BANCADA DIRECTA: Salvador Santos apresenta todas as quartas feiras a sua rubrica “No Palco da Saudade” que se destina a recordar as figuras do nosso Teatro que já desapareceram do nosso convívio. Hoje recorda-se o talentoso escritor Raul Brandão. É o Teatro no Bancada Directa

quarta-feira, 5 de março de 2014

Salvador Santos apresenta todas as quartas feiras a sua rubrica “No Palco da Saudade” que se destina a recordar as figuras do nosso Teatro que já desapareceram do nosso convívio. Hoje recorda-se o talentoso escritor Raul Brandão. É o Teatro no Bancada Directa

In memoriam
Raul Germano Brandão nasceu na Foz do Douro. Porto em 12 de Março de 1867 e faleceu em Lisboa em 5 de Dezembro de 1930.
Foi  militar, jornalista e um escritor dramático português

Salvador Santos apresenta todas as quartas feiras a sua rubrica “No Palco da Saudade” que se destina a recordar as figuras do nosso Teatro que já desapareceram do nosso convívio. 
Hoje recorda-se o talentoso escritor Raul Brandão. 
É o Teatro no Bancada Directa 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional São João. Porto) 

RAUL BRANDÃO 

Nasceu no Porto, filho e neto de pescadores da foz do Rio Douro, e foi um dos mais importantes prosadores, ficcionistas, dramaturgos e pintores portugueses. 

Esteve ligado ao “Manifesto Nefelibatas”, de raiz anarquista, que subscreveu com os jovens escritores António Oliveira, António Nobre e Justino Montalvão, e iniciou a sua carreira literária em 1890 com “Impressões e Paisagens”, uma colectânea de contos naturalistas em torno da vida amoral e trágica da gente do povo, que já deixava perceber o seu estilo de ficcionista de personagens patéticas e grotescas na incapacidade de delinearem o seu sonho ou infames no modo de trair, que trespassa quase toda a sua obra, exemplarmente patente em “Húmus”, onde ele melhor explora a dimensão lavrar da pequenez humana. 

O gosto de Raul Brandão pela palavra escrita nasceu nos bancos da escola, ainda durante o Curso de Liceu, escrevendo em modestos jornais e panfletos escolares, como foi o caso de O Andaluz, revista que os alunos do portuense Colégio de São Carlos publicaram a favor das vítimas dos terramotos da Andaluzia de 1884-1885. 

 Monumento dedicado a Raul Brandão. Porto. Avenida Dom Carlos I. Foz do Douro. Arquitecto Rogério dos Santos Azevedo. Escultor Henrique Moreira. 1967

Estas suas primeiras experiências na escrita publicada fizeram nascer uma grande paixão pelo jornalismo, actividade que foi exercendo, como amador e profissional, ao longo de quase toda a vida, e que constituiu a tarimba para se aventurar nos mais diversos e exigentes géneros literários, proporcionando-lhe também a oportunidade de contactar com um mundo cuja existência até então ignorava: o mundo da miséria, do vício e do crime. 

Após a conclusão do Curso do Liceu, Raul Brandão decide frequentar o Curso Superior de Letras, mas, por influência do pai, acaba por ingressar na carreira militar, como oficial do Exército. Colocado em Guimarães, instala-se na quinta Casa do Alto onde produz a maior parte da sua obra. Passa também por Lisboa, desenvolvendo aí uma intensa actividade jornalística, colaborando nos jornais Imparcial, Correio da Noite, Correio da Manhã e O Dia. 
Nestas duas últimas publicações, é constante a sua análise sobre o terrível drama da condição humana, perpassado pelo sofrimento, a angústia, o mistério e a morte, sendo também constantes as referências aos ofendidos e humilhados, face visível da expressão humana que é um dos motivos mais regulares na sua obra. O teatro foi um sonho constante ao longo da vida de Raul Brandão, que escreveu a sua primeira peça durante o final de estágio para oficial do Exército em Mafra, um conjunto de sketches com o título “Arraial”. 

Entre esta sua primeira experiência como dramaturgo e a publicação do episódio dramático “O Avejão”, editado em 1929, distam mais de trinta e cinco anos, durante os quais surgiram “O Triunfo” e “O Maior Castigo”, que se perderam para sempre, o monólogo “Eu Sou Um Homem de Bem”, as peças “O Gebo e a Sombra”, “O Rei Imaginário e “O Doido e a Morte”, para além do drama em três atos “A Noite de Natal” que escreveu em colaboração com Júlio Brandão e da tragicomédia “Jesus Cristo em Lisboa”, escrita em parceria com Teixeira de Pascoaes. 
A obra dramática de Raul Brandão, representativa de uma época que, como diz o próprio, «vagueia sem teto, entre ruínas, com uma nova geração que deixou de acreditar, que oscila entre o cristianismo e Nietzsche, que procura um sentido para fazer da vida um ato religioso», cedo conheceu as luzes da ribalta nos mais ilustres palcos, ao mesmo tempo que ia sendo resgatada pelos tablados amadores. 

E, tanto nas plateias mais sofisticadas como nas mais humildes, as suas peças eram recebidas com agrado. O que acontece, aliás, ainda hoje. “O Doido e a Morte”, por exemplo, que se revestiu de enorme relevo no nosso panorama teatral, dominado aquando da sua estreia por subprodutos franceses, é ainda uma das peças mais representadas nos palcos amadores. 
Como curiosidade, refira-se que aquela pequena farsa trágica de Raul Brandão, que esteve para se chamar “O Senhor Milhões”, se baseia num episódio verídico ocorrido em 1 de Fevereiro de 1919, assim contado pelo próprio autor: «De uma vez, o Pad’Zé, com uma bomba na mão, disse ao Bernardino Machado: ‘O Senhor anda aqui a empatar a revolução e por isso decidi sacrificar-me, matando-o’. E fazia o gesto. Ia atirar com a bomba, iam morrer ali os dois. O Bernardino, aflito, bem queria discutir: ‘Ó Pad’Zé, tenha juízo, eu…’. Mas o outro, batendo com a bomba descarregada em cima da mesa, exclamava: ‘Morremos aqui ambos’». 

O que, naturalmente, deixou o futuro Presidente da República transido de medo durante largos e inquietantes minutos. Recorde-se ainda que a estreia daquela peça foi marcada por intrigas de bastidores, que visavam suprimir a sua última fala (“Ai, o grande filho da puta!”), a fim de «não ofender a decência dos ouvidos das senhoras». 

Com efeito, o pano chegou a cair antes do final, mas, por exigência do intérprete – Alves da Cunha –, voltou a subir para que a réplica em causa pudesse então ser dita, acabando por conferir, assim, mais impacto àquilo que, puritanamente, se queria censurar! 
Enfim, Raul Brandão também teve de lutar contra um país pequenino, dominado por uma burguesia que parecia rejubilar com os seus romances, mas que não aceitava ser confrontada com o seu teatro, e que se escandalizava com o desejo que ele sempre manteve até à morte: «Espero pelo dia – mesmo na cova o espero – em que acabe a exploração do homem pelo homem». 

Salvador Santos 
Teatro Nacional São João. Porto 
Porto. 2014. Março. 03

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