BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica "No Palco da Saudade" para se recordar as grandes figuras do nosso Teatro

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica "No Palco da Saudade" para se recordar as grandes figuras do nosso Teatro

In memoriam
Ruy Furtado (nome completo) nasceu em Lisboa em 21 de Março de 1919 e faleceu nesta mesma cidade em 19 de Março de 1991
Foi um notável actor português


O Teatro no Bancada Directa. 
Salvador Santos apresenta a sua rubrica "No Palco da Saudade" para se recordar as grandes figuras do nosso Teatro

"No Palco da Saudade"
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)

RUY FURTADO 
Por insistência de seus pais, frequentou a Escola Comercial até concluir com sucesso o Curso Complementar do Comércio, desempenhando a partir desse momento as funções de empregado de escritório numa casa de representação de material fotográfico. 

Mas como o sonho de ser actor, que o perseguia desde muito novo, não parava de ocupar as suas meninges nos momentos de maior introspecção, decidiu matricular-se no Curso de Arte de Representar do Conservatório Nacional, onde veio a ter como seu Mestre de eleição o actor e encenador António Pinheiro. 

Paralelamente, ainda arranjou tempo para colaborar, como locutor amador, na Rádio Luso, ao mesmo tempo que ia escrevinhando artigos de opinião para o jornal O Comércio de Víveres. A estreia de Ruy Furtado aconteceu no Teatro da Trindade, em Lisboa, na peça “Outono” de Manuel Fragoso, tinha ele dezanove anos, transitando daí para a Companhia de Abílio Alves, sediada no Teatro Avenida, que tinha como director artístico o já referido Mestre António Pinheiro. 
Foi nesta efémera, mas inovadora e ousada, estrutura produtora do teatro português, fundada no final dos anos 1930, que o jovem ex-empregado de escritório se formou verdadeiramente como actor, vivendo aqui um extraordinário período criativo da sua carreira que só teria paralelo cerca de trinta anos depois quando foi convidado pelo encenador Artur Ramos para participar em espectáculos como “A Intrusa” de Maurice Maeterlinck e “O Ausente” de Charles Spaak. Com aquele mesmo encenador, Ruy Furtado viria a destacar-se, em 1971, na versão cénica do romance “A Capital” de Eça de Queirós, apresentada no Teatro Villaret, com produção do Grupo de Acção Teatral. 

Algum tempo depois, o seu nome ficaria associado a uma controversa revisitação fantasmática da peça “Frei Luís de Sousa” de Almeida Garrett, congeminada e orquestrada pelo encenador Ricardo Pais, no Teatro da Trindade, que subiu a cena com o título “Ninguém”, juntando ao texto de Garrett escritos de Alexandre O’Neil e Maria Velho da Costa. Entretanto, ficavam para trás colaborações nas companhias do Teatro do Gerifalto, do Teatro Experimental do Porto, do Teatro Nacional D. Maria II e do Teatro da Cornucópia, entre muitas outras. 
A colaboração de Ruy Furtado com o grupo fundado por Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo prolongou-se no tempo até quase ao fim dos seus dias. Ali, assinou inesquecíveis e esplendorosas interpretações em peças como “Zuca, Truca, Bazaruca e Artur” de Grips Theater, “Paragens Mais Remotas Que Estas Terras” de Plauto (cenas cómicas), “O Pai” de Strindberg ou “As Três Irmãs” de Anton Tchekhov. 

Porém, a sua constante presença em palco, nesta e nas mais diversas companhias, não o impediu de manter uma duradoura e estreita ligação com a televisão desde o seu aparecimento em Portugal (foi notável, por exemplo, o seu desempenho na série “Retalhos da Vida de um Médico” com base no romance homónimo de Fernando Namora) e com a rádio. 

Na época de ouro da rádio, do período pós-II Guerra Mundial até ao final dos anos 1960, Ruy Furtado era um dos actores mais requisitados para participar em folhetins, radionovelas e peças de teatro, sendo a sua voz frequentemente identificada nos seus contactos do dia-a-dia, por quem o não conhecia dos palcos ou mesmo da então neófita televisão. 
Esse reconhecimento público que a rádio lhe proporcionava e a importância que lhe atribuía como espaço de formação cultural e de divulgação das grandes obras literárias, levaram-no a nunca declinar qualquer proposta de colaboração feita pelas várias emissoras que ocupavam o espectro radiofónico nacional, pese embora o pouco interesse económico daquelas colaborações, por serem muito mal remuneradas. Mas se Ruy Furtado foi grande no teatro, na televisão e na rádio, no cinema ele foi simplesmente exemplar. 

Do seu currículo constam mais de três dezenas de filmes, sendo de destacar as suas contribuições em “Uma Abelha na Chuva” de Fernando Lopes, “A Cruz de Ferro” de Jorge Brum do Canto, “Cerromaior” de Luís Filipe Rocha, “Oxalá” de António-Pedro Vasconcelos, “Silvestre” de João César Monteiro, “Dina e Django” de Solveig Nordlund, “Um Adeus Português” de João Botelho, e, sobretudo, em “Verdes Anos” de Paulo Rocha, um filme-retrato da Lisboa dos anos 1960, considerado um marco do cinema novo português, premiado no Festival de Locarno. Foi, aliás, no cinema que Ruy Furtado desenvolveu o seu derradeiro trabalho como actor, decorria o ano de 1991. 
Teatro da Cornucópia. Na foto de cima Ruy Furtado trabalhou na peça "A Sonata dos Espectros" onde fez o papel do velho director Hummel e na de baixo refere a peça "A Ilha dos Mortos" onde Ruy Furtado interpreta o papel de Lindkvist. Ambas as peças são de August Stindberg

Convidado por Manoel de Oliveira, que já o dirigira em “Amor de Perdição”, juntou-se a um notável elenco, que reunia nomes como Maria de Medeiros, Luís Miguel Cintra, Leonor Silveira ou Miguel Guilherme, para interpretar o director do Lar de “A Divina Comédia”, uma reflexão histórica muito particular sobre a ideia do Mal e do Bem, do Pecado e da Santidade que nada tinha sobre Dante, ou, se preferirem, uma ‘parábola Oliveiriana’ sobre a civilização ocidental. 

E foi exactamente durante a rodagem deste filme que Ruy Furtado morreu, para desespero de todos os artistas e técnicos, levando o veterano realizador a terminar aquela sua obra – que questiona a aceitação do sofrimento e da ressurreição como verdadeira glória – encarnando ele próprio a personagem do actor em sua homenagem. 

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2014. 02. 24

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