BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. “No Palco da Saudade”: rubrica semanal de Salvador Santos para se recordarem as grandes figuras do nosso Teatro, Cinema, Radio e Televisão que já desapareceram do nosso convívio. Hoje recorda-se Fernando Gusmão

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O Teatro no Bancada Directa. “No Palco da Saudade”: rubrica semanal de Salvador Santos para se recordarem as grandes figuras do nosso Teatro, Cinema, Radio e Televisão que já desapareceram do nosso convívio. Hoje recorda-se Fernando Gusmão

In memoriam
Fernando Gusmão, de seu nome completo Fernando Morais Ferreri Gusmão, nasceu em Lisboa em 6 de Fevereiro de 1919 e faleceu nesta mesma cidade, na Casa do Artista em Carnide em 17 de Fevereiro de 2002
O Teatro no Bancada Directa. 
“No Palco da Saudade”: rubrica semanal de Salvador Santos para se recordarem as grandes figuras do nosso Teatro, Cinema, Radio e Televisão que já desapareceram do nosso convívio. 
Hoje recorda-se Fernando Gusmão 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 
Cabo Verde. Ilha de Santiago. Cidade da Praia. Fernando Gusmão viveu aqui desde os 5 aos 19 anos de idade

 FERNANDO GUSMÃO 

Nasceu em Lisboa, mas foi na cidade da Praia, em Cabo Verde – onde viveu dos cinco aos dezanove anos –, que cresceu, estudou e se fez homem. No regresso à sua cidade-berço apaixonou-se pelo teatro, transformando-se aos poucos num dos mais importantes encenadores da segunda metade do século XX e aquele que mais influenciou a geração teatral portuguesa da década de 1960. 
Grupo 4. Na foto vêm-se Fernando Gusmão ( de costas), João Lourenço, Rui Mendes, Luisa Salgueiro, Morais e Castro e Irene Cruz

 Tudo começou, porém, com a representação, tanto no teatro como na televisão ou no cinema, onde bebeu ensinamentos vitais à sua formação como director de actores. Mas foram outros e vários os caminhos que teve de percorrer antes de se iniciar na actividade artística, evidenciando também aí o brio e a dedicação profissional com que norteou toda a sua vida nos palcos. 

Fernando Gusmão iniciou-se como actor amador em 1948, com vinte e nove anos, na companhia d’Os Companheiros do Pátio das Comédias, onde interpretou “O Casamento” de Nicolau Gogol, “Continuação da Comédia” de João Pedro de Andrade e “Escola de Maridos” de Molière. 
A sua prestação motivou o interesse de Amélia Rey Colaço que o convidou a integrar o elenco do Teatro Nacional D. Maria II, onde se estreou, já como profissional, na peça “Curva Perigosa” de Priestley. Seguiram-se neste mesmo palco os espectáculos “A Senhora das Mãos Brancas” de Alejandro Casona e “A Comédia da Morte e da Vida” de Henrique Galvão, que lhe mereceram os maiores elogios da crítica e dos colegas consagrados, para além dos aplausos do público. 
Passados apenas dois anos, Fernando Gusmão tomou uma decisão que viria a caracterizar toda a sua trajectória profissional, marcada por sucessivas experiências alternativas ao projecto defendido pelo Teatro D. Maria II, ao aceitar o convite do actor Alves da Cunha para ingressar na companhia que este dirigia no Teatro Ginásio. Neste palco, teve oportunidade de contracenar com um dos nossos maiores actores de sempre e de representar alguns dos textos dramáticos de maior sucesso daquela época. 

Nos anos seguintes, a sua carreira de actor atinge o auge com as peças “Rei Lear” de William Shakespeare, “O Príncipe Disfarçado” de Marivaux e “O Alfageme de Santarém” de Garrett, tendo sido dirigido neste espectáculo por Ribeirinho, no Teatro do Povo. Sedento de novas experiências, Fernando Gusmão desdobra-se depois por diversos géneros teatrais, desde a tragédia à revista. No Teatro Avenida representa “Joana D’Arc” de Jean Anouilh e “João Gabriel Bockman” de Ibsen. 
Com o Teatro Nacional Popular, sediado no Teatro da Trindade, interpreta sucessivamente “Noite de Reis” de Shakespeare, “Um Dia de Vida” de Costa Ferreira, “Diário de Anne Frank”, de Goodrich e Hackett, “Doze Homens Fechados” de Reginald Rose e “À Espera de Godot” de Samuel Beckett. E a terminar a década de 1950, viaja até à cidade do Porto, para uma larguíssima temporada no velhinho Teatro Sá da Bandeira, onde se estreou no teatro de revista em números de crítica social e política em “Aqui é Portugal”. 

A estreia de Fernando Gusmão na encenação aconteceu com a fundação do Teatro Moderno de Lisboa, um dos grupos mais marcantes da história do teatro português que viria a inspirar a criação de um conjunto de novas companhias e novas formas de gestão artística. “Humilhados e Ofendidos” a partir da obra homónima de Dostoievski, “Os Três Chapéus Altos” de Miguel Mihura e “O Render dos Heróis” de José Cardoso Pires, foram assim as suas primeiras encenações, ao mesmo tempo que prosseguia a sua carreira na representação interpretando peças como “O Tinteiro” de Carlos Muñiz, “Ratos e Homens”, de John Steinbeck, “O Dia Seguinte” de Francisco Rebello, “O Professor Taranne” de Adamov, ou “Dente por Dente” de Shakespeare. 

Dali em diante, Fernando Gusmão trabalhou sobretudo como encenador, com esporádicas aparições no teatro, na televisão e no cinema como actor. Entre 1965 e 1966 dirigiu o Grupo Cénico de Direito, passando em 1967 pelo Teatro Experimental do Porto (TEP) para encenar “O Tempo e a Ira” de Osborne e “A Renúncia” de Unamuno. 
É desse ano também a direcção de “A Voz Humana” de Cocteau, com Maria Barroso, encenando no ano seguinte pela primeira vez o Grupo 4. Na década de 1970, intensifica-se a sua colaboração com o teatro universitário, dirigindo um Grupo de Estudantes de Moçambique e o Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC). E em 1978 é cooperante na Guiné-Bissau, onde ministra um curso de formação para actores. 

No seu regresso a Portugal, em 1979, Fernando Gusmão voltou a dirigir o Grupo 4 (então já rebaptizado de Novo Grupo), passou pela primeira vez como encenador pelo Grupo de Campolide (actual Companhia de Teatro de Almada), retornou ao TEP para dirigir um novo espectáculo e respondeu afirmativamente a um pedido do TEUC para uma derradeira encenação em Coimbra. 
Entretanto, ia ultimando o livro autobiográfico “A Fala da Memória” que seria editado oito anos antes de decidir fixar residência na Casa dos Artistas, em 2001. E foi ali, praticamente esquecido por todos, a que não será estranho o seu gosto por uma boa polémica que alguns confundiam com arrogância, que viu chegar o fim dos seus dias aos oitenta e quatro anos. Partiu só um dos artistas que mais lutou para que um dia se pudesse fazer teatro para pessoas livres em Portugal! 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2013. Janeiro. 10

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