BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade” e hoje faz a recordação do actor Costa Ferreira

quarta-feira, 9 de abril de 2014

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade” e hoje faz a recordação do actor Costa Ferreira

In memoriam
Costa Ferreira nasceu em Elvas em 10 de Junho de 1918 e faleceu em Lisboa em 29 de Julho de 1997. Tinha 79 anos
Foi no seu inicio profissional advogado e depois um actor e escritor teatral . Teve especial relevo na reestruturação administrativa e cénica do Teatro Nacional D. Maria II após o grande incêndio que desvastou este teatro.

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade” e hoje faz a recordação do actor Costa Ferreira 

“No Palco da Saudade” 
 Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

COSTA FERREIRA 

Descendente de uma família da alta burguesia eborense, de pai militar com a patente de general, desde a mais tenra idade que se apaixonara pelo teatro. Em Lisboa, para onde foi muito jovem, experimentou a representação nas festas escolares e teve depois propostas para colaborações cénicas mais sérias. 
 Costa Ferreira e Armando Cortez na farsa teatral "O Tinteiro" Autor Carlos Muñiz. Teatro Moderno de Lisboa. 1961. Este espectáculo inaugurou a actividade do TEL no cinema Império. Elenco da peça: Armando Cortez, Armando Caldas, Carmen Dolores, Costa Ferreira, Fernanda Alves, Fernando Gusmão, Luis Alberto, Morais e Castro, Nicolau Breyner, Rogério Paulo, Ruy de Carvalho, Rui Mendes, Tomás de Macedo e outros

Mas, por obediência e amor aos pais, foi recalcando o apelo dos palcos até se licenciar em Direito e em Ciências Histórico-Jurídicas. E logo depois de tranquilizar a família quanto ao seu futuro profissional, foi exercendo advocacia enquanto se abalançava nas artes do palco, quer como critico quer como actor (no teatro não-profissional), quer também como autor e tradutor. 

Até que tomou a decisão de abandonar a sua promissora carreira de jurista. A estreia de Costa Ferreira como actor aconteceu no Pátio das Comédias, companhia para a qual escreveu a sua primeira peça, “Nocturnos”. A sua faceta de dramaturgo viria a ser, aliás, a pedra de toque da primeira metade do seu percurso artístico. 
 Sem nunca deixar de representar, foi escrevendo algumas das peças mais representativas da dramaturgia portuguesa do início da segunda metade do século XX, onde se nota uma observação atenta da vida e da sociedade dos anos 1950, de que são excelentes exemplos “Por um Fio” (1950), “Trapo de Luxo” (1952), “Milagre da Rua” (1952), “Quando a Verdade Mente” (1955), “Atrás da Porta” (1956), “Comédia das Verdades e das Mentiras” (1956), “Um Dia de Vida” (1958) e “Um Homem Só” (1959). 

O trabalho de escrita teatral de Costa Ferreira teve ainda continuidade no início da década seguinte com as peças “Os Desesperados” e “O Quarto” (ambas de 1961), que viriam a ser proibidas pela censura, o que o levou a partir daí a não produzir mais nenhuma obra dramática, assumindo o silêncio como recusa do papel que vinha sendo exigido aos artistas e intelectuais pelo regime salazarista. 


Em 1964 o Teatro Nacional D. Naria II foi “palco” de um brutal incêndio que apenas poupou as paredes exteriores. O edifício que hoje conhecemos, e que respeita o original estilo neoclássico, foi totalmente reconstruído e só em 1978 reabriu as suas portas. Costa Ferreira, como dirigente deste espaço teatral teve muitas responsabilidades excelentes no processo de reabertura do Teatro.


 Esse silêncio só seria quebrado após a Revolução de Abril, com a publicação de “Uma Casa Com Janelas Para Dentro”, um livro memorialístico onde evoca seis décadas da vida portuguesa, rememorando o seu itinerário pessoal e artístico ao longo do percurso histórico que vai desde os últimos anos da I República até ao 25 de Abril de 1974, sob a perspectiva do teatro e de uma geração que teve, pelas artes de palco, a ousadia de lutar pela liberdade. 

O lema de vida de Costa Ferreira, expresso aliás no seu livro de memórias, era este: «Não tenho a pretensão de endireitar o mundo, mas sim o firme propósito de não me deixar entortar». E foi o que ele fez desde sempre, resistindo a todas as artimanhas da gente da sua classe social no sentido de o comprometerem com o regime de Salazar. O seu comportamento ético foi sempre constante e irrepreensível, quer como cidadão, quer como criador. 

Como cidadão, esteve sempre próximo dos opositores ao regime; como criador, esteve na primeira linha de todos os combates que visavam a defesa de um repertório livre e independente, como aconteceu aquando da criação do Teatro Moderno, uma das experiências mais marcantes do teatro português do século XX. Como actor e encenador, Costa Ferreira esteve ligado a alguns outros dos grupos mais arrojados e inovadores do teatro português, como foi o caso da Companhia Nacional Popular, o Teatro Nacional Popular ou o Teatro da Cornucópia. 
Fachada da ala oeste do Teatro Nacional D. Maria II no espaço em frente à estação do Rossio. (Largo D. João da Câmara) Tempo da vivência do popular Cocas naquele teatro

Meses antes do 25 de Abril de 1974, dirigiu no Teatro Laura Alves, a convite da produtora Metrul, um dos espectáculos mais emblemáticos na carreira de dois dos nossos maiores actores de sempre, José de Castro e Morais e Castro – “Zoo Story” de Edward Albbe –, e pouco tempo depois seria convidado para integrar a Comissão Instaladora do Teatro Nacional D. Maria II, ao lado de Mestre Ribeirinho e do Pintor Lima de Freitas, tendo por responsabilidade a reabertura ao público daquele monumento nacional em 1978. 


 Paralelamente às suas funções de dirigente no D. Maria II, Costa Ferreira manteve-se também activo naquele teatro como actor, participando em quase todas as peças ali levadas a cena até ao final da década de 1980, ao mesmo tempo que retomaria o exercício da escrita, alargando o seu âmbito à ficção novelística com “Uma Família e Duas Repúblicas” e à crónica romanceada com “Uma Vida em Cinco Dias”, um dos melhores livros publicados em Portugal sobre os acontecimentos de Maio de 1968.




A renovação e a modernização do teatro português, permanentemente vigiado, continuaria por se cumprir. Depois deste espectáculo, só após quase dez anos, em 1956, se poderá assistir a um novo Ibsen: João Gabriel Borkman encenado por Costa Ferreira, para a Empresa Vasco Morgado, com João Villaret, integrado no cinquentenário do autor. O espectáculo é apresentado no Teatro Monumental

São também desse tempo as belíssimas peças de teatro “Onde Está a Música?”, que o Teatro da Malaposta levou a cena em 1992, numa encenação do actor Rui Mendes, e “O Fim da Paciência”, baseada numa novela de José Saramago, peça essa que escreveu em parceria com o nosso Nobel da Literatura e que ainda hoje se mantém inexplicavelmente inédita. 

A partir do início da década de 1990, o nosso Amigo Cocas, como era carinhosamente tratado pelos seus camaradas de profissão, começou a ressentir-se de um agravamento de problemas de saúde que o incomodavam há alguns anos. E, aos poucos, foi-se despedindo de todos os amigos, certo de que o seu fim estava bem perto. 

Em 29 de Julho de 1997, a morte surpreendeu-o em casa, rodeado pela sua Otília – uma fiel empregada que o serviu durante mais de quarenta anos – e pelo marido desta. A este casal, e aos seus dedicados cuidados, se deve o prolongamento, até aos setenta e nove anos, da vida de Costa Ferreira, que partiu invocando os seus queridos e saudosos pais. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2014. Abril. 06

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