BANCADA DIRECTA: A versátil figura de Almada Negreiros é a recordação de hoje de Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”. É o Teatro no Bancada Directa

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A versátil figura de Almada Negreiros é a recordação de hoje de Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”. É o Teatro no Bancada Directa

In memoriam
Almada Negreiros, de seu nome completo, José Sobral de Almada Negreiros, nasceu em Trindade, Ilha de  São Tomé e Principe em 7 de Abril de 1893 e faleceu em Lisboa em 16 de Junho de 1970.
Foi romancista, pintor de arte, desenhista, dramaturgo, poeta e ensaísta de grande relevo

A versátil figura de Almada Negreiros é a recordação de hoje de Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”. 
É o Teatro no Bancada Directa 

“No Palco da Saudade” 
 Texto inédito e integral de Salvador Santos 

ALMADA NEGREIROS 

Pintor, desenhador, vitralista, poeta, romancista, ensaísta, dramaturgo… e TUDO!, ele «foi uma das mais notáveis figuras da cultura portuguesa e uma das que mais decisivamente contribuíram para a criação, prestígio e triunfo de uma mentalidade moderna entre nós». É assim que Jorge de Sena se refere, no primeiro volume das “Líricas Portuguesas”, a este homem que, com Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, mais marcou plástica e literáriamente a evolução da cultura contemporânea portuguesa. 

Nos domínios das artes de palco, por exemplo, o seu nome ficou marcado pela escrita das peças “Antes de Começar” e “Deseja-se Mulher”, pela encenação do “Auto da Alma” e pela concepção de cenografias e figurinos para diversos espectáculos. Separado de pai e mãe com pouco mais de dois anos, Almada Negreiros deixou a ilha de São Tomé, onde nasceu, e veio viver aos sete anos com o irmão para Portugal, em casa dos avós e tios maternos, até ingressar como aluno interno num Colégio Jesuíta, em Lisboa. 
Os jesuítas detectam-lhe a habilidade para o desenho, atribuindo-lhe um quarto particular e dispensa-o de algumas aulas de estudo. No quarto, ele desenha, lê, ocupa-se dos brinquedos mecânicos que o pai lhe envia de Paris (para onde foi viver depois da morte da mulher) e começa a pintar. Apesar do tratamento de excepção, o jovem será sempre vigiado. E é assim, falho da intimidade e do amor dos pais, que se habitua no colégio a não ter privacidade, descobrindo-se como um talento nato. 

Quando saiu do internato jesuíta, Almada Negreiros conheceu a liberdade num Liceu em Coimbra. Mas foi sol de pouca dura. Algum tempo depois, para seu descontentamento, voltou a ser aluno interno de uma Escola de Lisboa. Um dia, porém, comunicou aos tios que se ia embora. Levou consigo o irmão e ambos viveram da herança da mãe até onde chegou. Autodidata e voluntarista, Almada Negreiros havia começado, entretanto, a expor e já conseguira reunir um conjunto considerável de encomendas
 E em 1913, realiza a sua primeira exposição individual, onde apresenta, entre outros trabalhos, “Judith”, uma cabeça de mulher de cabelo curto e riso pândego de boca aberta, e participa ainda no 1º. Salão do Grupo dos Humoristas Portugueses. No período que medeia entre 1913 e 1920, escreve mais do que desenha. No Orpheu I, saído em Março de 1915, publica “Frisos”. No mesmo ano, vem a lume ainda o “Manifesto Anti-Dantas”, que lhe traz fama de rebelde, inconformista e personalidade original. Nessa altura, em Lisboa é tempo de futurismo e de entusiasmo com as vanguardas, assumindo-se o Chiado como epicentro de vida urbana e artística. 

No café A Brasileira, que se transformou no lugar de refúgio dos dias maus do jovem Almada Negreiros e palco dos seus furores, ele tem a sorte de encontrar espíritos semelhantes entre os da sua geração. Foi aí, aliás, que conheceu Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, de quem ilustrará poemas, e o seu grande companheiro Santa-Rita Pintor. 
Em 1917, Almada Negreiros participa no projecto Portugal Futurista, publicando nesse órgão do Comité Futurista de Lisboa, que cofundara, no mesmo ano, com Santa-Rita Pintor, o “Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX”, que já tinha sido objecto de performance pública, e os textos “Mima Fatáxa” e “Saltimbancos”. Paralelamente desenvolve uma intensa actividade artística, tendo colaborado, com grafismos e criação literária, em várias publicações portuguesas. 

Até que, aos vinte e seis anos, decide correr mundo, começando por realizar estudos de pintura em Paris, onde ficou durante dois anos, aí trabalhando também como bailarino de cabaré, ao mesmo tempo que redige muitos dos textos e grafismos célebres, como o “autorretrato”. Entre 1927 e 1932, Almada Negreiros vive em Madrid. Diferentemente de Paris, a capital espanhola é cidade de acolhimento e de consagração. Em Portugal, o Diário de Lisboa vai dando conta do seu êxito em Espanha. Apesar disso, quando regressa tem dificuldades financeiras que só supera quando consegue encomendas públicas. 
Depois do seu casamento com Sara Afonso executa o primeiro de uma longa série de selos de correio, concebe os frescos da Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, colabora em exposições do Secretariado de Propaganda Nacional, a que se segue vários trabalhos para o Estado Novo que lhe valem a desconfiança de muitos artistas e intelectuais. Mas só a Arte parecia importar-lhe. E a sua, ele espalhou-a depois por quase toda a Europa. 

Em maio de 1969, Portugal reunia-se em volta da televisão para assistir à estreia de um novo e moderno programa, o “Zip-Zip”. Para a primeira sessão, foi convidado Almada Negreiros, que se estreava na caixinha mágica. Nos seus treze anos de existência, a RTP não tinha ainda chamado a si o artista que, não sendo conhecido do grande público, era uma figura mítica num círculo alargado de pessoas. No final da entrevista, foi ovacionado de pé. 
Os portugueses, descobrindo Almada, descobriam-se a si próprios. No final da entrevista, um taxista disse esta frase singular: «Não sabia que havia pessoas tão importantes em Portugal». Na verdade, este homem que nos legou, entre outras obras, o poema “O Menino d’Olhos de Gigante”, o romance “Nome de Guerra” e os frescos da Gare Marítima de Alcântara, foi mesmo muito importante! 

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2013. Dezembro. 03

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