BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade” é uma rubrica semanal do homem do Teatro Salvador Santos e que tem por objectivo recordar as figuras do nosso Teatro que já partiram. Hoje é lembrado o encenador Lucien Donnat. É o Teatro no Bancada Directa

quarta-feira, 12 de março de 2014

“No Palco da Saudade” é uma rubrica semanal do homem do Teatro Salvador Santos e que tem por objectivo recordar as figuras do nosso Teatro que já partiram. Hoje é lembrado o encenador Lucien Donnat. É o Teatro no Bancada Directa

In memoriam
Lucien Donnat nasceu em Paris no ano de 1920
Filho de um pai judeu não praticante e de uma mãe, católica, que morreu quando ele tinha 14 anos, e da qual, dizia, herdou a vocação para o teatro e a decoração.
Faleceu em Lisboa em 26 de Janeiro de 2013, num hospital da capital com insuficiência cárdio/respiratória. Tinha a bonita idade de 92 anos.
Foi um grande encenador, cenógrafo, decorador, figurinista e pianista. Uma vida inteira dedicada ao Teatro
“No Palco da Saudade” é uma rubrica semanal do homem do Teatro Salvador Santos.
Tem por objectivos recordar as figuras do nosso Teatro que já partiram. 
Hoje é lembrado o encenador Lucien Donnat. 
É o Teatro no Bancada Directa 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral da autoria de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

LUCIEN DONNAT 

Este francês, nascido em Paris, em 1920, filho de um judeu não praticante e de uma católica fervorosa, que foi cenógrafo, figurinista, desenhador de interiores, compositor e… pianista, era um homem de extremo bom gosto, muito bem-educado e de uma grande cultura. A apetência para as artes herdou-a de sua mãe, que faleceu quando ele tinha apenas catorze anos de idade, em Lisboa, cidade onde viveu durante quase toda a sua infância. Na Ecole des Arts Décoratifs, em Paris, adquiriu as bases de suporte para a sua vocação artística, que a actriz Amélia Rey Colaço descortinou num evento, realizado em casa de uma amiga comum, onde ele se exibiu como pianista. 

A empatia gerada entre Lucien Donnat e a Grande Senhora do teatro português do segundo terço do século XX, resultou ali mesmo num convite para a criação da cenografia, figurinos e música da peça infantil “Maria Rita”, da autoria de uma desconhecida dramaturga de seu nome Teresa do Canto, com estreia programada para o Teatro Nacional D. Maria II. A proposta de cenário e figurinos por ele apresentada foi recebida com elogios por toda a equipa criativa do espectáculo, o que deixou o jovem muito orgulhoso. 
Peça "A Senhora Klein" Teatro da Comuna 1990. A peça é de escritor Nicholas Wright. Direcção do espectáculo de João Mota

E, talvez por isso, sentiu-se à vontade para confessar uns dias mais tarde a sua dificuldade em musicar as letras da peça, pela falta de qualidade destas. No dia de estreia daquela peça, após a representação, que registou assinalável sucesso, Amélia Rey Colaço disse-lhe: «A autora da peça está cá. Posso apresentá-lo?», ao que Lucien Donnat anuiu, com a simpatia que lhe era peculiar. 

E o momento que se seguiu foi de grande constrangimento. A autora da peça era, nem mais nem menos, Mariana Rey Monteiro, que ainda não se tinha revelado a grande actriz em que se transformou pouco tempo depois e que ao longo dos ensaios foi ouvindo as queixas do jovem sobre a fraca qualidade das letras que teve de musicar. 

Os actores do teatro gerido pelos pais da actriz (autora da peça, sob pseudónimo) não conseguiram conter o riso! Longe de criar anticorpos entre os quadros residentes do Teatro Nacional D. Maria II, este episódio acabaria por reforçar a admiração de toda a companhia por Lucien Donnat e por estreitar ainda mais os laços de amizade entre ele e a família Rey Colaço-Robles Monteiro. 
Sala Lucien Donnat. Hotel Palácio do Estoril

A partir daí, passou a ser responsável pela cenografia, figurinos e composições musicais de grande parte dos espectáculos que o primeiro teatro do país levou a cena, construindo uma imagem assente no requinte, num cuidado e numa exuberância estilística que guardava realístico rigor cenográfico e indumentário, verdadeiro contraponto de outras propostas estéticas de vanguarda anteriormente deixadas no palco do Rossio por artistas como Almada Negreiros ou José Barbosa. Lucien Donnat foi responsável pela concepção e realização plástica de algumas das mais deslumbrantes e grandiosas produções do Teatro Nacional D. Maria II nas três décadas que antecederam o pavoroso incêndio que o destruiu quase por completo, designadamente “Antígona” de Sófocles/Júlio Dantas, “Um Marido Ideal” de Oscar Wilde, “Sonho de Uma Noite de Verão” de Shakespeare ou “Electra e os Fantasmas” de Eugene O’Neill. 

O crítico Vítor Pavão dos Santos recordou, numa crónica publicada no extinto semanário O Jornal, em 1985, que, naquela última peça, «ele cometeu a invulgar proeza de criar uma imponente casa apalaçada que sugeria um jogo dialéctico entre a encenação do texto e a representação que as personagens faziam das suas vidas». Mas não se pense, porém, que Lucien Donnat não soube adaptar-se a outro tipo de peças, com encenações menos convencionais e que exigiam cenários mais depurados e desenhados de forma quase simbólica. 
Decoração de um detalhe da loja Pelaria Pampas idealizada por Lucien Donnat.

Painéis da Pelaria Pampas - Lucien Donnat
"Eu sou um homem do século XX. Em 2020  já não estarei cá, já ninguém se lembrará de mim. Assim com já ninguém se lembra da Ava Gardner ou do Clark Gable. Tiveram a sua época e foram magníficos. Também eu fiz tudo o que de mais espectacular se fez no teatro em Portugal daquela época. O que se fazia naqueles tempos com os escassos meios técnicos era espantoso.

Hoje em dia, tudo é substituído por um computador que acende a luz onde se quer, por exemplo. Eu já não pertenço à actualidade. Nem me quero actualizar."

Lucien Donnat, 14 de Setembro de 2000.


As cenografias criadas para espectáculos como “O Processo de Jesus” de Diego Fabbri ou “Tango” de Mzozek são a prova da sua versatilidade e do seu sentido de modernidade, impondo aí a visão figurativa que soube explorar noutros domínios da sua actividade profissional. É disso exemplo o magnífico trabalho realizado na decoração do Hotel Palácio do Estoril, onde o gosto Art Déco se conjuga com a sobriedade clássica, ou nos hotéis Avenida Palace e Ritz em Lisboa. 

Relativamente ao seu percurso no teatro, Lucien Donnat, com o fim da companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro, decidiu aventurar-se no Brasil, mas os tempos que se viviam nas artes de palco naquelas paragens não eram propícios ao acolhimento de criadores conotados com o tipo de repertório promovido pelos teatros nacionais, enveredando, por isso, por projectos de decoração em diversos países da América do Sul. 

E ao fim de uma dezena de anos, voltou a Portugal pronto a retomar a sua actividade nos palcos. Mas tal só viria a acontecer já nos anos 1990, na Comuna-Teatro de Pesquisa, com o espectáculo “A Senhora Klein”, sob a direcção de João Mota 
Cenário idealizado por Lucien Donnat para a peça de Oscar Wilde "Sonho de Uma Noite de Verão"

 E foi este mesmo encenador, agora enquanto director artístico do “Nacional” de Lisboa, que tomou a iniciativa de homenagear Lucien Donnat, um ano após o seu desaparecimento, com uma magnífica exposição retrospectiva da sua obra, que pode ser vista até final de Julho, em dois espaços e em duas mostras que se complementam, no Museu Nacional do Teatro e no Teatro Nacional D. Maria II. A não perder, mesmo! 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
 Porto. 2014. Março. 11

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