BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade” é uma rubrica semanal da autoria de Salvador Santos e tem por objectivo recordar as figuras do nosso teatro e cinema que já partiram do nosso convívio. Hoje é recordado Romeu Correia. É o Teatro no Bancada Directa.

quarta-feira, 26 de março de 2014

“No Palco da Saudade” é uma rubrica semanal da autoria de Salvador Santos e tem por objectivo recordar as figuras do nosso teatro e cinema que já partiram do nosso convívio. Hoje é recordado Romeu Correia. É o Teatro no Bancada Directa.

In memoriam
Romeu Henrique Correia nasceu em Almada em 17 de Novembro de 1917 e faleceu nesta mesma cidade em 12 de Junho de 1996.
Foi um escritor ficcionista e dramaturgo. Integrou-se inicialmente numa corrente neo-realista, mas posteriormente especializou-se em "teatro de vanguarda"

“No Palco da Saudade” é uma rubrica semanal da autoria de Salvador Santos e tem por objectivo recordar as figuras do nosso teatro e cinema que já partiram do nosso convívio. 
Hoje é recordado Romeu Correia. 
É o Teatro no Bancada Directa. 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

ROMEU CORREIA 

Praticou atletismo e boxe, foi empregado bancário e publicista, esteve desde muito jovem ligado ao associativismo operário e destacou-se nas letras como escritor e dramaturgo com uma forte componente neorrealista com focagem nos problemas sociais e económicos da sua terra natal. Nasceu em Cacilhas, freguesia do concelho de Almada, em 1917, onde iniciou a sua actividade cultural com a criação e animação de bibliotecas populares em duas colectividades almadenses, organizando em ambas os mais diversos recitais de poesia, palestras e conferências. 

A preocupação que desde cedo demonstrou pela promoção do livro e da leitura indiciava já a sua grande vontade em enveredar pela escrita, o que aconteceu com a edição em 1947 do livro de contos “Sábado Sem Sol”. Aquele primeiro livro de Romeu Correia, que se centra na análise e crítica dos costumes da época, acabaria por ser apreendido dois meses depois da sua publicação pela PIDE, que felizmente deixou escapar mais de 1400 exemplares que já andavam pela mão de homens que, como ele, amavam a liberdade e combatiam a ditadura. 
Romeu Correia amava a terra onde nasceu. Frequentemente pairava na encosta do Ginjal e contemplava os lugares por onde passou a sua infância

Pouco depois seguiram-se os romances “Trapo Azul”, onde o autor fixa cruéis reflexos do quotidiano, “Calamento”, onde faz caracterologia moral e psicológica, “Gandaia”, onde aborda problemas da infância e da adolescência, e “Desporto Rei”, onde foca o processo social em curso por via do futebol. E chega então a sua primeira peça de teatro, “Casaco de Fogo”, onde aborda os difíceis problemas da mulher na sociedade do seu tempo. 

Após a sua estreia como dramaturgo, Romeu Correia desenvolveu um gosto muito particular pela escrita teatral, concebendo um conjunto considerável de peças que, em muitos aspectos, comunga dos traços neorrealistas de quase toda a sua obra literária, sendo igualmente enriquecido com recurso à tradição popular, aos fantoches, ao circo e ao experimentalismo vanguardista. “O Vagabundo das Mãos de Oiro”, peça distinguida com os prémios da Crítica e da Casa da Imprensa, e representada pela primeira vez em 1962 pelo Teatro Experimental do Porto, é talvez a que melhor espelha o seu teatro, todo baseado em casos reais recriados sob um fundo de inspiração popular que se impõe na verosimilhança da linguagem e num retrato perfeito das classes sociais da época. 

Tal patamar é também exemplarmente atingido em peças como “O Céu da Minha Rua” (que Romeu Correia escreveu em apenas oito dias e que marcou a estreia de Amália Rodrigues como actriz em televisão), “Tempos Difíceis” (que Joaquim Benite encenou brilhantemente na Companhia de Teatro de Almada), “Bocage” (que subiu a cena pela primeira vez na cidade Invicta, no Teatro Sá da Bandeira, por iniciativa do Grupo de Teatro do antigo Instituto Comercial do Porto) ou “O Andarilho das Sete Partidas” (sátira representada com sucesso o ano passado no Fórum Romeu Correia, em Almada). Mas seria injusto não referir outras três peças do autor, “Roberta”, “Cravo Espanhol” e “Grito no Outono”, que têm sido aplaudidas pelas mais diversas plateias. 

Enquanto ia escrevendo um vastíssimo número de títulos de peças de teatro, novelas, contos e romances (entre os quais impõe-se sublinhar o livro de contos “Um Passo em Frente”, que recebeu, entre outros galardões, o Prémio da Academia de Ciências de Lisboa), muitos deles traduzidos em chinês, húngaro, checo, alemão e russo, Romeu Correia continuava a calcorrear as ruas de Lisboa como cobrador do antigo Banco Nacional Ultramarino. 

Convém ainda referir que o autor, que foi alvo de estudos catedráticos em Universidades austríacas e francesas, possuía como habilitações literárias apenas uma efémera frequência do Curso Industrial. Ou seja, ele foi um autodidacta e tudo o que conseguiu foi à força de muito talento, esforço e trabalho. 


Com o sacrifício das suas horas de lazer, e norteado pelo objectivo de uma maior valorização pessoal e de melhor servir a gente da sua classe social, Romeu Correia foi desenvolvendo desde muito cedo, como militante e animador de algumas das muitas colectividades de cultura e recreio do concelho de Almada um esforçado trabalho de intervenção social, assente na generosidade, na preocupação pelo próximo e na luta contra a exploração da classe operária, onde acabaria por ganhar o ofício de escrever, ao mesmo tempo que se ia dedicando à prática desportiva. 

E como era fisicamente dotado, atingiu papel de relevo nas modalidades de boxe e atletismo (aqui encontrando a sua companheira para a vida, a penta campeã nacional de atletismo Almerinda Correia). 

Na véspera da Revolução de Abril, Romeu Correia estava a contar cupões de títulos de dívida na cave da sede do Banco onde trabalhava, tendo sido colocado dias depois em lugar mais condigno até se reformar. Passou então a dedicar-se à publicidade, ao mesmo tempo que se empenhava ainda mais na criação literária. Aos setenta e nove anos, pese embora o seu estado de saúde débil, andava entusiasmado com a escrita da história da Sociedade Filarmónica Incrível Almadense que tinha em mãos. 
Não chegou a conclui-la. A 12 de Junho de 1996, chegavam ao fim os dias de um Homem cuja vida daria um Romance ou uma Peça de Teatro. A Câmara de Almada deu o seu nome a várias ruas do concelho, ao Fórum Municipal e a uma Escola Secundária; e o público, esse, continua a premiar a sua vastíssima obra com os maiores elogios e aplausos. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. Março. 24


Salvador Santos
O autor deste texto e autor da rubrica "No Palco da Saudade"

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