BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade” é uma rubrica de Salvador Santos que hoje recorda Artur Agostinho. É o Teatro no Bancada Directa

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

“No Palco da Saudade” é uma rubrica de Salvador Santos que hoje recorda Artur Agostinho. É o Teatro no Bancada Directa

In memoriam
Artur Fernandes Agostinho nasceu em Lisboa em 25 de Dezembro de 1920 e faleceu nesta mesma cidade em 22 de Março de 2011.
Foi um radialista (especialista no sector desportivo), um jornalista, um escritor e um actor do cinema português.

“No Palco da Saudade” é uma rubrica de Salvador Santos que hoje recorda Artur Agostinho. 
É o Teatro no Bancada Directa 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 
ARTUR AGOSTINHO 

Jornalista desportivo, apresentador de concursos e programas de variedades, locutor de rádio, empresário de publicidade e actor de cinema e televisão, ele foi um dos mais populares e versáteis comunicadores portugueses do século XX. Começou na rádio muito cedo, com pouco mais de dezassete anos, ao mesmo tempo que cursava engenharia de electricidade e máquinas no Instituto Superior Técnico de Lisboa. A sua ligação ao desporto foi reforçada pela passagem por esta instituição de ensino, cujas instalações então recém-inauguradas proporcionavam aos alunos a prática de várias modalidades desportivas. 
E, deste modo, enquanto o desporto se ia entranhando na sua paixão de radialista que já consumara na Rádio Luso, os estudos iam ficando para trás. Ao fim de dois anos de aulas de engenharia, Artur Agostinho percebeu que o seu futuro passaria definitivamente pelas ondas hertzianas. O Clube Radiofónico de Portugal foi a estação de rádio onde prosseguiu a sua experiência como locutor, mas a profissionalização só chegaria com a admissão nos quadros da Emissora Nacional. 

Na estação pública começou por fazer todos os géneros de programas, até que um dia foi chamado a substituir um colega, por doença, que estava destacado para relatar um jogo de futebol entre o SL Benfica e o FC Porto. A partir desse momento o desporto passou a ser o foco da sua atividade, sendo escalado para assegurar o relato e a reportagem das mais importantes provas de futebol, hóquei, ciclismo e demais modalidades amadoras. No início da sua atividade profissional na Emissora Nacional, Artur Agostinho foi desafiado a fazer teatro radiofónico ao lado de grandes nomes de então dos nossos palcos. 
O à-vontade demonstrado e a amizade gerada com alguns deles, designadamente com Laura Alves, Vasco Santana e António Silva, levaram-no até ao cinema. “Capas Negras”, “O Leão da Estrela”, “Cantiga da Rua” e “Sonhar é Fácil” foram alguns dos filmes em que participou entre 1947 e 1951, voltando mais tarde a cimentar a sua faceta de ator cinematográfico em mais meia dezena de produções. 

Esta sua experiência na área da representação proporcionar-lhe-ia o convite para participar, num passado mais recente, em nove ficções televisivas, entre sitcoms, peças de teatro, telenovelas e séries. 

A televisão foi aliás um dos territórios da comunicação onde Artur Agostinho conquistou maior popularidade junto dos públicos menos atentos ao fenómeno desportivo, logo após o nascimento da RTP, em 1957, como apresentador de passatempos e concursos. “Quem Sabe, Sabe”, “O Senhor Que Se Segue”, “No Tempo Em Que Você Nasceu” e “Curto-Circuito”, são apenas alguns desses programas de entretenimento que ia conjugando com o seu trabalho de jornalista na rádio e na imprensa desportiva, ao mesmo tempo que se abalançava na actividade publicitária com a criação da Sonarte, empresa onde cedo construiu uma importante carteira de clientes. 
A disseminação da sua actividade por diversas frentes, após a rádio e o cinema, começou em 1952, quando fez a cobertura dos Jogos Olímpicos de Helsínquia, na Finlândia, ao serviço da Emissora Nacional. 

O jornal Record encomendou-lhe algumas reportagens e, a partir daí, começou a trabalhar regularmente para aquele jornal, que quatro anos depois passou a dirigir. E foi no gabinete de director do Record que a Revolução de Abril de 1974 o surpreendeu. 

O boato de que seria muito mais do que um mero prestador de serviços de vários organismos do Estado Novo e amigo pessoal de figuras destacadas do regime trouxe-lhe grandes problemas. Preso pelo COPCON, acusado de pertencer à PIDE/DGS, Artur Agostinho viveu momentos muito delicados. No Brasil, para onde emigrou após este triste episódio, Artur Agostinho fez de tudo um pouco até conseguir contrato numa das emissoras da Rede Globo. Apesar de completamente integrado na sociedade local, as saudades da família trouxeram-no de volta dois anos depois. 
Da experiência na rádio brasileira trouxe um novo ritmo para o jornalismo radiofónico português, protagonizando uma espécie de revolução na nossa informação desportiva, primeiro na Rádio Renascença e depois na Rádio Comercial. Voltou ao jornal Record, mas apenas como cronista e patrono de um Prémio destinado a homenagear personalidades do mundo do desporto. 

Regressou depois à publicidade com a recuperação da empresa Sonarte, dirigiu o jornal oficial do Sporting Clube de Portugal e foi presidente do Grupo Stromp, entidade ligada a este seu clube de sempre. Os portugueses souberam dar-lhe provas de grande carinho e admiração em várias homenagens que lhe foram prestadas em vida. 

Em 2010, sete meses antes de fazer noventa anos, a SIC e a revista Caras concederam-lhe o Prémio de Mérito e Excelência na “Gala dos Globos de Ouro”. E três dias após completar aquela bonita idade, Artur Agostinho foi agraciado pelo Presidente da República com a Comenda da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, num dia que classificou como «um dos mais felizes» da sua vida. «Realmente foi um dos dias mais felizes da minha vida. 
Felicidade, emoção, alegria, todas as coisas boas da vida me aconteceram hoje», disse na altura. Cerca de três meses depois, a 22 de Março de 2011, chegava a triste notícia da sua morte. Com ele morria parte da história da rádio, da televisão e do cinema em Portugal! 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2013. Janeiro. 03

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