BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Badaró é a recordação de hoje de Salvador Santos na sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O Teatro no Bancada Directa. Badaró é a recordação de hoje de Salvador Santos na sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”.


In memoriam

Badaró, de seu nome próprio Manlio Hedair Badaró, nasceu em S. Paulo, no Brasil, no dia 23 de Abril de 1933, tendo iniciado a sua vida artística na Rádio de S. Paulo. Devido ao êxito obtido foi chamado para o teatro, tendo pisado a ribalta, pela primeira vez, no ano de 1954, no Teatro das Bandeiras, no Rio de Janeiro. No seu país fez teatro de revista em quase todas as salas importantes das principais cidades. Foi artista da TV Rio,

Salvador Santos desenvolve em pormenor no seu texto a sua carreira e vivência em Portugal
Badaró faleceu em Lisboa, vitima de doença prolongada, na madrugada de 30 de Outubro para 1 de Novembro de 2008
O Teatro no Bancada Directa
Badaró é a recordação de hoje de Salvador Santos na sua rubrica "No Palco da Saudade"

"No Palco da Saudade"

Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

BADARÓ 
Brasileiro de nascimento, português por uma louca e saudável paixão consumada com a naturalização lusa e renúncia à nacionalidade de origem, viajou para Portugal em 1957 integrado no elenco do espetáculo “Fogo no Pandeiro”, onde pontificavam figuras de relevo como Berta Loran e Gloria May, para sarar as feridas de um grande amor perdido. 

Tinha como intenção ficar apenas alguns meses em Lisboa e percorrer depois toda a Europa, com escala obrigatória em Paris. Mas a peça foi um grande êxito, mantendo-se em cena durante largos meses, e ele ficou para sempre entre nós. 
No Brasil, estreara-se como locutor na Rádio Record, em São Paulo, e a sua experiência nos palcos era quase nula. Embora a sua veia de humorista já tivesse sido testada com sucesso nas ondas hertzianas, foi entre nós que ele descobriu o seu talento como ator. A amizade de Badaró com Raul Solnado, que na altura era casado com a atriz brasileira Jo Alvarenga, facilitou a sua integração no meio artístico português, onde conquistou rapidamente outros dois grandes amigos: Hermínia Silva e o empresário Vasco Morgado. 

A amizade com este último, fortalecida com o passar dos tempos, foi a sua primeira grande âncora no teatro ao garantir-lhe diversos trabalhos nos palcos que aquele então geria, mas acabaria por se tornar num forte entrave à sua carreira após a Revolução dos Cravos quando o empresário passou a ser acusado de uma programação alienante e voltada essencialmente para o lucro. Nessa altura, Badaró aceitou fazer “O Último Fado em Lisboa”, espectáculo cómico com recurso a mulheres despidas, que foi classificado de fascizante e provocou um grande sururu no Teatro Monumental. 
A polémica gerada em torno desta produção, que chegou a provocar confrontos físicos entre espectadores (alguns deles actores, não integrantes do elenco) com opiniões divergentes, determinou o afastamento de Badaró dos palcos por um período de tempo considerável. Face a esta situação, a sobrevivência passou por um regresso à rádio, onde já fizera nos anos 1960 um programa de humor com Raul Solnado e José Viana e um jornal humorístico (“Jornaleco”) de grande impacto popular, onde ficou célebre a expressão «Toma e Embrulha!» 

Passada esta fase de abstinência dos palcos, ei-lo então de regresso à comédia, no Teatro Laura Alves, com “Vamos Trocar de Mulheres” e aos musicais, no Teatro ABC, com “Badaró 8 e Meio”, onde surgiu pela primeira vez a figura do Chinesinho Lim Pó Pó, que havia de marcar a sua carreira para sempre. A figura do chinês de longos bigodes, sempre atrapalhado por não saber falar bem o «portugalês» e a perguntar constantemente «como ixpilico?», é, sem dúvida, a mais marcante de todas as personagens criadas por Badaró, arrebatando de tal forma o público que, três anos depois, foi estrela por um dia na televisão em “Eu Show Nico”, programa protagonizado por Nicolau Breyner. 
Depois desse dia, o chinês ganhou vida própria, ofuscando o seu criador. O Lim Pó Pó foi vedeta na rádio, na televisão, nos mais diversos espaços noturnos e… no circo. Na Páscoa de 1980, um chapiteau montado na lisboeta Praça de Espanha apresentava naquele fim-de-semana prolongado o espectáculo “O Circo do Chinesinho” que esgotou durante cinco sessões por dia. 

Na televisão, depois do seu chinesinho que vendia «glavatas», Badaró criou outras divertidas personagens que conquistaram o coração dos portugueses. O seu maestro da Charanga que reclamava «Ó Abreu dá cá o meu!» e a marioneta que cantava «É política! É política!», no programa “Badarosíssimo” que animou algumas noites de fim-de-semana da RTP no início dos anos 1990, são duas das suas criações que ainda hoje perduram na memória do público telespectador. 
E quando a sua marca pessoal de criador e artista conquistava cada vez mais admiradores, eis que, de súbito, o humorista sumiu do pequeno ecrã e deixou de ser visto nos eventos sociais e nos palcos. A sua companheira Eduarda, que ele amou sem limites, contraiu uma terrível doença que a foi diminuindo aos poucos até ficar completamente dependente dele e de seu filho. Badaró não teve sorte com a saúde dos seus mais queridos, nem com a sua. 

Depois de perder o último amor da sua vida, a doença atacou-o de forma implacável e de diversas maneiras. «Tenho tantos problemas de saúde que já lhes perdi a conta. Sofri um enfarte, um AVC, tive um linfoma e agora descobri que tenho mais um cancro no estômago», afirmou ele numa entrevista, brincando com o seu próprio infortúnio. Como se isto tudo não bastasse, a doença de Alzheimer minava-o. 

E antes de perder completamente a memória, que já o atraiçoava frequentes vezes, o humorista decidiu ainda em vida doar o seu corpo à ciência, concretamente à Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa, num gesto que revela o seu carácter e a sua grande humanidade. Depois de um período de internamento no Instituto Português de Oncologia de Lisboa, Badaró sucumbiu aos setenta e cinco anos. 
As cerimónias fúnebres foram acompanhadas por dezenas de amigos, mas entre eles estavam apenas quatro camaradas de profissão. Badaró jamais quis ser unânime entre a classe teatral, mas nunca compreendeu a animosidade dos seus pares. Talvez isso se devesse ao seu enorme ego, que alguns confundiram com arrogância. Mas na verdade ele era um Grande Senhor! 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2013. Dezembro. 11

Sem comentários:

Obrigado Pela Sua Visita !