levou-o a suspender temporariamente os estudos. Depois de restabelecido, e após cumprido o necessário período de convalescença, juntou-se ao pai (um humilde pedreiro) e a sete dos seus nove irmãos num grupo cénico bragantino que percorria regularmente as várias freguesias de Bragança com espectáculos populares. Por timidez, ou por consciência de limitações como intérprete, Paulo Quintela optou sempre por servir o grupo como ponto, ajudando os seus colegas actores a memorizar e a transmitir correctamente os textos dos autores que compunham o repertório daquele grupo amador. Mas quis a roda fortuna que ele viesse a experimentar também as funções de actor.


 Alguns anos depois da fundação do TEUC – que nasceu com a designação de Grupo Cénico da Secção de Fado Académico de Coimbra ¬–, nas vésperas da estreia de “A Sapateira Prodigiosa”, de Federico Garcia Lorca, o grupo recebeu a notícia de que o ator que interpretava o sapateiro, o principal papel masculino da peça, não podia comparecer ao espetáculo. Paulo Quintela, que sabia todos os papéis de cor, o que sempre aconteceu com todas as peças que encenava, decidiu ser ele próprio a vestir a pele daquela personagem para que o espetáculo não fosse cancelado. E o improvisado actor não se saiu nada mal! Mas era na função de encenador que ele era realmente exemplar, no exercício da qual deixou uma marca indelével, sobretudo quando em boa hora decidiu ressuscitar Gil Vicente da poeira dos compêndios para as tábuas do palco.

Sem esquecer algumas tímidas, mas louváveis, iniciativas do Teatro D. Maria II na década de 1940, foi Paulo Quintela quem melhor soube defender e promover Gil Vicente. Para além de ter escrito inúmeros ensaios sobre a dramaturgia vicentina, encenou de forma brilhante peças como “Trilogia das Barcas”, “Auto da Feira”, “Auto da Visitação”, “Farsa de Inês Pereira” ou “Breve Sumário da História de Deus”, espectáculos que, juntamente com as tragédias “Medeia” de Eurípedes, “Antígona” de Sófocles e “Prometeu Agrilhoado” de Ésquilo, conquistaram prémios e os mais diversos louvores em Portugal e no estrangeiro, nomeadamente em festivais internacionais organizados em Mogúncia, Friburgo, Verona, Genebra, Saarbrücken, Nancy e Bristol.


 Manuel Alegre resumiu assim o inestimável trabalho de formação teatral, cultural e cívica de Paulo Quintela: «Nada sabíamos da língua portuguesa / e então sílaba a sílaba ele ensinou-nos / a música secreta das vogais / a cor das consoantes a ondulação o ritmo / o marulhar das frases e o seu / sabor a sal. / E também como pisar um palco / como falar como calar e sobretudo / como sair de cena e entrar / no grande teatro deste / mundo. / Porque tudo era proibido e ele nos disse / que tudo pode ser ousado / desde que se aprenda a entrar a tempo / a colocar a voz e a não perder / a alma.»

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2014. Maio.05

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