BANCADA DIRECTA: Alves Redol é a figura que o nosso homem do teatro Salvador Santos recorda hoje na sua rubrica "No Palco da Saudade". É o Teatro no Bancada Directa

quarta-feira, 19 de março de 2014

Alves Redol é a figura que o nosso homem do teatro Salvador Santos recorda hoje na sua rubrica "No Palco da Saudade". É o Teatro no Bancada Directa

In memoriam
Alves Redol nasceu em Vila Franca de Xira no dia 29 de Dezembro de 1911 e faleceu em Lisboa em 29 de Novembro de 1969
Foi um notável escritor o expoente máximo do neo-realismo português. Defendeu sempre as classes trabalhadoras e as mais desfavorecidas da nossa Sociedade

Alves Redol é a figura que o nosso homem do teatro Salvador Santos recorda hoje na sua rubrica "No Palco da Saudade". É o Teatro no Bancada Directa

"No Palco da Saudade"
Texto Inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)

 ALVES REDOL 

Figura central do neorrealismo português, ativista político de grande influência marxista, combateu a ditadura de Salazar na clandestinidade e lutou abertamente contra as desigualdades sociais utilizando como arma a literatura. Escreveu romances, contos, peças de teatro, estudos e diversos títulos destinados à infância, exibindo em todos eles os problemas político-sociais do país que infligiam a sua gente, designadamente os gaibéus, camponeses e pescadores da sua terra natal. Natural de Vila Franca de Xira, cedo se viu empurrado a procurar vida melhor noutras paragens. 

Tinha apenas dezasseis anos quando embarcou num navio com destino a Luanda, onde chegou de bolsos vazios e com grande vontade de vencer. Mas uma doença inoportuna obrigou-o a regressar. Durante a sua curta permanência de três anos em Angola, Alves Redol manteve a colaboração iniciada em 1927 no semanário Vida Ribatejana, com um conjunto de crónicas que revelavam qualidades literárias francamente promissoras, ao mesmo tempo que acusavam já uma certa consciencialização dos problemas sociais que o ambiente africano reforçara. 
 A sua experiência de emigrante naquela ex-colónia acabaria por dar o mote à primeira das suas célebres palestras no Grémio Artístico Vilafranquense, dessa feita com o título “Terra de Pretos - Ambição de Brancos”, onde versou alguns aspetos da colonização portuguesa em África. E a partir daí passou a colaborar assiduamente no jornal Mensageiro do Ribatejo, que lhe abriu novas e amplas perspectivas como escritor. 

 Depois de muitas crónicas, artigos de opinião, palestras e conferências sobre as causas de uma sociedade profundamente injusta, Alves Redol escreveu finalmente, em 1937, o seu primeiro livro, “Glória - Uma Aldeia do Ribatejo, que foi dado à estampa dois anos depois, surgindo após poucos meses “Gaibéus”, romance com que se inicia o ciclo de ficção sobre temática ribatejana de camponeses e pescadores da borda d’água, que integra os romances “Marés”, “Avieiros” e “Fanga”. 
Com o enorme sucesso editorial deste último livro, a polícia política aperta o cerco e o escritor é preso com uma ameaça que chega a concretizar-se: nem um lápis nem um papel para escrever, levando-o a anotar as suas ideias para as próximas obras com… as unhas nas paredes da cela. O teatro de Alves Redol surge somente em 1946 com “Maria Emília”, a que sucede dois anos depois “A Forja” e, mais tarde, “O Destino Morreu de Repente” e “Fronteira Fechada”. 

Durante a sua vida, apenas alguns grupos amadores foram autorizados pela censura a representar as duas primeiras peças, o que revela os receios da polícia política de Salazar pela encenação das palavras de um escritor que em 10 de Novembro de 1945 fora eleito membro do Comité Central do MUD (Movimento de Unidade Democrática) e que participaria ativa e empenhadamente nas campanhas da oposição democrática para as eleições fantoche promovidas pelo regime salazarista. A primeira peça de Alves Redol, “Maria Emília”, teve a sua estreia em Lisboa, em 1946, no Teatro-Estúdio do Salitre, de Luís Francisco Rebello, que reunia um excelente grupo de jovens actores em busca da profissionalização e um ensaísta de renome, Gino Saviotti. 

Quanto ao texto “A Forja”, a primeira tentativa da sua montagem partiu do ator e encenador Rogério Paulo, que, juntamente com um naipe de nomes importantes do teatro português, se propôs levá-lo a cena no Teatro Avenida, em 1960, intenção essa que a censura frustrou. Desse modo, “A Forja” acabaria por ser representada pela primeira vez em Moçambique por um grupo amador de Buzi, dirigido pelo encenador Salvador Rego, em 1965, no Festival de Teatro de Manica e Sofala. 
 A partir de 1947, a PIDE reforça ainda mais a vigilância a Alves Redol, na sequência da sua eleição para Secretário-Geral da Secção Portuguesa do Pen Club – associação internacional de escritores – a que se sucede a sua deslocação a Wroclaw, na Polónia, para participar no Congresso dos Intelectuais para a Paz, onde fala em nome da Delegação Portuguesa. E é por isso impedido de participar no Congresso dos Escritores na América Latina. 

Entretanto, apesar de os seus livros atingirem um bom nível de vendas, é-lhe muito difícil viver da escrita, o que o leva a enveredar por uma actividade fabril de cariz familiar e depois pela publicidade. Mas sem nunca deixar de escrever. No princípio dos anos 1960, Alves Redol escreve um dos seus mais belos livros, “Constantino: Guardador de Vacas e de Sonhos”, que tem por protagonista um pequeno amigo que ele vê crescer no Freixial, e aquele que é considerado pela crítica como o seu melhor romance: “Barranco de Cegos”. 
 E eis que os esbirros de Salazar voltam a pô-lo na prisão em 1963. A saúde começa a dar sinais de fragilidade. No momento em que o escritor se debate pela vida numa enfermaria do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, o encenador Jorge Listopad encena no Teatro Laura Alves a primeira montagem da peça “A Forja” por uma companhia profissional, que estreou com sucesso poucos dias antes de Alves Redol sucumbir, em 29 de Novembro de 1969, depois de muito sofrimento. 

Sobre aquela peça, Alves Redol havia dito: «A forja desta tragédia é Hiroxima, tão distante e tão perto de cada um de nós. Nela arderam homens […] que se queimaram em forja de ferreiro, todos sacrificados à mesma mão incendiária que os devorou». 

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2014. Março. 17

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