BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa com a rubrica semanal de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. O nosso homem do teatro recorda-nos hoje quem foi Alfredo Cortez

quarta-feira, 30 de abril de 2014

O Teatro no Bancada Directa com a rubrica semanal de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. O nosso homem do teatro recorda-nos hoje quem foi Alfredo Cortez

 In memoriam
Alfredo Cortez nasceu no Alentejo em Estremoz no dia 29 de Julho de 1880 e faleceu na cidade de Oliveira de Azemeis em 7 de Abril de 1946

Alfredo Ferreira Cortez, que era licenciado em Direito, começou por seguir a carreira da magistratura. Mais tarde notabilizou-se por ser  um dos dramaturgos portugueses com maior projecção no período que decorreu entre as duas grandes guerras mundiais.

O Teatro no Bancada Directa com a rubrica semanal de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. 
O nosso homem do teatro recorda-nos hoje quem foi Alfredo Cortez 

“No palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos 

ALFREDO CORTEZ 

Foi um dos dramaturgos portugueses com maior projecção mediática e reconhecimento público no período que decorreu entre as duas grandes guerras mundiais, tendo-se iniciado com relativo sucesso na escrita popular para o teatro de revista. Aderiu depois ao naturalismo, experimentou o expressionismo e o drama histórico, acabando por abordar os costumes das gentes ligadas ao mar num registo marcadamente lírico. 
Antes disso, resistindo ao extraordinário fascínio que o teatro exercia sobre si e após a conclusão do curso de Direito na universidade de Coimbra, desempenhou um importante papel como membro da justiça portuguesa, com destaque para a sua passagem pela colónia de Angola como juiz de investigação criminal. Foi só a partir da plena maturidade que Alfredo Cortez se dedicou à actividade de autor dramático, estreando-se em 1918 no espetáculo de revista “Terra e Mar”, assinando com o pseudónimo de Virgílio Pinheiro. 

Seguiram-se duas peças de intenções sociais, caracterizadas pela complementaridade dos retratos da sociedade portuguesa da época: “Zilda”, que põe a nu a degradação moral das classes abastadas (apresentada em estreia absoluta no Teatro Nacional D. Maria II, em 1921), e “O Lodo” que representa não apenas o confronto entre duas irmãs, mas sobretudo a sordidez de um conflito entre mãe e filha no submundo da prostituição, e que foi levada à cena numa sessão única no Teatro Politeama em 1923 e remontada em 1979 pelo Teatro Nacional D. Maria II. 
O filme “ALA-ARRIBA!” produzido no ano de 1942 por José Leitão de Barros explora a expressão, centrando-se numa história inventada, mas documental, sobre a comunidade piscatória poveira. A ideia do filme proveio da obra “O Poveiro” de António dos Santos Graça pelo dramaturgo Alfredo Cortez. Por coincidência, este foi o primeiro filme português a ser premiado internacionalmente.

De modesto relevo foi a tentativa de incursão de Alfredo Cortez pelo drama histórico em verso, com “À la Fé” (representado pela primeira vez no Teatro Politeama, em 1924), que constituiu apenas um parêntesis entre as primeiras peças e uma nova série de textos de tese e moralizantes, também eles de construção muito frágil, cuja intenção era defender valores tradicionais, como em “Lourdes” (estreado no Teatro Politeama, em 1927), “O Oiro” (apresentado pela Companhia de Ilda Stichini no Teatro do Ginásio, em 1928; e pelo Teatro Experimental do Porto, no Teatro de Bolso, em 1961) e “Domus” (que teve estreia absoluta no Teatro Nacional D. Maria II, em 1931). 

A sátira expressionista “Gladiadores” (estreada no palco do D. Maria II, em 1934, ao qual regressou em 1997), que pela sua ousadia parece marcar uma mudança no percurso do autor, revelou-se uma excepção isolada e feliz, quer no plano temático quer do ponto de vista estilístico, nela se cruzando as mais modernas tendências dramáticas, como o expressionismo alemão, o surrealismo francês, o experimentalismo de Pirandello e o grotesco à Raul Brandão. Mas o que lá há sobretudo é a ironia intelectual de Alfredo Cortez, que sabe não poder ser compreendido por um público até aí fiel e que não quer furtar-se à experiência do insucesso. Insucesso que chegou, pontualmente. 
Depois desta peça, que lhe valeu a hostilidade do público e da crítica no momento da sua estreia, Alfredo Cortez regressou aos ambientes regionalistas e à descrição de usos e costumes populares com “Tá-Mar” (1936) e “Saias” (1938), ambas levadas à cena pela companhia do Teatro D. Maria II (a primeira teve também uma versão parisiense apresentada no Théâtre Hébertot em 1955, e nesse mesmo ano a segunda voltou ao palco do Nacional de Lisboa). 

E regressaram de novo as atmosferas urbanas, a denúncia e a caricatura de uma burguesia que se preocupa e angustia para exibir intactas as aparências dos antigos privilégios, com “Bâton” (escrita em 1936, só apresentada postumamente, em 1946, devido à proibição da censura) e “Lá Lás” (1944). 

Com dois textos menores, caídos no esquecimento – o ato único em verso “Ralhos de Avô” (1922) e o episódio africano “Moema” (1940) –, fecha-se a resenha de peças de Alfredo Cortez, uma vez que o anunciado drama expressionista “Babel”, repetição do experimentalismo de “Gladiadores” – um caso à parte na dramaturgia nacional –, não ultrapassou a fase projectual. 

Mas apesar das fragilidades atrás referidas, a obra do autor apresenta uma expressão rigorosa e linear, quase ascética, e revela um perfeito domínio da técnica teatral, uma análise impiedosa dos costumes da sociedade sua contemporânea e uma profunda compreensão anímica do povo português, a que acresce um considerável esforço que dedicou à criação de um teatro de grande nível. 

Se quisermos fazer uma síntese da obra de Alfredo Cortez, podemos então dividi-la em dois grupos distintos: um caracterizado pelas preocupações sociais expressas com um realismo seco, o outro por descrições de costumes populares marcadas por um realismo lírico, e que dão corpo a uma opera omnia que, recorrendo ao processo da comparação, exalta as virtudes dos humildes e condena os limites da burguesia. 


 Alfredo Cortez - Teatro Completo, da Biblioteca de Autores Portugueses, editado em Dezembro de 1992 pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda ISBN 972-27-0537-7.Este livro , publica 12 peças de Alfredo Cortez e, ainda, 4 excertos inéditos. Tem introdução, pesquisa e fixação dos textos por Duarte Ivo Cruz

O seu percurso dramático está entre os mais sólidos do século XX, resultante das suas bases éticas e sociais, suficiente para evidenciar a realidade admirável do conjunto de peças que formam a sua dramaturgia: conjunto autónomo, dramaturgia densa, que honra o espírito que a concebeu, a literatura e a cena que a condicionam. 

Quando nos deixou, em 7 de abril 1946, com oitenta e cinco anos de idade, na cidade de Oliveira de Azeméis, que adotou como sua desde que casou, Alfredo Cortez era já unanimemente reconhecido como um dramaturgo ímpar, destacado, universal!

 Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. Abril. 28

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