BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade” é um trabalho semanal de Salvador Santos integrando a rubrica deste blogue “O Teatro no Bancada Directa”. Hoje Salvador Santos recorda a figura de Fernando Amado

quarta-feira, 28 de maio de 2014

“No Palco da Saudade” é um trabalho semanal de Salvador Santos integrando a rubrica deste blogue “O Teatro no Bancada Directa”. Hoje Salvador Santos recorda a figura de Fernando Amado

In memoriam
Fernando Amado, de seu nome completo Fernando Alberto da Silva Amado, nasceu em Lisboa em 15 de Junho de 1899 e faleceu nesta mesma cidade em 23 de Dezembro de 1968
A actividade de Fernando Alberto da Silva Amado enquanto actor, encenador, professor, dramaturgo ou director de grupos de teatro, pautou-se sempre por uma urgência em romper com a mediania intelectual vigente.

 “Enjoado de confusões e enredos piegas, o artista do nosso tempo lá encontrou os caracteres puros que ardentemente buscava: a linha simples, a nudez essencial. Começou a entender o significado simbólico da máscara, do manto, dos coturnos. Sentiu por contraste a miséria do chamado realismo e a absurda fragilidade duma caracterização, que em regra perde volume e vigor a cinco passos

Fernando Amado (1899-1968)


 “No Palco da Saudade” é um trabalho semanal de Salvador Santos integrando a rubrica deste blogue “O Teatro no Bancada Directa"
Hoje Salvador Santos recorda a figura de Fernando Amado 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)





FERNANDO AMADO 
Foi um homem conservador e partidário da monarquia, que soube conviver com as ideias mais progressivas, cativando amizades e respeito nos mais variados quadrantes políticos, batendo-se como poucos contra a mediania intelectual vigente. Ainda jovem deixou-se seduzir pelo grupo de Orpheu, mantendo com Almada Negreiros uma cumplicidade que atravessou toda a sua vida e obra. Foi, aliás, sob a influência do futurismo que escreveu o primeiro texto teatral (“O Homem-Metal”), sendo depois autor de mais três dezenas de peças.

 E antes de se estrear como fazedor de teatro, assinou, sob o pseudónimo Ariel, diversas críticas teatrais no jornal Aléo, que dirigiu entre 1941/46. Fernando Amado iniciou em 1946 a sua actividade teatral, que prosseguiu com algumas poucas intermitências durante dezoito anos, estreando-se simultaneamente como encenador, actor e dramaturgo em “A Caixa de Pandora”, no velho Teatro Ginásio, em Lisboa, com um grupo de teatro amador que designou de Casa da Comédia – nome que faria história na década de 1960. 

Este seu espectáculo de estreia foi extremamente bem recebido pela crítica, que aplaudiu o esforço inovador e renovador de um grupo que assim ofuscava muito do teatro profissional que se praticava na altura, tendo a peça, enquanto documento dramatúrgico, conquistado um estatuto de manifesto das suas ideias sobre teatro, permanecendo ainda hoje como a mais conhecida de toda a sua obra. 


A carreira teatral de Fernando Amado prolongou-se após este início auspicioso com uma regular produção de textos dramáticos e prosseguindo no palco de estreia a encenação de mais seis peças no âmbito do então recém-criado (em 1945) Centro Nacional de Cultura (de que foi fundador): “O Meu Amigo Barroso”, “Música na Igreja”, “O Ladrão”, “Novo Mundo” e “A Caixa de Pandora”. 

A seu lado, na criação destas excelentes produções, estiveram nomes ilustres como Carlos Botelho, António Dacosta e António Lino, na qualidade de cenógrafos e figurinistas; ou Ricardina Alberty, Rui Cinatti, Afonso Botelho, Vasco Futcher Pereira e Flórido Vasconcelos, então jovens actores, que viriam a marcar, e muito, a cultura e a vida pública portuguesa! 

A partir de 1949, o homem de teatro que hoje evocamos transitou então para o Teatro Estúdio do Salitre, um projeto superiormente orientado por Gino Saviott, Vasco Mendonça Alves e Luiz Francisco Rebello numa pequena sala cedida pelo Instituto Italiano de Cultura, que animou a cena teatral lisboeta durante quatro gloriosos e inesquecíveis anos. 


E foi ali naquele micro teatro da rua do Salitre, junto ao largo do Rato, que Fernando Amado encenou, em estreia absoluta, “Antes de Começar” de Almada Negreiros e o seu próprio texto “O Casamento das Musas”, dois espectáculos em que a crítica da época destacou sobretudo a excelente colaboração do multifacetado poeta-pintor do Orpheu e de sua mulher, Sarah Afonso, na criação dos figurinos. Na primeira metade dos 1950, Fernando Amado dedica-se com maior regularidade à escrita. Recebe depois o convite para leccionar Estética Teatral no Conservatório Nacional, cadeira que viria a acumular com a disciplina de Arte de Representar. 

Assume de seguida a direcção do Teatro Universitário de Lisboa e do Grupo de Teatro da Paróquia de São João de Deus, para mais tarde, na transição de 1959 para 1960, aceitar o desafio de dirigir o Grupo de Teatro da Faculdade de Letras de Lisboa, ao mesmo tempo que experimenta a criação de um grupo cénico na Academia de Amadores de Música que não chega a vingar. Retoma, entretanto, a realização de espectáculos no Centro Nacional de Cultura, onde conhece João Osório de Castro. 

Estimulado por aquele conhecido industrial de móveis para escritório, amante de teatro e esforçado dramaturgo, Fernando Amado envolve-se na aquisição de uma antiga carvoaria das Janelas Verdes, e na sua transformação num Teatro de Bolso a que deu o nome do seu primeiro grupo cénico – Casa da Comédia. Muitos dos que então se reuniram em torno deste projecto viriam a ser figuras proeminentes do nosso teatro contemporâneo, como o saudoso Santos Manuel. 


Para a inauguração do novo espaço são escolhidos nove poemas de Teixeira de Pascoaes, num espectáculo muito saudado pela crítica, a que se lhe segue uma produção constituída por poemas de Jean Cocteau. A dimensão poética dos textos, o apego à depuração e à ausência de efeitos cénicos, aliado a uma atitude pedagógica, justifica também a presença de Gil Vicente nos primeiros anos da Casa da Comédia. 

Mas a constituição do repertório daquele espaço fez-se igualmente de textos representantes de uma dramaturgia moderna. Nesse capítulo, incluem-se “Deseja-se Mulher” e “Antes de Começar” de Almada Negreiros, apresentando-se este último texto, juntamente com “O Iconoclasta ou O Pretendente Imaginário” do próprio Fernando Amado, como um “Recital de Teatro Moderno”. No ano seguinte, em 1965, a morte da mulher deixa-o de rastos. E a doença progressiva que se lhe seguiu impedem-no de continuar. 

Em finais de 1966, já muito fragilizado pela doença, Fernando Amado ainda inicia os ensaios da peça “A Cabeça de Baptista e Sacrilégio” de Valle Inclán, mas não consegue levá-la a cena. E a 23 de Dezembro de 1968 a morte leva-o, para grande tristeza e desgosto do nosso meio teatral. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. Maio. 27

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