BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” e hoje dá honras de recordação a Ramada Curto

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” e hoje dá honras de recordação a Ramada Curto

 In memoriam
Ramada Curto, de seu nome completo José Amílcar Ramada Curto, nasceu em Lisboa em 6 de Abril de 1886 e faleceu nesta mesma cidade em 18 de Outubro de 1961.
Foi um notável escritor, jornalista, tradutor, advogado e um politico português

O Teatro no Bancada Directa. 
Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” e hoje dá honras de recordação a Ramada Curto 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

RAMADA CURTO 


Advogado de prestígio, cronista e romancista de mérito, eminente político ligado ao movimento revolucionário que antecedeu a I República, deputado à Assembleia Constituinte de 1911, com assento por diversas vezes na Assembleia Nacional nos anos subsequentes, e ministro das Finanças e do Trabalho em dois Governos republicanos liderados pelo democrático Domingos Leite Pereira, ele foi um dos mais fecundos e representativos dramaturgos portugueses da primeira metade do século XX. 

A sua obra teatral, como aliás a sua menos vasta mas não menos interessante obra romanesca e jornalística, situa-se num plano de análise critica da sociedade de então, que efectuou com desencantada lucidez e não menor sentido de solidariedade individual e social. 

As duas primeiras obras dramáticas de Ramada Curto, infelizmente dadas por perdidas, datam de 1902, tinha ele apenas dezasseis anos. Três anos depois escreveria “O Estigma”, já então estudante na Faculdade de Direito de Coimbra, onde se iniciou nas lutas políticas, tendo-se destacado como um dos líderes da greve académica de 1907, o que levaria à sua expulsão da Universidade por dois anos. 
Lisboa. Tribunal de Santa Clara. 1922. Dezembro. 22. Julgamento do caso "Noite de sangue". Na foto estão Ramada Curto. Amancio Alpoim, Cunha e Costa entre outros.

Por essa altura foi um dos responsáveis pela criação de várias organizações republicanas e um dos principais organizadores do comité académico e civil que preparou a revolução republicana em Coimbra. E foi também membro da Carbonária (sociedade secreta essencialmente política), tendo sido um dos organizadores daquele movimento em Coimbra até 1910. 

Após a conclusão do curso de Direito, Ramada Curto manteve uma intensa actividade política, que ia desenvolvendo a par de uma invejável carreira forense, ao mesmo tempo que o seu talento como dramaturgo explodia, escrevendo mais de quarenta peças, entre as quais se contam “O Caso do Dia”, “Multa Provável”, “Recompensa” ou “Fogo de Vistas”, todas elas denotando um ofício seguríssimo e profissional de sentido teatral, espelhado sobretudo nas suas principais qualidades: «boa estrutura cénica, dialogação fácil, linguagem escorreita, definição bem ajustada de personagens a coberto de grande riqueza psicológica, excelentes indicações de cena, coerência temática na análise dos conflitos e honestidade de processos de intenções». 
Uma das obras traduzidas por Ramada Curto foi a celebre "Topaze" de Marcel Pagnol

No domínio da escrita, Ramada Curto fez ainda uma incursão pelo teatro de revista, ao integrar a parceria de autores que escreveu os textos de “O Jogo do Diabo”, espectáculo estreado em 1944, no Teatro Avenida, em Lisboa; foi responsável pelo argumento e diálogos do filme de Chianca Garcia, “Aldeia da Roupa Branca”, que se constituiu num dos maiores êxitos da carreira da atriz Beatriz Costa; e foi ainda tradutor de diversas peças teatrais, como “Topaze” de Marcel Pagnol ou “Um Marido Ideal” de Oscar Wilde. Mas a parte mais interessante da sua obra escrita afigura-se-nos ser, contudo, o conjunto das crónicas assinadas com o pseudónimo de José Maria, publicadas nas páginas do jornal Diário de Lisboa e posteriormente reunidas em livro. 

Ramada Curto foi, aliás, colaborador e diretor de vários jornais, tendo mantido também durante muito tempo uma crónica semanal no Jornal de Notícias, onde assinava deliciosas e contundentes opiniões. Passou igualmente pelas revistas Alma Nova e Atlântida e pelos jornais A Pátria, A Revolta e O Povo, entre muitas outras publicações periódicas, onde ia defendendo os ideais republicanos e socialistas que o levariam desde cedo à Maçonaria. 

A sua iniciação maçónica teve lugar na Loja Elias Garcia, de Lisboa, com o nome simbólico de Elysée Réclus, tendo ascendido ao grau 33 do R.E.A.E. (Rito Escocês Antigo e Aceito); pertenceu ainda ao Supremo Conselho da Maçonaria Portuguesa e foi Presidente do Conselho da Ordem do Grande Oriente Lusitano. 

Como advogado, Ramada Curto interveio nalguns dos processos-crime mais célebres do seu tempo, como foram os julgamentos dos envolvidos na revolução de 19 de Outubro de 1921, que marcou o início do fim da 1ª. República, e do caso Alves dos Reis/Banco de Angola e Metrópole (a maior burla da história da banca portuguesa até ao surgimento do caso BPN!...). 

 Ramada Curto traduziu igualmente a celebre de Oscar Wilde "Um marido ideal".

Da sua passagem pelo foro lisboeta, ele foi deixando variadíssimas e brilhantes estórias para a posteridade. Algumas delas são ainda hoje recordadas como verdadeiras pérolas, tanto no que respeita ao confronto com a própria Ordem dos Advogados, como no que concerne à actuação nas barras dos tribunais. 

Certa vez, sendo patrocinador da defesa de um arguido acusado de chamar «filho da puta» ao ofendido, Ramada Curto, iniciou as suas alegações começando por chamar a atenção do juiz para o facto de, muitas vezes se utilizar essa expressão em termos elogiosos (‘Ganda filho da puta, és o melhor de todos!’) ou carinhosos (‘Dá cá um abraço, meu grande filho da puta!’), tendo concluído da seguinte forma: «E até aposto que, neste momento, Vossa Excelência, Meritíssimo Juíz, estará a pensar o seguinte: «Olha do que este filho da puta se havia de ter lembrado só para safar o seu cliente!». 

A verdade é que, chegada a hora da sentença, o juiz voltou-se para o réu e disse: «O senhor vai absolvido, mas bem pode agradecer ao filho da puta do seu advogado». Era assim Ramada Curto, directo, corajoso, frontal, contundente e até violento, mas sempre leal e solidário. Morreu aos 75 anos em Lisboa, onde nasceu em 1886. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. 02. 02

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