BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Vasco de Lima Couto é memoriado por Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O Teatro no Bancada Directa. Vasco de Lima Couto é memoriado por Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”.

In memoriam
Vasco de Lima Couto nasceu na cidade do Porto em 26 de Novembro de 1923 e faleceu em Lisboa em 10 de Março de 1980. Tinha apenas 57 anos
Foi um actor, encenador, declamador, poeta e um radialista português de reconhecidos méritos

 
O Teatro no Bancada Directa. 
Vasco de Lima Couto é memoriado hoje por Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”. 

"No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

VASCO DE LIMA COUTO 

Nasceu na cidade do Porto há 90 anos e foi um homem do teatro e da poesia, que um dia se descreveu assim: «Eu sou um poeta. Maldito, mas poeta. Sou, também, actor. Incómodo, mas actor. Como actor, empresto. 

Como poeta, dou. Entre estas duas posições, vivo. Não represento nenhuma escola, porque não preciso de falar ao tempo do meu povo. Sou o tempo do meu povo! Se algum mérito possuo, é o de não ser intelectual partido, para intelectuais de partido. Canto como sei e sei como sinto. Não dou respostas convenientes, porque - felizmente, sou inconveniente. Entre o homem chateado e a criança maravilhada, rasgo o tempo que possuo. O mais que queiram ver, em mim, é estrume de animal que mastiga a comida que não merece e que o povo paga». 

A poesia chegou primeiro e o teatro veio por acréscimo. Vasco de Lima Couto tinha 19 anos quando escreveu o livro de poemas “Arrebol”, que prenunciava já o estilo que havia de marcar toda a sua obra poética, com um «acentuado sensualismo expressivo na linhagem de um António Botto ou Pedro Homem de Melo, nostálgica, sentimental e plangente nos temas do amor e da morte». Antes da edição do seu segundo livro, em 1947, partiu para Lisboa, onde o actor Alves da Cunha o transportou literalmente para o palco num espectáculo composto por poemas e outros textos líricos, que circulou por todo o país falando de poetas. 
De terra em terra, vai escrevendo, ganhando à-vontade no contacto com o público e… apaixonando-se pelo teatro. É já com vinte e oito anos que Vasco de Lima Couto se estreia verdadeiramente no teatro, mercê dos cuidados de Amélia Rey-Colaço e Robles Monteiro em revelar novos valores. E é assim que, a 7 de abril de 1953, sobe a cena no Teatro Nacional D. Maria II para interpretar a personagem Pedro de “A Menina Tonta”, de Lope de Vega, ao lado de artistas experientes como Helena Félix ou Álvaro Benamor. 

Nessa altura, a cidade do Porto, não obstante possuir uma rica e efervescente vida cultural, não tinha qualquer grupo ou companhia profissional de teatro, tendo apenas uma sala de espectáculos em funcionamento – o Sá da Bandeira – destinada quase exclusivamente a receber produções de Lisboa. Mas, nesse ano, eis que nasce o TEP de António Pedro! É no Teatro Experimental do Porto, e com o Mestre António Pedro, que Vasco de Lima Couto se fará actor à dimensão do seu grande génio de poeta, encontrando ali a qualidade, o rigor e a seriedade artística e profissional que ambicionava. 
Estreia-se a 18 de Fevereiro de 1954 em “Antígona”, glosa de António Pedro ao clássico de Sófocles, e pouco tempo depois teria a sua primeira prova de fogo com “A Morte de Um Caixeiro Viajante” de Arthur Miller. Mais tarde interpreta o Semicúpio de “Guerras de Alecrim e Manjerona” de António José da Silva, o Mosca de “Volpone” de Ben Jonson, e o Béranger de “O Rinoceronte” de Ionesco, afirmando-se definitivamente como actor. 

O seu crescimento como actor não escapa aos ouvidos do empresário Vasco Morgado, que o assedia com insistentes convites. Vasco de Lima Couto começa por recusar todas as investidas que tinham como propósito levá-lo para Lisboa, se bem que uma daquelas propostas o deixou muito indeciso, por se tratar de uma hipótese de trabalho com a Grande Amália Rodrigues, na peça “A Severa”, que subiu a cena no Teatro Monumental, em 1955. 

Nesse mesmo ano, porém, acompanha António Pedro até à capital, onde este tenta a criação, com a actriz Madalena Sotto, de uma companhia que acabou por ter uma existência efémera, ficando-se apenas pela produção da peça “O Burro do Barba Azul”, de Miguel Mihura, regressando logo de seguida ao TEP. 
Cinco anos depois, Vasco de Lima Couto volta para Lisboa, a convite de Paulo Renato, onde representa D. Afonso IV na peça “Castro”, de António Ferreira. Segue-se uma colaboração regular no Teatro da Estufa Fria e o grande sucesso com “Mercador de Veneza”, de Shakespeare. Salta depois para o Teatro da Trindade, para representar “Todos Eram Meus filhos”, de Miller. E um ano depois vai para o Teatro-Estúdio de Lisboa. 

Mas a situação económica naquela companhia era desastrosa, pelo que se vê na contingência de trabalhar para a RTP em peças que nada lhe interessavam. E acaba por aceitar o convite para integrar o elenco da comédia “Vison Voador”, no Teatro Villaret. Desiludido com o teatro, Vasco de Lima Couto investe cada vez mais o seu capital criativo na poesia. 

Os grandes nomes do fado, como Amália Rodrigues ou Carlos do Carmo, dão voz aos seus poemas. Em 1971 decide ir para Luanda, para participar numa série de programas da Emissora Oficial de Angola, entre os quais se destaca “Cantar de Amigo”, um espaço dedicado à divulgação da poesia portuguesa, onde descobre o fadista Vasco Rafael. 
Vasco Lima Couto declamando em Estremoz numa sessão de homenagem e descerramento de uma lápide ao poeta Sebastião da Gama

Três anos depois, volta a Lisboa e ao teatro, n’Os Bonecreiros, que depressa abandona para se fixar uns meses em Paris. E ao regressar da cidade-luz ingressa no Teatro Maria Matos para fazer o “Encoberto” de Natália Correia. Cada vez mais ligado ao fado, Vasco de Lima Couto deixa definitivamente os palcos e volta para o Porto. 

As suas noites são passadas sobretudo na Taverna de São Jorge, escrevendo, lendo e ouvindo a sua poesia na voz dos mais prestigiados fadistas. Em 1980, a morte surpreende-o em Lisboa, à luz ténue do arrebol de um dia de Março. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. Fevereiro. 11

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