BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa apresentando a rubrica do nosso Salvador Santos “No Palco da Saudade”. Jayme Valverde é a motivação de hoje para a sua recordação

sábado, 5 de abril de 2014

O Teatro no Bancada Directa apresentando a rubrica do nosso Salvador Santos “No Palco da Saudade”. Jayme Valverde é a motivação de hoje para a sua recordação

 O Teatro no Bancada Directa apresentando a rubrica do nosso Salvador Santos 
“No Palco da Saudade”. 
Jayme Valverde é a motivação de hoje para a sua recordação 

“No Palco da Saudade” 
 Texto inédito e integral de Salvador Santos

JAYME VALVERDE 
Jayme Valverde trabalhou na peça "Os Maleficios do Tabaco" de Anton Tchekov. Interpretou o papel de Ivan Ivanovitch. Teatro Experimental do Porto

 Sonhou um dia derrubar a ditadura e associou-se a outros jovens oficiais milicianos que arrastaram consigo quatrocentos militares do Regimento de Cavalaria 6, do Porto, que acabaram por ser detidos a caminho de Coimbra – uma rebelião que ficou para a história como a Revolta da Mealhada. Aquela coluna militar estava para ser acompanhada por um levantamento de tropas em Tomar, coordenado por Mendes Cabeçadas, que rumaria também à capital do Mondego, onde Salazar passava férias, mas que não chegou a sair do quartel. 

Como consequência, o alferes Valverde não escapou a dois penosos anos de prisão e a posteriores buscas nocturnas em sua casa sempre que a PIDE desconfiava da preparação de alguma movimentação revolucionária. Estávamos a 10 de Outubro de 1946 e aquele acontecimento acabaria por determinar o fim de uma sonhada carreira militar. No regresso à vida civil, Jayme Valverde dedicou-se ao estudo e à prática do teatro nos mais diversos grupos amadores da cidade do Porto, que ele conhecia muitíssimo bem. 
Regimento de Cavalaria 6 no Porto. Daqui saíram as tropas que foram detidas em Coimbra. Chamou-se a Revolta da Mealhada e em que Jayme Valverde tomou parte associando-se a outros oficiais milicianos.

 A sua avó paterna era proprietária de uma conhecida casa de aluguer de guarda-roupa para teatro – a Casa Valverde da rua de Santo Ildefonso –, que ele recebeu por herança, aonde recorriam com grande frequência quase todos o que se dedicavam à produção de artes cénicas. E, aos poucos, o ex-militar acabaria por se transformar num dos mais talentosos e conhecedores homens de teatro da sua época, que marcou várias gerações de actores portugueses. 

O crescimento de Jayme Valverde como actor deveu-se em grande parte ao Teatro Experimental do Porto, onde participou em alguns dos mais importantes espectáculos da sua carreira. São disso exemplos a glosa da tragédia de Sófocles “Antígona” escrita pelo mestre António Pedro, “Macbeth” de William Shakespeare, “Guerras de Alecrim e Manjerona” de António José da Silva ou “Ratos e Homens” de John Steinbeck. 
Mas a sua grande coroa de glória, foi sem dúvida a peça “Os Malefícios do Tabaco” de Anton Tchekhov, que durante mais de uma dezena de anos foi objecto de inúmeras revisitações. Foi tão grande o sucesso da sua criação que correu a lenda de que Valverde teria servido de modelo ao autor russo para escrever aquela sua obra-prima… 

Jayme Valverde era um grande estudioso, um ser humanista, sonhador e com imenso saber. Durante muitos anos dirigiu um curso de teatro no Clube Fenianos Portuenses, alforge de excelentes actores. E a todos eles soube explicar, sugerir, corrigir, as mais diversas técnicas de representação, desde a voz à respiração, desde o valor dos silêncios à divisão das frases. 

E soube também incutir neles o estudo, o entusiasmo, a inquietação e o desassossego com que abraçava todos os seus trabalhos e as suas relações, sempre com grande verdade e verticalidade. Sempre pronto a combater de forma enérgica pelos seus ideais e pelas causas em que se empenhava, foi também um exemplo de coragem e de determinação em vários momentos da sua vida no teatro. 
 Uma noite no café Leão d’Ouro, na Praça da Batalha, lugar que Jayme Valverde frequentava assiduamente como um dos principais animadores de uma tertúlia informal de homens das artes e das letras, ouviu-se dizer que o Teatro Rivoli ia ser demolido para dar lugar um Banco. E eis que ele logo se insurgiu, garantindo que tal desiderato não aconteceria sem a sua forte contestação, afirmando que resistiria fisicamente a tais propósitos, embora de forma pacífica, deitando-se no hall do teatro e dali não saindo, mesmo que lhe lançassem jactos de água ou o espancassem. 

A ele juntaram-se outros, muitos outros, firmemente determinados a não deixar destruir o Rivoli. Este movimento chegou aos ouvidos da administração do Banco que se disponibilizou a construir um teatro noutro lugar, mas tal não foi aceite. Gritou o Valverde: «O Rivoli é nosso!». Em meados de 1970, cruzámo-nos com Jayme Valverde em Luanda. Era um homem alto, calvo, cuja cabeça rapava diariamente, e que impunha um certo respeito. 

Nessa altura tinha já sessenta e dois anos e fora convidado para dar aulas de história e geografia na capital da ex-colónia de Angola, o que só aceitou depois de ter conhecimento de que se congeminava por lá a criação de um Clube de Teatro, que tinha como dinamizadores José Campelo e Sousa, Alda Rodrigues, Angerino de Sousa e Heitor Gomes Teixeira. Escusado será dizer que o seu contributo foi desde logo solicitado, como pedagogo e ator. E pouco tempo depois tivemos o privilégio de o ver representar de forma soberba o seu Ivan Ivanovitch de “Os Malefícios do Tabaco”. 


Nas vésperas do seu regresso à cidade do Porto, conversámos animadamente numa cervejaria da marginal luandense sobre a situação política em Portugal e pareceu-nos ver nos seus olhos um intenso brilho de esperança na concretização de uma ação que lhe parecia iminente com vista ao derrube do governo de Marcelo Caetano, de que aparentemente teria conhecimento. Os Capitães de Abril deram-lhe essa grande alegria três anos antes de a morte o levar consigo, em 28 de maio de 1977. 

Jayme Valverde ainda assistiu ao início da grande transformação que a Revolução dos Cravos viria a operar no nosso país. Um país que ele sempre idealizara mais justo, mais humano, mais atento aos que menos têm e aos que mais sofrem. Era um Grande Homem, o Valverde! 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. Março. 31

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