BANCADA DIRECTA: Passou o Natal e o Detective Tempicos continua a atacar com a novela colectiva “Tempicos e os pastelinhos de nata” . Hoje publica-se o 7º episódio da autoria do Inspector Boavida. Salvadorinho, Salvadorinho! Deixa-te de tretas a cai na real: a Natália é do Povo e é um pássaro livre!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Passou o Natal e o Detective Tempicos continua a atacar com a novela colectiva “Tempicos e os pastelinhos de nata” . Hoje publica-se o 7º episódio da autoria do Inspector Boavida. Salvadorinho, Salvadorinho! Deixa-te de tretas a cai na real: a Natália é do Povo e é um pássaro livre!


Passou o Natal e o Detective Tempicos continua a atacar com a novela colectiva “Tempicos e os pastelinhos e nata” . 
Hoje publica-se o 7º episódio da autoria do Inspector Boavida. 
Salvadorinho, Salvadorinho! 
Deixa-te de tretas a cai na real: a Natália é do Povo e é um pássaro livre! 

UM DRAMA NA PENSÃO KUBALA 7º. episódio: 

"A MALDIÇÃO DA LANÇA". Autor . Inspector Boavida. Porto


Na acanhada sala de pequenos-almoços da Pensão Kubala, todas as conversas giravam em torno do golpe de sorte que salvou a vida do canalizador Eduardo. Apesar de grato à sua salvadora Arlete, o canalizador agia com ares de homem possuidor de superpoderes. 

Quem o ouvisse, fanfarronando, diria que as roupas que trazia vestidas no dia-a-dia da sua triste e frustrante vidinha de desentupidor de sanitas de muito uso e pouca limpeza o tornavam imunes a tiros ou facadas, viessem de onde viessem. 

Eduardo garante até que era com aquele mesmo tipo de tecido que se faziam as roupas que envergava nos seus tempos de piloto de fórmula 1. E lá veio outra vez a história tantas vezes repetida de um Grande Prémio em 1970, justamente o ano em que a Ferrari conseguiu finalmente desenvolver um equipamento capaz de rivalizar com as outras marcas, onde ele teria disputado o primeiro lugar do pódio com o austríaco Jochen Rindt e o brasileiro Emerson Fittipaldi, que à época integravam a escuderia da Lotus. Mas de repente toda a gente deixou de ouvir o canalizador. Natália, a imponente, a grandiosa, a magnífica, que nunca por nunca ser parara por ali, espreitou para dentro da sala, olhou em volta e largou um ai profundíssimo, num misto de angústia e desespero. 
The F60 is the fifty fifth single-seater built by Ferrari specifically to compete in the Formula 1 World Championship. The name of the car was chosen to celebrate the Scuderia’s participation in all 60 editions of the Formula 1 World Championship since 1950 to date. The project, which goes by the internal code name of 660, represents the Scuderia’s ....  
Eduardo orgulhava-se de ter pertencido à “Scuderia” da Ferrari. Nesta foto de 2009 Eduardo não aparece na foto porque  atrasou-se a comer uma sandocha no bar do autódromo

Os mais diversos pensamentos passaram em galope pela cabeça dos hóspedes presentes. Para Novena, estava decerto por cair um santo do altar. Para o intelectual Duarte, aquela aparição merecia um soneto em louvor da beleza e do amor. Para o doutor Aurélio, a namorada do Salvadorinho devia estar a precisar de um exame minucioso com direito a apalpação. Para o Ruca-da-Bica, a madame devia querer apanhar uma boleia do seu táxi. 

E para o Eduardo, ela devia era ter algum cano entupido e andava em busca dos seus préstimos. Mas assim como Natália aparecera, vinda do seu mundo inatingível, do mesmo modo sumira rumo à recepção sem dizer ao que ia. As mulheres responsáveis pela gestão, organização e execução dos serviços da Pensão Kubala ficaram intrigadas com o inesperado e súbito interesse da sempre distante e pouco sociável Natália em saber do paradeiro de Tempicos.

Arlete era um monumento de graciosidade e Tempicos era o grande amor da sua vida. Andava sempre a trautear o tema do Bonga: "Tempicos vem comigo p´ra Angola"

Ela que sempre ignorou o velho e aposentado Inspector mostrava agora grande urgência em chegar à sua fala. Arlete, aparentemente enciumada pela tentativa de aproximação da boazona da avenida ao homem que tem como seu até à eternidade, não teve como evitar um desabafo de ressentimento: “Se tem urgência, ligue para o 112”. Fátinha apressou-se a colocar água na fervura: “O garanhão do quarto 13 está nos seus aposentos”. Tempicos estremeceu dos pés à cabeça quando viu Natália entrar no seu quarto, sem se fazer anunciar. 

Arlete tinha deixado a porta encostada com a pressa de sair, naquela manhã, e ele ainda estava de ceroulas vestidas. Com a atrapalhação, Tempicos hesitou entre despir as ceroulas ou vestir umas calças por cima. Enquanto isso, Natália aproximou-se decidida e meio coquete. E a pouco mais de meio metro, sussurrou-lhe num suspiro profundo: 
-“Preciso muito de si, inspector”. A resposta não se fez esperar: 
-“É para já. Deite-se!” Perante o olhar incrédulo e desconfortável de Natália, Tempicos corrigiu atabalhoadamente: 
-“Quero dizer, ajoelhe-se. Perdão, sente-se, sente-se”. Sentada aos pés da cama Natália disse:
-“O meu Salvadorinho não anda nada bem”. Não havia qualquer novidade naquela afirmação. 

 É para já, minha senhora! Deite-se!, Melhor sente-se" Ou antes ajoelhe-se. Os delirios de Tempicos

Desde a morte de Pedro Manuel que o bailarino evidenciava algumas alterações comportamentais. Até a sua saudação da cada manhã sofrera uma grande mudança. Em vez de um claro “bom dia”, passou a ouvir-se um grunhido ininteligível acompanhado de uns estranhos salamaleques. “A primeira vez que se expressou dessa forma estávamos na cama” – fez saber Natália. “Ainda pensei que ele atingira finalmente o clímax, um momento supremo de prazer, mas não. 

Estava a pedir um copo de água… em dialeto cunhaguês, disse-me ele”. Não havia prova mais concludente de que Salvadorinho passava por um momento terrível. Já não era nada bom sinal a sua súbita fixação pelo bronzeado de solário desde que acabara o verão ou as horas perdidas no cabeleireiro afro a encarapinhar o cabelo, mas agora pedir um copo de água, e ainda por cima em dialecto africano quando se está no bem-bom, é demais. 

Alguma coisa teria dado volta à cabeça do bailarino, mas desconhecia-se o quê. “Ele agora até quer mudar radicalmente o seu repertório” – desvendou Natália. “Quer deixar a valsa, o tango e o swing para se dedicar exclusivamente às danças africanas. Ele até já exigiu aos agentes e empresários com quem trabalha que passem a anunciá-lo como… Dorinho, O Rei do Quizomba”. 
O bailarino está muito pior do que se pensava. “Trata-se de alguma maldição” – arriscou Tempicos. Nisto ouviu-se um estrondo e Natália enroscou-se de medo em volta do pescoço do inspetor. 

A porta cedera à pressão do magote de gente que procurava escutar o que se passava no interior do quarto, fazendo com que esta caísse com força no chão. Na frente dos coscuvilheiros estava a jovem e desinibida empregada Arlete, que não se conteve: “Sua sonsa, sua vaca, sua…”. 

Novena, de joelhos no chão, arrastou-se até ela, impedindo-a de se levantar e chegar a vias de facto com a suposta rival, segurando-a pela coxa da perna esquerda. E teria ficado assim até sabe Deus quando, se este não tivesse escolhido outro caminho para este episódio da nossa história. Eduardo pôs-se de pé, num salto tão lesto, tão enérgico e destemido que era bem capaz de fazer inveja aos mais ágeis e bem treinados ginastas do leste. 

E antes que Ruca-da-Bica, Fátinha, Duarte e Aurélio, espalhados pelo chão em volta da empregada da Pensão Kubala e do ex-seminarista, tivessem tempo de se erguerem, uma lança voou sobre as suas desmioladas cabeças e atingiu em cheio o peito do canalizador.
-“Conha! Conha-cum-conha. Makamaka-conha!!!” – gritou Salvadorinho da soleira da porta. 
"Conha! Conha-cum.conha. Makamaka-conha!!!" Salvadorinho exagerava: o Rei do Kisomba até nem era desengraçado.

 De dedo em riste em direcção do Rei do Kizomba, de olhos esbugalhados e antes de cair redondo no chão por cima da molhada de gente por ali espojada, Eduardo ainda gritou com os pulmões que lhe restavam: “É a maldição da Lança! É a maldição da Lança!” 

18 de dezembro de 2013
Inspector Boavida

O autor deste episódio



 

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