BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. Hoje recorda-se quem foi Jorge de Sena

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. Hoje recorda-se quem foi Jorge de Sena

 O Teatro no Bancada Directa 
Rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. 
Hoje recorda-se quem foi Jorge de Sena 

No Palco da Saudade 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

JORGE DE SENA 
Poeta, ficcionista, dramaturgo e ensaísta, ele foi autor de uma obra marcada sobretudo pela reflexão humanista acerca da liberdade do Homem, iniciada ainda enquanto estudante do Liceu, quando tinha pouco mais de dezassete anos. Influenciado pelo pai, comandante da marinha mercante, ingressou na Escola Naval, mas depressa percebeu que aquele não era o seu mundo. 

A passagem pela Armada, no momento em que se lutava pela liberdade em Espanha, constituiu uma experiência traumática da sua adolescência que seria matéria de diversos poemas e ficções, ao mesmo que o despertou para o processo de fascização que se operava em Portugal. Acabou por se licenciar em Engenharia Civil, trabalhando na Junta Autónoma de Estradas entre 1948 e 1959, ano em que se exilou no Brasil, receando as perseguições políticas resultantes de uma falhada tentativa de golpe de estado, a 11 de Março desse ano, em que esteve envolvido. 
Os anos de Brasil (1959-1965), os primeiros vividos como adulto em liberdade, foram talvez o seu período mais criativo: completou a sequência de poemas sobre obras de arte visual, “Metamorfoses”, escreveu os experimentais “Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena”, as metamorfoses de “Arte de Música” e a novela “O Físico Prodigioso”, iniciou o romance “Sinais de Fogo”, investigou e publicou sobre Luís de Camões e o Maneirismo, trabalhou na edição do “Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa, retomou a escrita para o teatro, etc. 

Após a alteração da situação democrática no Brasil, com o golpe militar de 1964, que fez temer um regresso ao passado, quer em termos políticos quer em termos de dificuldades económicas, Jorge de Sena partiu para os Estados Unidos e abrandou a produção literária, que pouco depois retomaria em pleno. 
Nos Estados Unidos da América, onde integrou o corpo docente da University of Wisconsin (Madison), transitando de seguida para a University of California (Santa Barbara), para além de ter sido membro da Hispanic Society of America, da Modern Languages Association of America e da Renaissance Society of América, Jorge de Sena não restringiu a sua actividade cultural aos círculos académicos e de emigração (no período californiano, desempenhou um importante papel no esclarecimento das comunidades portuguesas sobre o 25 de abril de 1974). 

Paralelamente à sua exigente actividade académica e cívica, ele continuou a enriquecer a sua obra poética e ficcional, ao mesmo tempo que reunia uma enorme e rica correspondência com outros escritores e intelectuais portugueses e brasileiros e efectuava inúmeras viagens de trabalho à Europa, Moçambique e Angola, falando de Camões no IV Centenário de “Os Lusíadas”. 
 A obra de Jorge de Sena, vasta e multifacetada, compreende mais de vinte colectâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças de teatro em um ato, mais de trinta contos, uma novela e um romance, e cerca de quarenta volumes dedicados à crítica e ao ensaio, à história e à teoria literária e cultural, ao teatro, ao cinema e às artes plásticas, sem esquecer as traduções de poesia (duas antologias gerais, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX, num total de 225 poetas e 985 poemas, e antologias de Kavafis e Emily Dickinson, dois poetas que deu a conhecer a Portugal), as traduções de ficção (Faulkner, Hemingway, Graham Greene, entre 18 autores), de teatro (com destaque para Eugene O’Neill) e de ensaio (Léon Chestov). 

A criação poética de Jorge de Sena foi desde cedo acompanhada por uma intensa actividade intelectual e cultural, como conferencista, como crítico de teatro e de literatura, em diversos jornais e revistas, como comentador de cinema (nas “terças-feiras Clássicas”, no Teatro Tivoli), como director de publicações (com destaque para os Cadernos de Poesia), como coordenador editorial (na revista Mundo Literário), como consultor literário (nas Edições Livros do Brasil ou na Editora Agir), tendo sido ainda cofundador da companhia de teatro Os Companheiros do Páteo das Comédias, em 1948, e colaborador, nesse mesmo ano, de António Pedro, no programa de teatro radiofónico “Romance Policial”, adaptando contos de Chesterton, Hammett, Poe e muitos outros. 
A obra de Jorge de Sena ocupa uma posição singular na literatura nacional e internacional contemporânea, dado o facto de, enquanto mediadora de uma história literária e cultural com que o autor estabeleceu um diálogo existencial e textual, se apresentar simultaneamente como clássica, moderna, socialmente empenhada, confessional e surrealizante. 

Apreciando o conjunto da sua poesia, no final dos anos 1950, o genial poeta António Ramos Rosa observou que o surrealismo e o classicismo nela se defrontam, «numa extrema tensão, para se fundirem […] numa expressão poética de uma grande elegância prosódica, muitas vezes lapidar e finamente musical». Portugal soube honrar em vida este seu ilustre filho, concedendo-lhe diversas homenagens públicas após a Revolução dos Cravos, entre elas a condecoração com a Ordem do Infante D. Henrique. 
 A título póstumo, Jorge de Sena receberia ainda a Grã-Cruz da Ordem de Santiago e Espada, mas a homenagem que decerto mais o comoveria se ainda fosse vivo, aconteceu em 1986, na Gulbenkian/ACARTE, com a estreia de “O Indesejado”, peça escrita em 1945, com Sinde Filipe vestindo a pele de protagonista. 

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2013. Dezembro. 16

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