BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. A recordação de hoje é o Visconde de São Luis de Braga

quarta-feira, 21 de maio de 2014

O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. A recordação de hoje é o Visconde de São Luis de Braga

In memoriam
Luiz de Braga Junior, 1º Visconde de São Luiz de Braga nasceu no Brasil, no Rio Grande do Sul em 26 de Março de 1850 e faleceu em Portugal, na cidade do Porto em 15 de Março de 1918
Foi uma figura ligada ao meio teatral português como empresário de sucesso. Antes tinha sido jornalista e comentador politico


O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. 
A recordação de hoje é o Visconde de São Luis de Braga 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 


VISCONDE S. LUIZ DE BRAGA 

Influente empresário teatral no meio lisboeta de finais do século XIX e princípios do século XX, iniciou a sua carreira no teatro como ponto no Brasil, onde foi também empresário de sucesso. 

De ascendência portuguesa, filho de pais abastados, nasceu no Estado brasileiro do Grande Rio do Sul, foi jornalista e comentador político antes de enveredar pelo universo teatral, impondo-se rapidamente junto dos grandes nomes da cena carioca, onde então pontificavam as estrelas portuguesas Lucinda Simões, António Pinheiro e Furtado Coelho. 

Na cidade do Rio de Janeiro deixou o seu nome ligado aos melhores tempos da história do Teatro Recreio Dramático e em Lisboa acabou por dar o nome ao Teatro São Luiz, que dirigiu durante mais de vinte anos. Segundo testemunhos de alguns profissionais que com ele trabalharam, Luiz de Baga terá levado uma vida de luxo, dissipando três grandes pecúlios herdados de sua família. 


Segundo outros testemunhos, a sua fortuna terá resultado da especulação bolsista quando foi implantada a República no Brasil. E houve ainda quem o acusasse de ter enriquecido de forma duvidosa, o que o obrigou a viajar apressadamente para Lisboa, onde viria a prolongar a sua carreira de empresário. Mas o que é garantidamente verdade é que, já em Portugal, ele recebeu o título de Visconde S. Luiz Braga, criado especialmente para si, que lhe foi outorgado por D. Carlos I, com quem mantinha excelentes relações pessoais e que lhe cedeu os terrenos para a construção de um Teatro. 

Sob o impulso do actor Guilherme da Silveira constituiu-se então uma sociedade para a edificação do teatro, na antiga rua do Tesouro Velho, em terrenos pertencentes à Casa Real de Bragança. Sob a presidência de Visconde S. Luiz de Braga, a direcção daquela sociedade decidiu encomendar ao francês Louis-Ernest Reynaud o projecto de arquitectura do teatro, que viria a ser ligeiramente modificado em Lisboa pelo arquitecto Emilio Rossi. 


Sete meses após o inicio da sua construção, o teatro viria a ser inaugurado oficialmente a 22 de Maio de 1894, por suas Majestades D. Carlos e D. Amélia de Orleães, de quem veio a receber o nome de… Teatro Dona Amélia, que abriu com a estreia da opereta de Offenbach “A Filha do Tambor”, com cenografia de Luigi Manini. 

A primeira grande preocupação de Visconde S. Luiz de Braga enquanto director do Teatro D. Amélia residiu na escolha do repertório, optando pelo recurso ao que se produzia no meio teatral parisiense, onde era bastante conhecido. 

Segundo um dos seus mais próximos colaboradores, a opção pela dramaturgia francesa resultava não só do facto de esta ser «mais assimilável ao snobismo dos portugueses» da época, mas ainda porque permitia também ganhar os favores dos «comerciantes especiais da literatura de França, no que respeita à negociação dos valores dos direitos de autor e dos cachets dos artistas, bem como no que concerne aos preços de compra dos espectáculos em tournée. Pelo vasto leque de artistas estrangeiros que trouxe à capital portuguesa e pelo apoio concedido à produção nacional, a direcção de Visconde S. Luiz de Braga no Teatro D. Amélia foi muito aclamada pela maioria dos críticos e jornalistas, bem como pelo público em geral. 

Contudo, houve quem criticasse a sua gestão, evidenciando o lado mercantil do empresário como um atributo que se revelava frequentemente negativo, dando apenas frutos ocasionais, como aconteceu com a passagem por aquele palco da actriz Georgette Leblanc, com as peças “Monna Vanna”, “Joyzelle” e “A Intrusa”, da extraordinária bailarina americana Loïe Fuller e da fogosa atriz japonesa Sada Yacco. 

Vários artistas e dramaturgos, que se relacionaram com o Visconde S. Luiz de Braga, recordaram-no de maneira muito pouco gentil, mas a maioria dos seus contratados relevavam alguns dos seus excessos enquanto empresário, como foi o caso da actriz Adelina Abranches, que, apesar de admitir que ele «não tinha grande amor aos seus escriturados», não hesitou em o considerar um dos maiores animadores do teatro português, com apurado gosto, competência profissional e valiosos contactos. 

Consta aliás que ele próprio admitia tratar os seus artistas «como os limões; espremiam-se até deitar suco; e que depois de bem espremidos, deitavam-se para o lado, por inúteis». O Visconde S. Luiz de Braga foi, em suma, um hábil empresário que se preocupava mais com as questões financeiras do que com as artísticas, escolhendo o repertório e gerindo as despesas de montagem dos espectáculos de uma forma mais lucrativa possível. 

Aspecto do rescaldo do grande incêndio que destruiu o Teatro Dona Amélia

Contudo, é inegável o seu conhecimento do mundo artístico, bem como os seus valiosos contactos no meio literário e jornalístico. Como individuo, foi muitas vezes recordado como supersticioso, gentil e bem-disposto, dotado de «uma forte inteligência, uma grande actividade cerebral, um tacto comercial de primeira ordem, uma afectuosidade terníssima». E como empresário gozava de uma reputação excelente. 

Um incêndio ocorrido a 13 de Setembro de 1914 reduziu a cinzas o Teatro D. Amélia, o que constituiu um rude golpe na sanidade mental do Visconde S. Luiz de Braga, que foi internado numa casa de saúde do Porto, onde veio a falecer em 1918. 

Nesse mesmo ano, o Presidente da República Bernardino Machado, após a recuperação daquela sala de espectáculos, rebaptizou-a de Teatro S. Luiz, em sua homenagem. 

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2014. Maio. 20

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