BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade” é uma rubrica de Salvador Santos que se destina a recordar os grandes vultos do Teatro Português. Hoje é lembrada a actriz Zita Duarte. É o Teatro no Bancada Directa

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

“No Palco da Saudade” é uma rubrica de Salvador Santos que se destina a recordar os grandes vultos do Teatro Português. Hoje é lembrada a actriz Zita Duarte. É o Teatro no Bancada Directa

In memoriam
Zita Duarte, de seu nome completo Zita Glória Duarte Silva nasceu em Cascais em 17 de Fevereiro de 1944 e faleceu na cidade de Lisboa em 14 de Janeiro de 2000
Foi uma actriz portuguesa
 “No Palco da Saudade” 
Rubrica de Salvador Santos que se destina a recordar os grandes vultos do Teatro Português. 
Hoje é lembrada a actriz Zita Duarte. 
É o Teatro no Bancada Directa 

No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

ZITA DUARTE 
Ela era uma mulher única, diferente, de uma grande doçura e de uma delicadeza extraordinária, que conseguia aliar a tudo isso uma inteligência concreta, com um humor refinado. Quem a conheceu de perto jamais esquecerá o seu rosto espantoso, inocente e poético, e o seu forte carácter de mulher e actriz, livre e lutadora. 

Ela era grande e exemplar nos palcos, mas especial em frente às câmaras de filmar. Havia uma magia inexplicável quando a víamos no cinema, como se ela fosse feita da mesma matéria com que é feita a própria arte cinematográfica. Talvez por isso, todos os cineastas portugueses, novos e velhos, iam buscá-la com frequência aos palcos de teatro. O realizador Fernando Lopes, que a dirigiu em “Uma Abelha na Chuva”, orgulhava-se de ter criado com o seu rosto «uma imagem iconográfica» naquele filme. O cinema talvez fosse o seu território de criação privilegiado, mas tudo começou de facto nos palcos de teatro. 
Zita Duarte terminou o Curso do Conservatório Nacional, em 1963, com distinção, e nesse mesmo ano teve a sua estreia ainda como amadora na antiga carvoaria das Janelas Verdes, em Lisboa, que Fernando Amado, João Osório de Castro e José de Almada Negreiros transformaram, em boa hora, no teatrinho a que deram o nome de Casa da Comédia. 

Foi aliás com uma peça do pintor, poeta, dramaturgo e artista multifacetado Almada Negreiros, “Deseja-se Mulher”, que nasceu a actriz, ao contracenar então com alguns outros jovens também em ascensão, como Maria do Céu Guerra, Manuela de Freitas, Fernanda Lapa, Laura Soveral e Santos Manuel. Após esta sua primeira experiência teatral, Zita Duarte logrou integrar o elenco do espectáculo “O Render dos Heróis”, uma narrativa dramática exemplar de José Cardoso Pires que Fernando Gusmão encenou para o mítico Teatro Moderno de Lisboa, que a revelou definitivamente como actriz de grandes recursos. 
Uma cena do filme No Quarto de Vanda. Foi um filme dirigido por Pedro Costa a partir de uma co-produção portuguesa, alemã e suiça. No elenco além de Zita Duarte trabalharam Vanda Duarte, Lena Duarte, Pedro Lanban, Antonio Moremo e Paulo Nunes

Quem não perdeu tempo foi o encenador Carlos Avilez, que tinha já em marcha a criação do Teatro Experimental de Cascais, desafiando-a a integrar o elenco fundador daquela companhia, em 1965. E foi ali que ela começou por cimentar a sua notável carreira, interpretando peças como “Esopaida” de António José da Silva, “A Casa de Bernarda Alba” de Federico Garcia Lorca, “Maria Stuart” de Friedrich Schiller, ou “Fuenteovejuna” de Lope de Vega. 

A primeira passagem de Zita Duarte pelo Teatro Experimental de Cascais prolongou-se até 1974, deixando para trás uma notável criação em “Ivone, Princesa de Borgonha” de Witold Gombrowicz, que ela considerou como um dos seus melhores espectáculos de sempre, e uma gloriosa e inesquecível digressão a Angola, com algumas das mais representativas produções assinadas pelo encenador Carlos Avilez, entre as quais se destacam “Fedra” de Racine ou “A Maluquinha de Arroios” de André Brun. O ano de 1987 marcou o seu regresso a Cascais para integrar os elencos de “O Balcão” e “Os Biombos” de Genet, “Opereta” de Gombrowikz, “D. João” de Norberto d'Ávila, “Diário de Anne Frank” de Goodrich e Hackett, e “As Bodas de Sangue” de Lorca. 
The Real Life Off-Screen Death of Zita Duarte and her character, Zita Daurte: An observation on Pedro Costa´s In Vanda´s Room and Colossal Youth
 
Os esporádicos afastamentos de Zita Duarte do Teatro Experimental de Cascais levaram-na ao Teatro da Cornucópia (onde fez “Os Tambores na Noite” de Bertolt Brecht e “Prisão” de Edward Bond); à Casa da Comédia (onde criou “Electra” de Sófocles); ao Teatro Nacional D. Maria II (onde integrou os elencos dos espectáculos “Rosa Minha Querida Rosa” de João Canijo, “O Crime da Aldeia Velha” de Bernardo Santareno e “A Maçon” de Lídia Jorge); e ao recém-extinto Cinema Quarteto (para fazer polémica com “A Verdadeira História de Jack, o Estrangulador” de Elizabeth Huppert, ao lado de Ana Zanatti, devido a invulgares e ousadas cenas de nudez). 

Quem teve a felicidade de a ver nos palcos ficou para sempre com a memória de uma actriz, uma grande actriz, que era capaz desse mistério eterno: agarrar o espectador até ao fim, sem regresso. Ela entrava e a cena enchia-se! Zita Duarte tinha uma grande paixão pela representação e um gosto enorme em passar as suas experiências de actriz aos mais jovens, que tinham por ela uma admiração profunda. 

A actriz Guida Maria, que acompanhou muito de perto o seu extraordinário percurso, conseguiu convencê-la a dirigi-la no Teatro da Trindade, na versão de Dacia Maraini de “Maria Stuart”, onde se sentia claramente o rigor e a paixão que trespassava em todo o trabalho que fazia. Mas foi no cinema, e como actriz, que Zita Duarte atingiu um patamar exemplar, criando momentos únicos e irrepetíveis que ainda hoje a projectam como uma das mais marcantes personagens do moderno cinema português. 
Mais uma cena do filme In Vanda´s Room

“O Mal Amado” de Fernando Matos Silva, “Domingo à Tarde” de António de Macedo, “Os Demónios de Alcácer Quibir” de Fonseca e Costa, “Ninguém Duas Vezes” de Jorge Silva Melo, “Conversa Acabada” de João Botelho, “Rosa Negra” de Margarida Gil ou “Fim do Mundo” de João Mário Grilo, estão aí para o comprovar. Mas é em “A Ilha dos Amores” de Paulo Rocha e “Uma Abelha na Chuva” de Fernando Lopes que ela mostra todo o seu talento. 

Unanimemente reconhecida como uma das maiores atrizes portuguesas da sua geração, Zita Duarte deixou-nos aos 56 anos, vítima de cancro. O seu nome persiste na nossa memória e… num prémio atribuído anualmente pela Escola de Teatro de Cascais. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. 02. 18

1 comentário:

Anónimo disse...

Aqui estão duas Zitas Duarte misturadas: uma actriz de cinema e outra actriz informal de Pedro Costa. Muita atenção, uma não é a outra. Uma nasceu em 1944, outra toxicodependente e residente no bairro das Fontaínhas perto de Benfica. Apesar do nome homónimo as vidas e as personagens são distintas. A Zita Duarte dos filmes de Pedro Costa não chegou nem perto dos 50 anos devido à sua toxicodependencia.

Obrigado Pela Sua Visita !