BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”. Hoje recorda-se o grande actor Furtado Coelho.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”. Hoje recorda-se o grande actor Furtado Coelho.


In memoriam
Furtado Coelho (Luís Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado Coelho), compositor, teatrólogo, empresário, ator e poeta, nasceu em Lisboa, Portugal, em 28/12/1831, e faleceu nesta mesma cidade em 13/2/1900.

O Teatro no Bancada Directa. 
Salvador Santos apresenta a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade” 
Hoje recorda-se  o grande actor Furtado Coelho. 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

 FURTADO COELHO 

Português de nascimento, foi no Brasil que fez uma notável carreira como actor, dramaturgo, compositor, pianista, poeta e empresário teatral. 

 Retrato de Lucília Simões extremosa filha do casal Furtado Coelho/Lucinda Simões

Descendente de uma nobre família de Lisboa, estudou engenharia e projectavam-lhe uma carreira diplomática, mas o seu gosto de juventude pelas comédias realistas das companhias francesas que visitavam o nosso país na época fizeram-no perder-se de amores pelo teatro. Coartado na liberdade de experimentar os palcos nacionais pela rigidez familiar, decidiu fazê-lo em terras estrangeiras. 

Partiu para terras de Vera Cruz em 1856, com pouco mais de vinte e quatro anos, e três anos depois, após uma apagada passagem por Porto Alegre, já rivalizava com o maior actor brasileiro da segunda metade do século XIX, o carioca João Caetano. Furtado Coelho foi o pioneiro e o mais destacado defensor da estética realista e um dos maiores actores do teatro brasileiro no final do século XIX, período em que esta arte se tornou no mais popular acontecimento público e o mercado ainda era dominado pelos autores, actores e empresários portugueses. 
Brasil. Rio de Janeiro. Teatro Lucinda, fundado por Furtado Coelho.Nesta foto trata-se de uma alegoria comemorando a abolição da escravatura no Brasil. 13 de Maio de 1902

O sucesso dos seus desempenhos em peças de Alexandre Dumas Filho, Émile Augier ou Théodore Barriére foi tão grande que, aos poucos, os críticos e o público se iam encantando com a gestualidade contida, a voz modulada e a naturalidade do ator em papéis centrais de comédias realistas. 

O escritor Machado de Assis reservou-lhe grandes elogios, afirmando que via nele, «mais do que em qualquer outro, a naturalidade, o estudo mais completo da verdade artística». Nesse tempo o estilo defendido por Furtado Coelho desencadeou uma polémica com os defensores da escola romântica, tendo o conceituado jornalista, político e teatrólogo brasileiro Joaquim Serra vindo em sua defesa, louvando-o assim: «Tu […] triunfas porque és natural e verdadeiro; porque sente-se palpitar a fibra e bater a artéria quando pões em cena alguma paixão; porque estudas as dobras e refolhos do coração humano, sem essas terríveis contorções, que, tirando a elevação dos papéis, pode, quando muito, acreditar o artista como uma obra-prima de mecânica. 
Mãe e filha: Lucinda Simões, mulher de Furtado Coelho e Lucília Simões, sua filha

Triunfas, porque não concedes um gesto à arte vulgar; não dás arras nem fazes concessões a essas popularidades parvas e balofas, que degradam a arte. Não sacrificas a verdade ao efeito e nem a harmonia e ritmo de palavra, ao trovejar da voz, que desnatura a verdade». 

No início da década de 1870, passado o apogeu dos grandes dramas e das comédias sofisticadas, mas procurando a todo o transe não fazer grandes concepções aos princípios que defendia, Furtado Coelho viu-se forçado a voltar-se para os géneros mais ligeiros e populares, como as operetas, as farsas, os melodramas e as revistas, com seus cenários e efeitos cénicos extravagantes, uma vez que o público demonstrava grande interesse por eles, esgotando lotações por onde as peças passavam. Iniciou-se neste tipo de produções com os musicais “A Pera de Satanás” e “A Baronesa de Caiapó”, buscando depois em Portugal elencos experimentados para se aventurar nas grandes comédias de costumes sem que daí resultasse prejuízo para a qualidade interpretativa. Nesse grupo de artistas veio Lucinda Simões, com quem Furtado Coelho viria a casar em 1872, tendo nascido desse casamento outra grande actriz portuguesa (Lucília Simões). 
Lucinda Simões, que foi mulher de Furtado Coelho, aqui nesta foto com sua mãe e sua neta

Com a sua mulher constituiu uma nova e aplaudidíssima companhia, arrendando para tal, entre 1877/79, o carioca Teatro Carlos Gomes, assentando depois arraiais, na primeira metade da década de 1880, num velho espaço que recuperaram e a que deram o nome de Teatro Lucinda (homenagem a Lucinda Simões), no Rio de Janeiro. 

Entre os actores que integravam o elenco destacam-se os portugueses Joaquim de Sousa e Gabriela da Cunha, também importantes na difusão da escola realista no Brasil, para além da atriz brasileira Apolônia Pinto, que se estreou sob sua direcção. Mas Furtado Coelho não foi apenas actor, director e empresário teatral. 

Também foi um inspiradíssimo compositor, introduzindo nos saraus familiares e nas reuniões literárias a moda dos poemas declamados com acompanhamento musical expressamente composto para a ocasião. Compôs música para o drama “Dalila”, de Octave Feuillet, que fez imenso sucesso no Brasil. 

Foi também autor da música da “Grande Marcha Académica”, em homenagem aos estudantes de Direito de São Paulo. Inventou o copofone e foi pianista. Deixou ainda valsas e polcas publicadas, além de ter escrito inúmeros poemas, libretos para óperas cómicas, como “Cora” (música de Chiquinha Gonzaga), e dramas, como “O Remorso Vivo”, “O Agiota” ou “Misérias Sociais”. 
Na sua versatilidade artística, Furtado Coelho compôs a musica para esta obra de Octave Feuillet: Dalila

Para além de artista, Furtado Coelho foi também um empresário dinâmico e arrojado. Criou e dirigiu muitas companhias, enriquecendo e falindo muitas vezes. Por circunstâncias de mercado, em diversas ocasiões teve de deixar de lado os seus ideais por um teatro realista e conformar-se com um estilo mais popular. 

Trabalhou até pouco antes de falecer, mas o fim da sua carreira foi inglório, como registou o jornalista e critico brasileiro Alfredo Pujol: «Lembro-me de o ter visto um dia, numa longínqua cidade do interior de São Paulo, velho e enfermo, dizendo monólogos a uma plateia de dez tostões a cadeira, num palco improvisado de sarrafos e aniagem. Doeu-me ver assim humilhado um dos mais eminentes actores do nosso tempo». 

É triste, muito triste! 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. Janeiro. 26

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