BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. Hoje é lembrada Ercilia Costa

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. Hoje é lembrada Ercilia Costa

O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. 
Hoje é lembrada Ercilia Costa

 “No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos 

ERCÍLIA  COSTA
Ela foi a Santa do Fado, designação que se deve ao jeito como colocava as mãos ao cantar, junto ao peito, em forma de oração. Juntou ao seu nome de baptismo o primeiro nome da terra onde nasceu, a vila da Costa da Caparica, e foi assim que se apresentou desde sempre como fadista, apesar de ter deixado aquela terra da margem sul de Lisboa muito cedo. Com apenas 3 anos, a família mudou-se para o velho bairro lisboeta de Alcântara e foi aí que ela verdadeiramente nasceu para o fado. 

Exerceu primeiro a profissão de ajudante de costureira para ajudar na subsistência familiar, mas depressa trocou aquele ofício pelas cantigas, influenciada pela opinião dos vizinhos que a ouviam cantar quase a todas as horas, de manhã à noite, para gáudio de todos eles. Ainda adolescente, Ercília Costa apresentou-se numa audição, em resposta a um anúncio, para integrar o elenco de um espectáculo a realizar no Teatro Nacional São Carlos, tendo sido uma das concorrentes seleccionadas. Porém, o projecto acabaria por ser cancelado. Mas a qualidade da sua interpretação ficou na memória do actor Eugénio Salvador, que lhe fez pouco tempo depois um convite para ingressar na companhia que preparava para o Teatro Maria Vitória. 

E foi assim que ela começou o percurso artístico como profissional no teatro de revista, ao lado de grandes vedetas como Luísa Satanela ou Beatriz Costa, rubricando trabalhos de considerável relevo como actriz, mas foi como intérprete de fado que registou os seus maiores êxitos e consequente popularidade. 
Ao longo de toda a década de 1930, Ercília Costa fez parte de um reduzido grupo de fadistas convidadas a apresentar-se regularmente no teatro de revista, criando assim um espaço próprio de apresentação dos profissionais do fado naquele género teatral, que foi depois seguido por grandes nomes como Berta Cardoso ou Hermínia Silva. Destacam-se da sua ligação ao teatro de revista, a peça de estreia, “O Canto da Cigarra”, onde criou o tema “Fado Lisboa”, e os espectáculos “Feira da Luz”, “Fogo de Vista”, “Fim do Mundo” e “A Boca do Inferno”. 

Simultaneamente, o cinema entrava na sua vida, com a participação nos filmes “Amor de Mãe”, “Amargura” e “Lisboa 1938”, sendo que este último contribuiu decisivamente para a sua projecção internacional. Além dos Estados Unidos, onde se deslocou inúmeras vezes, Ercília Costa actuou no Brasil em companhias de teatro portuguesas e brasileiras, tendo cantado igualmente no Uruguai, Argentina, Espanha e França sempre com grande êxito. 
Na sua primeira ida ao Brasil fazia parte da companhia de Vasco Santana e Mirita Casimiro, mas o seu sucesso foi de tal forma estrondoso que acabou por permanecer uma longa temporada nesse país. Pouco tempo depois realizou dois espectáculos na Comédie Française, em Paris, e actuou no Pavilhão Português da Feira Internacional de Nova Iorque. 

A esta atuação seguiu-se uma longa digressão com a duração de dez meses por várias cidades dos Estados Unidos, obtendo um êxito assinalável em Los Angeles e em Hollywood. Ercília Costa actuou pela segunda vez em Hollywood em 1939, o mesmo ano da estreia de outra grande estrela nascida em terras lusas, Carmen Miranda, tendo feito amizade com Bing Crosby e Gary Grant, para quem actuou. 

A fadista foi, aliás, a primeira artista portuguesa a realizar digressões sistemáticas no espaço internacional, a primeira a actuar numa rádio de língua estrangeira e a gravar aquele que pode ser hoje considerado como o primeiro videoclip de um artista nacional. Em 1945, na sua terceira digressão ao Brasil, que durou mais de quinze meses, realizou espectáculos nos mais prestigiados recintos do circuito musical brasileiro, tendo ainda integrado o luxuoso elenco da companhia de teatro de revista liderada pela vedeta carioca Alda Garrido. 
As primeiras gravações discográficas de Ercília Costa datam de 1929, altura em que a fadista se deslocou a Madrid para gravar para a etiqueta Odeon, acompanhada à guitarra portuguesa pelo virtuoso Armandinho e à viola pelo não menos exímio e famoso instrumentista Georgino de Sousa. Posteriormente viu alguns dos seus trabalhos serem editados no Brasil e nos Estados Unidos, para além de inúmeras gravações registadas em Portugal. 

O seu último trabalho discográfico, o vinil “Museu do Fado”, data de 1972, onde se podem ouvir alguns dos seus temas mais populares, como “Amor de Mãe”, “Fado Ercília”, “Fado da Amargura”, ou ainda o “Fado da Mocidade” e “O Filho Ceguinho”, este último vulgarizado no meio fadista como o “Menor da Ercília”. Ercília Costa, que protagonizou com Alfredo Marceneiro, na década de 1930, o agrupamento Guitarra de Portugal, com o qual percorreu o país de norte a sul, é hoje pouco recordada possivelmente fruto da falta de reedição em formato CD das muitas gravações que fez. 
Neste formato encontra-se apenas disponível uma recolha das suas gravações com Armandinho, editada em 1995 na colecção “Arquivos do Fado” da Editora Tradisom, onde é possível reconhecer o seu enormíssimo talento e imaginar os caminhos que podia ter percorrido se não tivesse resolvido dedicar-se inteiramente ao seu casamento, em 1954, retirando-se totalmente da vida artística a partir daí e sem despedidas. 

Para desgosto dos seus admiradores, Ercília Costa não fez mais espectáculos ao vivo até à data do seu falecimento em 1985. Ficou pouco mais do que a saudade! 

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2013. Dezembro. 21

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