BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade” é uma rubrica de Salvador Santos fundamentando-se na recordação de figuras que engrandeceram o nosso Teatro e que já desapareceram do nosso convívio. Hoje recorda-se Isabel Alves Costa. É o Teatro no Bancada Directa

quarta-feira, 16 de abril de 2014

“No Palco da Saudade” é uma rubrica de Salvador Santos fundamentando-se na recordação de figuras que engrandeceram o nosso Teatro e que já desapareceram do nosso convívio. Hoje recorda-se Isabel Alves Costa. É o Teatro no Bancada Directa

 In memoriam

Isabel Alves Costa nasceu no Porto em 3 de Julho de 1946 e faleceu em Monção subitamente em 15 de Agosto de 2009. Preparava-se para gozar um curto período de férias quando foi vitima de um ataque súbito e mortal

Foi uma grande figura do nosso teatro no campo da representação,encenação e direcção.
   


“No Palco da Saudade” é uma rubrica de Salvador Santos fundamentando-se na recordação de figuras que engrandeceram o nosso Teatro e que já desapareceram do nosso convívio. 
Hoje recorda-se Isabel Alves Costa. 
É o Teatro no Bancada Directa 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 

ISABEL ALVES COSTA
O pai, Henrique Alves Costa, cinéfilo militante e fundador do Cine Clube do Porto, passou-lhe o gosto pelas artes e pelos espectáculos. No liceu, ela integra a associação de estudantes e participa activamente na luta académica de 1962. 

Um ano mais tarde, com apenas dezassete anos, ruma a Paris, onde se exilara pouco tempo antes o seu namorado e primeiro marido, José Mário Branco, e deita mãos a vários ofícios. 

Trabalhou em laboratórios de produtos farmacêuticos e em requintadas lojas de perfumes, mas as artes do palco eram a sua grande paixão e decidiu inscrever-se num curso de teatro em Paris, onde viria a criar a Liga Portuguesa do Ensino e da Cultura Popular, que se dedica fundamentalmente à produção e apresentação de espectáculos. 

Foi como actriz que Isabel Alves Costa se iniciou nos palcos e foi nessa qualidade, mas também como activista política de esquerda, que ela desenvolveu um trabalho absolutamente meritório junto da comunidade portuguesa em França, numa altura em que se verificou a primeira grande vaga de emigração por deserção da guerra colonial. 
Tempos da Revolução dos Cravos. José Mário Branco, marido de Isabel Alves Costa regressava a Portugal vindo de França onde se encontrava exilado. À sua chegada vê-se a sua mãe agarrado a ele e a esposa Isabel  ao seu lado esquerdo empunhando ao alto o braço. Lá atrás reconhece-se o Adriano e ao lado da mãe de Mário estão o Letria e Zeca Afonso

A par dessa intensa e múltipla actividade, ela soube sempre conciliar estudo, trabalho e vida familiar. Ainda em Paris, a família aumentou, com o nascimento dos seus dois filhos: Pedro Branco, nascido em 10 de Julho de 1965, que é hoje professor do ensino básico e músico amador; João Branco, nascido em 1 de Julho de 1968, que é hoje director artístico e encenador do Centro Cultural Português do Mindelo, em Cabo Verde.

 Com a queda do antigo regime, pela qual se bateu vigorosamente ao lado de muitos outros artistas e criadores das artes e das letras, ei-la de regresso a Portugal quando o país já vivia em festa, com multidões, cravos e sorrisos nas ruas. Há uma fotografia que marca esse dia e que ficará na memória colectiva da Revolução. Consigo regressavam do exílio algumas das vozes mais combativas e esclarecidas do nosso canto libertador. 
Foto de família. Isabel Alves Costa e José Mário Branco junto dos seus filhos. Pedro e João. (foto retirada do blogue Café Margoso de João Branco, filho de Isabel)

À chegada ao aeroporto de Lisboa, a eles juntaram-se outros combatentes da liberdade pela canção. E nessa foto, podem ver-se em destaque José Mário Branco, agarrado a sua mãe, Zeca Afonso e Isabel Alves Costa. Esta tem os olhos fechados e o seu corpo prolonga-se num punho erguido, como se fora um grito para um novo tempo. Na sua cidade do Porto, Isabel Alves Costa começou então um longo processo de colaborações variadas no universo do espectáculo. 

Umas das primeiras propostas de trabalho na área da representação teve origem na peça de João Loio “Hoje Começa o Circo!”, cujo encenador, João Mota, a convidou de imediato para integrar o elenco d’ A Comuna, em Lisboa. 

Ela recusou, porém, o convite e decidiu abandonar os palcos como actriz, função a que só retomaria muito mais tarde, vinte e cinco anos depois, a convite do encenador Nuno Carinhas, para interpretar a personagem Maria Vassilievna Voinítskaia da peça de Anton Tcheckov, “Tio Vânia”, levada a cena no Teatro Carlos Alberto, que ela considerou como uma espécie de cumprimento de um desejo adiado. 
Saudades da minha mãezinha! João Branco junto de sua mãe Isabel Alves Costa

Na verdade, o desejo de retomar os palcos como intérprete esteve sempre latente em tudo que o foi fazendo como pedagoga, programadora e directora artística, funções que privilegiou nos últimos trinta anos do seu percurso artístico. A criação do Festival Internacional de Marionetas do Porto (FIMP) terá sido a sua maior paixão, evento a que se abalançou após o doutoramento em estudos teatrais, em 1997, na Universidade de Sorbonne. 

Entretanto, já ela tinha assumido a função de directora artística do Teatro Rivoli, após a sua precária reabertura como teatro municipal, a convite da ex-vereadora da Cultura da Câmara do Porto, Manuela Melo. Desafio esse que se tornou empolgante após as obras de remodelação e adequação do espaço às múltiplas linguagens cénicas. 

Durante os anos em que esteve à frente Teatro Rivoli, Isabel Alves Costa transformou-o numa sala de espectáculos de referência da cidade, sobretudo nas áreas da dança e do novo circo. Graças à sua programação, que teve sempre como grande preocupação a criação de novos públicos, passaram por aquele espaço alguns dos maiores criadores internacionais e nacionais, proporcionando-lhes as melhores condições de trabalho. 

Paralelamente foi mantendo em actividade o FIMP, programou as artes de palco no Porto 2001-Capital Europeia da Cultura e envolveu-se, em 2005, na fundação das Comédias do Minho, um projecto que ainda hoje se afirma como um exemplo único de descentralização, envolvendo cinco municípios de Viana do Castelo. 
O anterior presidente da Câmara do Porto não percebeu a importância do Teatro Rivoli para a cidade, ao serviço de uma cultura urbana plural, cosmopolita e de qualidade, e entregou a sua concessão a um privado apostado numa programação basicamente comercial. 

Este processo (que Isabel Alves Costa descreve no livro “Rivoli 1989-2006”) debilitou-a profundamente, mesmo a nível físico, como ela reconheceu em entrevista ao jornal Público: «[Foi] muitíssimo sofrido. As pessoas não têm noção de como estas coisas nos marcam o corpo (…) 

Tenho de virar muitas páginas para o meu corpo voltar a ter um funcionamento mais ou menos normal». Inesperadamente, a 15 de Agosto de 2009, a morte levou-nos Isabel, uma das grandes promotoras e divulgadoras do nosso teatro e uma programadora cultural com um raro sentido de serviço público. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2014. Abri. 15

Salvador Santos
O autor deste texto
Grande amigo do blogue Bancada Directa
Uma figura de referencia no actual panorama do teatro português

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