BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa integrando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. No limiar deste ano de 2014 recorda-se a fadista Berta Cardoso.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O Teatro no Bancada Directa integrando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. No limiar deste ano de 2014 recorda-se a fadista Berta Cardoso.

In memoriam
Berta Cardoso nasceu em Lisboa em 21 de Outubro de 1911 e faleceu nesta mesma cidade em 12 de Julho de 1997.
Foi uma grande fadista portuguesa

O Teatro no Bancada Directa integrando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. 
No limiar deste ano de 2014 recorda-se a fadista Berta Cardoso. 

“No Palco da Saudade” 

Texto inédito e integral de Salvados Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 


 BERTA CARDOSO 

Cantadeira de referência da chamada “época de ouro do fado” dos anos 1930, tendo atingido um sucesso quase imediato nos retiros fadistas de então, ela foi também vedeta de grande prestígio nos palcos do teatro de revista. Para trás ficava uma infância atribulada e uma adolescência de grandes dificuldades. 

Com apenas nove anos perdeu o pai, ficando aos cuidados de uma instituição de solidariedade social por ordem dos tribunais. Afastada da mãe e dos irmãos, tornou-se numa criança pouco dada a grandes conversas. 
 Berta Cardoso, na foto trabalhando com o grande Alfredo Marceneiro e com  Linhares Barbosa

Quando se sentia mais triste refugiava-se nas cantigas, para satisfação de educadores, auxiliares e companheiros de infortúnio. Numa noite de fim-de-semana, tinha ela dezasseis anos, um dos seus irmãos levou-a ao Salão Artístico de Fado, no Parque Mayer, e convidaram-na a cantar. Só não foi contratada porque era menor! 

Na sua noite de estreia, Berta Cardoso teve a grata sorte de ser acompanhada à guitarra pelo virtuoso Armandinho que logo percebeu a pérola que tinha a seu lado. E a partir daí ela conseguiu alguma independência económica, graças a espectáculos pontuais em diversos retiros fadistas. Foi tempo então do desejado regresso ao convívio da mãe e irmãos, o que coincidiu com o convite para integrar o elenco da revista “Ricócó”, no Teatro Maria Vitória, a que se seguiu a participação nos espectáculos “Viva o Jazz!” e “A Nau Catrineta”, ambos naquele mesmo palco do Parque Mayer. 
Paralelamente, a sua voz fazia-se ouvir no Solar da Alegria, no Salão Jansen, no Café Luso e no Retiro da Severa, quatro dos mais conceituados recintos fadistas, onde rapidamente passou a ser apelidada de «a voz de oiro do fado» pelos amantes da chamada canção nacional. Dotada de um estilo e de uma capacidade interpretativa singulares, Berta Cardoso, que tinha uma dicção irrepreensível e uma voz privilegiada, passou a ser disputada por diversas companhias, entre as quais a da grande actriz Maria das Neves que a levou pela primeira vez ao Brasil. 

No elenco sobressaíam duas jovens quase estreantes, mas com uma carreira promissora pela frente, Beatriz Costa e ela. O público brasileiro rendeu-se ao seu talento, com os jornais locais a destacarem a forma de cantar da fadista. Começava aqui, por assim dizer, a penetração do fado no mercado internacional, de que ela foi pioneira com Ercília Costa, através de frequentes actuações em países dos continentes americano e africano, sempre com assinalável sucesso. 
O teatro de revista não dispensava, porém, o contributo de Berta Cardoso, que durante as décadas de 1930 a 1960 conheceu grande sucesso em quase todos os palcos de Lisboa e Porto, nomeadamente nos espectáculos “Olaré, Quem Brinca”, “Viva a Loucura”, “Arre, Burro!” e “Lisboa é Coisa Boa”, contracenando com alguns dos maiores artistas da sua época, como Mirita Casimiro, Vasco Santana, António Silva ou Beatriz Costa. E com esta última, voltaria ao Brasil no final da década de 1930 para uma temporada gloriosa, com as revistas “Eh, Real”, “Meu Rico São João”, “Dança da Luta” e “Pega-me ao Colo”, que ficaria registada nos anais da história do teatro brasileiro como uma das mais importantes de sempre no contexto das produções musicais. 

Após o regresso de mais esta inolvidável temporada no Brasil, Berta Cardoso passou a integrar a Embaixada do Fado do Solar da Alegria, na qual se juntaram outras vozes consagradas como Alfredo Marceneiro e Amália Rodrigues, percorrendo o país de norte a sul e fazendo escala de maior permanência da cidade do Porto. Na Invicta, a fadista cruzou as temporadas de cantadeira como a sua vertente de atriz de revista em espectáculos sobre acontecimentos locais e a vida da gente tripeira, como “Porto ao Sol” ou “Isto é o Porto”, que esgotaram o Teatro Sá da Bandeira durante largos meses. 
Mas, subitamente, a partir de 1960, ela decidiu abandonar definitivamente os palcos de teatro, centrando-se cada vez mais nas gravações discográficas e nas actuações em Casas de Fado, onde foi homenageada por várias vezes por colegas, amigos e admiradores. Os discos e a televisão, bem como o cinema, tiveram grande importância na popularidade de Berta Cardoso. 

A sua participação no filme “O Feitiço do Império” de António Lopes Ribeiro, protagonizado por Ribeirinho e António Silva, em 1939, abriu-lhe as portas das mais importantes editoras, onde gravou temas que mais tarde viriam a integrar os álbuns “The Story of Fado” (editora Hemisphere), “Portugal, Fado: Chant de L’mee” (Éditions du Chên) e “Fado Português” (Movieplay). No que respeita à televisão, a sua presença destacou-se sobretudo nos programas “Bodas de Ouro de Uma Fadista” e “Zip-Zip”, em emissões especiais de homenagem à sua brilhante carreira. 
 Apesar de o seu afastamento da vida artística ter sido anunciado por inúmeras vezes, desde 1945 (a que não é estranho o facto de Berta Cardoso ter concluído nesse ano um curso de enfermagem, com a especialização de obstetrícia – embora nunca tenha exercido aquela profissão), a fadista só abandonou de vez a sua actividade em 1996, com… oitenta e cinco anos! 

E não o fez por vontade própria ou por falta de apoio do público. Uma doença degenerativa do sistema nervoso, já em estado muito avançado, que implicava cuidados e vigilância permanentes, forçou o seu internamento num lar da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, onde viria a falecer a 12 de Julho de 1997. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. Janeiro. 02

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