BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade” é a rubrica semanal de Salvador Santos (Teatro Nacional de São no Porto) que continua neste ano de 2014 as recordar os grandes vultos da vida artística portuguesa. E hoje recorda-se quem foi Antonio Pinheiro. É o Teatro no Bancada Directa

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

“No Palco da Saudade” é a rubrica semanal de Salvador Santos (Teatro Nacional de São no Porto) que continua neste ano de 2014 as recordar os grandes vultos da vida artística portuguesa. E hoje recorda-se quem foi Antonio Pinheiro. É o Teatro no Bancada Directa

In memoriam
Antonio Pinheiro nasceu em Tavira em 21 de Dezembro de 1867 e faleceu em Lisboa em 2 de Março de 1943
Foi um actor, realizador, argumentista, escritor e professor de arte de representar.

“No Palco da Saudade” é a rubrica semanal de Salvador Santos (Teatro Nacional de São no Porto) que continua neste ano de 2014 as recordar os grandes vultos da vida artística portuguesa. 
E hoje recorda-se quem foi Antonio Pinheiro. 
É o Teatro no Bancada Directa 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos 

ANTÓNIO PINHEIRO 
Nome incontornável do teatro português do século XX, como actor e encenador, a ele se deve a introdução do sindicalismo na classe teatral, através da fundação de três associações de defesa dos artistas, entre 1902 e 1918, enfrentando com coragem e determinação os empresários e demais poderes instituídos. 
Homenagem da Cidade de Tavira ao actor Antonio Pinheiro natural da cidade  
A ele se deve igualmente o lançamento das bases para a reformulação do ensino da arte dramática em Portugal, ao organizar um curso no qual se viria a fundamentar os alicerces da primeira grande mudança da nossa Escola Oficial, onde acabaria por ser professor de estética e plástica teatral, desenvolvendo estudos em torno da anatomia e da fisionomia, contribuindo para a formação em mímica e pantomina que defendia como pilares da arte de representar. 

Em 1923 começam as filmagens  do filme «Cláudia» por Georges Pallu .  A experiência não correu mal, pois Francine Mussey obteve em «Cláudia» um magnífico triunfo de interpretação num papel difícil e diverso. O filme foi igualmente vendido para França. O elenco português desta película não desmereceu, da comparação, com a vedeta francesa. António Pinheiro, Emília de Oliveira, Mário Pedro, Flora Frizzo e Erico Braga, deram brilho às restantes personagens de «Cláudia».

Nascido na cidade de Tavira, filho de um sapateiro, António Pinheiro veio para Lisboa com os pais quando tinha apenas cinco anos. Na capital iniciou um percurso de estudos que o levou à Escola Politécnica, com o objectivo de concluir o curso de medicina. É contudo o teatro, que praticou como amador desde os treze anos de idade, a sua grande paixão e vocação. 

Decidiu então frequentar o Conservatório Real, em paralelo com o curso de Medicina, o que determinou um convite para se estrear no Teatro Ginásio, em 1886, na peça “Nobres e Plebeus”. Perdia-se assim um «médico dos pobres» – como ele já se classificava em estudante – e ganhava-se um actor de grande consciência social que cedo formou companhias ambulantes que percorreram o país. 
 Consequência dos inegáveis méritos artísticos do actor António Pinheiro, Castro Lopes, então director artístico da «Invicta Film», contrata por três anos aquele artista, como actor e encenador, a partir de janeiro de 1922. Em abril de 1922 foi dada a primeira volta da manivela de «Tinoco em Bolandas», primeira realização de António Pinheiro e engraçada comédia de quatro partes, extraída de «A Chávena de Chá», original de José Carlos dos Santos. O desempenho dos diversos personagens esteve a cargo do realizador, Maria Clementina, Otelo de Carvalho, Adriana Guimarães, Maria Campos, Aida de Albuquerque, Pedro Santos, entre outros. Apesar de ter sido produzida e montada esta película em 1922, apenas foi estreada no dia 1 de Fevereiro de 1924.


Defensor acérrimo dos direitos dos artistas e incansável lutador pela elevação moral e artística do teatro português, António Pinheiro liderou duas tentativas para reformar o Teatro D. Maria II, na alvorada e no ocaso da 1ª. República. Não quiseram os nossos governantes acolher as suas propostas, mas todavia ele carregou consigo naquele palco a distinção de brilhantes trabalhos em companhias tão importantes como Rosas & Brasão e Rey Colaço-Robles Monteiro, enquanto ator e encenador. 

Nesta dupla qualidade, assumiu um grande protagonismo na transição do romantismo para o naturalismo, onde o estilo de representação evoluiu de uma declamação cadenciada e enfática de grandes jeitos e trejeitos para uma nova forma de dicção e gestualidade. António Pinheiro esteve ainda ligado ao Teatro Livre, outro dos grupos que mais contribuíram para o rejuvenescimento do teatro português no princípio do século XX, cujos ideais estavam também intimamente ligados à corrente naturalista que já se fazia sentir nas principais capitais europeias. 


Competiu-lhe, aliás, dirigir este projecto de grande fulgor e profundamente consistente no que respeita às práticas teatrais, em 1908, com a encenação das peças “Entre Dois Fogos” de Emídio Garcia, “O Triunfo” de Carrasco Guerra, “A Gaiola” de Lucien Descaves e “A Tranquilidade do Lar” de Guy de Maupassant, no Teatro D. Amélia (actual Teatro Municipal São Luiz), equipamento por onde passou em diferentes temporadas e onde criou a primeira associação de classe. 

Acompanhando a companhia Rosas & Bazão, quando esta foi afastada do Teatro D. Maria por razões muito mal explicadas, António Pinheiro esteve pela primeira vez naquele teatro do Chiado durante dez anos, onde representou “Lagartixa”, “Viriato Trágico”, “Salta Pocinhas” e “Blanchette”, tidos como os melhores espectáculos de toda a sua carreira. 
O ano de 1924 surge o filme  «Tragédia de Amor», produção da Invicta Film. Antonio Pinheiro foi o autor do argumento e o realizador. A principal figura desta película, foi entregue a uma descoberta casual e discípula de António Pinheiro, Alda de Azevedo, pseudónimo artístico de Beatriz Barbosa. Noutros papéis apareciam Adelina Fernandes, Emília de Oliveira entre outros. realizador. 

Na primeira metade da década de 1920 colaborou quase em exclusivo com a produtora Invicta Filmes, uma empresa sediada no Porto, para a qual interpretou mais de uma dezena de filmes, de que se destacam “A Rosa do Adro”, “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, “Amor de Perdição” e “O Primo Basílio”. Mas o teatro calou sempre mais fundo no seu espírito, regressando de vez aos palcos. Foram inúmeras as companhias em que deu o seu contributo, percorrendo com muitas delas quase todo o território nacional e o Brasil, onde foi recebido como um dos mais importantes artistas europeus. 

A última vez que António Pinheiro subiu aos palcos foi em Lisboa, no Teatro Nacional D. Maria II, decorria o ano de 1933, na peça “D. Sebastião”, produzida pela companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, a qual lhe ficou a dever grande parte do prestígio granjeado na época. Dedica-se então à escrita, acrescentando mais alguns títulos à sua já vasta obra literária, de que se destacam importantes contributos para o conhecimento do teatro português do século XX, como “Teatro Português, Estética e Plástica Teatral” e “A Figuração no Teatro como Meio de Educação Social”. 


Em 1921 concretiza-se a primeira versão fílmica do célebre clássico de Camilo Castelo Branco, «Amor de Perdição». Sem dúvida, uma aventura arrojada para a época, em esforço de produção e na precária dimensão da nossa indústria cinematográfica, devido aos cuidados postos pela «Invicta Film» em manter fidelidade ao espírito romanesco. A realização coube ao francês George Pallu, na altura a viver há cerca de três anos entre nós. Tadeu de Albuquerque foi interpretado por Pato Moniz, Simão Botelho por Alfredo Ruas, Mariana por Brunilde Júdice, Teresa por Irene Grave, João da Cruz por António Pinheiro, Baltazar Coutinho por Samwel Diniz, entre outros.

Em 1939 o governo de Portugal condecora-o com a Comenda da Ordem de Sant’Iago da Espada e em 1942 a cidade de Tavira presta-lhe uma derradeira homenagem no teatro do município, que, após a sua morte, em 2 de Março de 1943, passaria a ter o seu nome. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. Janeiro. 20

4 comentários:

Marta Furtado disse...

Boa tarde,

Sou familiar, bisneta, do António Pinheiro e foi com enorme honra que li este artigo no vosso blogg.

Não soubemos desta homenagem que fizeram ao meu bisavô mas é um orgulho enorme ver a obra que o meu bisavô fez ser reconhecida uma vez mais.
Conhecemos recentemente alguém que também muito estudou sobre a vida do meu bisavô em termos artisticos, Luís Gameiro, que fez também uma tese sobre o meu bisavô.

Gostariamos, sempre que existem ocasiões semelhantes a estas, em que o nome do meu bisavô é recordado, de estarmos por perto e de sabermos. Por isso se houver alguma forma de nos informarem ficaremos muito gratos.

A minha mãe (neta directa) tem diversas obras do meu bisavô e tem muito prazer em poder acompanhar o que ainda vai sendo falado sobre ele.

Muito obrigada,
Marta
mrcfurtado@gmail.com

LFG disse...

Boa noite.
É com grande satisfação que verifico que António Pinheiro vai sendo recordado. É uma figura que me acompanha há alguns anos, que me seduz e pela qual desenvolvi forte afinidade. Foram estas as bases e razões que me levaram a desenvolver a dissertação de Mestrado sobre A. Pinheiro na Fac. Letras da Univ. Lisboa.
Cumprimentos
Luís Gameiro

LFG disse...

Boa noite.
É com grande satisfação que verifico que António Pinheiro vai sendo recordado. É uma figura que me acompanha há alguns anos, que me seduz e pela qual desenvolvi forte afinidade. Foram estas as bases e razões que me levaram a desenvolver a dissertação de Mestrado sobre A. Pinheiro na Fac. Letras da Univ. Lisboa.
Cumprimentos
Luís Gameiro

eugénia vasques disse...

Caro Salvador Santos,

Fiquei muito contente com os seus vários artigos sobre estes astros que brilharam, e brilham, o nosso teatro (sobretudo mercê da sua obra social, que fica, e da sua extensa bibliografia, que nos orienta).
Por isso, gostaria de encontrar Bibliografia e Webgrafia nestes seus belos textos (aliás, sou também «parte interessada», como sabe)!
Fiquei feliz por encontrar a família de António Pinheiro!
Um grande abraço
Eugénia Vasques

Obrigado Pela Sua Visita !