BANCADA DIRECTA: “Tempicos e os pastelinhos de nata". O Detective Tempicos volta a atacar. Bancada Directa apresenta aos seus leitores uma nova série de aventuras deste famoso ex-inspector, muito especialista em tudo, menos descobrir crimes. Os outros que o façam nesta novela colectiva. Nós fazemos-lhe a vontade. Hoje temos o Episódio nº 1 da autoria da Detective Jeremias (Santarém)

sábado, 9 de novembro de 2013

“Tempicos e os pastelinhos de nata". O Detective Tempicos volta a atacar. Bancada Directa apresenta aos seus leitores uma nova série de aventuras deste famoso ex-inspector, muito especialista em tudo, menos descobrir crimes. Os outros que o façam nesta novela colectiva. Nós fazemos-lhe a vontade. Hoje temos o Episódio nº 1 da autoria da Detective Jeremias (Santarém)

“Tempicos e os pastelinhos de nata". 
O Detective Tempicos volta a atacar. 
Bancada Directa apresenta aos seus leitores uma nova série de aventuras deste famoso ex-inspector, muito especialista em tudo, menos descobrir crimes. 
Os outros que o façam nesta novela colectiva. 
Nós fazemos-lhe a vontade. 
Hoje temos o Episódio nº 1 da autoria da Detective Jeremias (Santarém) 

EPISÓDIO UM - QUANTAS NOITES TEM A MADRUGADA 

(título inspirado numa obra do escritor angolano Ondjaki, vencedor do Prémio José Saramago 2013) 



Tempicos abriu a custo os olhos ramelosos, numa luta terrível contra o peso das pálpebras que teimavam em ficar coladas. O quarto sufocava com o já insuportável calor matinal e com o fedor retardado das beatas empilhadas periclitantemente no velho cinzeiro de cerâmica, oferta publicitária da Cinzano. 

A memória da noite anterior desenhou-lhe um princípio de sorriso na cara, depois, confuso, viu-se sozinho na cama, e … completamente vestido, com camisola sem mangas e as calças de ganga, o mesmíssimo traje da véspera, mais amarrotado e transpirado. “Como é possível?” Interrogou-se em surdina, inquieto. Seria a noite de sexo escaldante fruto da sua imaginação sem limites? 


Fez um esforço de memória, mas as suas recordações tinham-se apagado no preciso momento em que desligara a luz. Já mais desperto, esquadrinhou em redor. Em vão. Nem um só sinal da presença da menina Arlete, nem chávenas de chá, nem peças de roupa deixadas por esquecimento, nem sequer o mais leve desalinho na roupa da cama. Apenas duas notas dissonantes: o cinzeiro por limpar e, caído no tapete, o caderno de capa preta das memórias, onde a letrinha miúda de Tempicos registava lado a lado a realidade e a fantasia da negra Kuvu. 

Tempicos memoriava em letra miudinha num caderno comprado nos chineses da Almirante Reis numa sincronia mentalmente perfeita a fantasia e a realidade da negra KUVU

Acalentou a esperança de que a menina Arlete, com a sua obsessão por arrumações e limpezas, tivesse deixado quase tudo impecável antes de retomar o serviço e que ele, esgotado pela inusitada actividade nocturna, estivesse KO quando ela o vestira com carinho. No entanto a dúvida sobre a noite, sonho ou realidade, mantinha-se Tempicos levantou-se e apressou-se com a higiene matinal. 

Na Pensão Kumbala o pequeno-almoço era servido até às 9 e 30 (como nos hotéis internacionais afirmava sem direito a réplica a proprietária Fatinha) e se no antigamente Tempicos pequeno- almoçava quando muito bem entendia, com o advento dos comprimidos azuis falsificados, Fatinha pusera um ponto final nos pastelinhos de nata e nas benesses do ex-inspector. 

Nos belos tempos em que Tempicos e Fatinha se banqueteavam com pastelinhos de nata, o cházinho era sempre servido em chávenas de loiça Vista Alegre, um gosto e um atributo da dona da pensão para cativar a clientela

Lavadinho de fresco, revigorado com o duche de água fria, (a única água corrente desde a avaria, há meses, da caldeira), 
Tempicos precipitou-se até à sala de refeições, ansioso por um sinal de Arlete, um olhar carregado de cumplicidade ou um piscar de olho, que fosse a confirmação inequívoca da noite escaldante. Ao contrário dos últimos meses, a sala de jantar fervilhava de actividade. 

A menina Arlete, afogueada, não tinha mãos a medir, desdobrava-se entre a cafeteira de café de saco, os bules de chás diversos e os jarros de leite baptizado com água da torneira para chegar para os hóspedes que tinham invadido a pensão. 
Eduardo canalizador, o novíssimo amante de Fatinha e substituto de Tempicos, dava-se ares de patrão e encostado a um aparador de loiça, emborcava uma mini com um arroto final. “Palhaço!” rosnou Tempicos em resposta ao olhar sobranceiro do outro. (do texto)


A Dona Fatinha, atarefada, com um sorriso de orelha a orelha, antecipando a entrada de dinheiro em caixa, ia distribuindo simpatias, guardanapos fininhos de papel e tostas miniaturas, que os tempos não estão para luxos. Eduardo canalizador, o novíssimo amante de Fatinha e substituto de Tempicos, dava-se ares de patrão e encostado a um aparador de loiça, emborcava uma mini com um arroto final. “Palhaço!” rosnou Tempicos em resposta ao olhar sobranceiro do outro. Ouvindo aqui e ali, o ex-inspector lá conseguiu perceber o que se tinha passado para tamanha enchente. Fica aqui o resumo. 

Depois de uma noite em claro, nas celebrações da noite de Santo António, Dona Fatinha, sempre com o coração orientado para o negócio e respectivo lucro, entediada pela sonolência de Eduardo e animada pela sangria fresquinha, engendrara um plano de recuperação empresarial: gestão de proximidade. Às 7 da matina, em Alfama, com voz rouca e sensual, desatou a perguntar aos que passavam, quem precisava de um quartinho a preços de crise, com oferta de pequeno-almoço. 
Duarte um pintarolas de ocupação não identificada e que escrevera na ficha de hóspedes “Porfiçional de Artes”. Por fim veio a saber-se que era mestre em pinturas de arte como esta


Recusou estrangeiros, não por xenofobia, mas por não entender patavina do que diziam, e passadas pouco mais de 2 horas tinha a pensão com a lotação esgotada. A saber, ficaram como hóspedes de curta, média e longa permanência o Dr. Aurélio, curiosamente o médico de Tempicos, o taxista Ruca da Bica, um bailarino do Parque Mayer desempregado com recursos financeiros de origem desconhecida, mas cujo nome o inspector não conseguiu perceber, e por fim, Duarte um pintarolas de ocupação não identificada e que escrevera na ficha de hóspedes “Porfiçional de Artes”. 

Tempicos não precisou de muito tempo para ficar a par da nova situação, mas quanto à menina Arlete nem um vislumbre sobre os acontecimentos da noite. “Pensa Tempicos, pensa! Aconteceu ou não?” Por um lado julgava ser impossível ser tudo produto da sua imaginação. Lembrava-se com detalhe da promessa de compra da lingerie vermelha, mas por outro lado a sua cabeça estava preenchida de buracos sem nada. 
Lisboa. Avenida Almirante Reis, perto da Cervejaria Portugália, um lugar de recolhimento do Detective Tempicos. A pensão Kumbala situava-se muito pertinho deste local


Perdido nestas questões nebulosas, Tempicos nem se apercebeu que ficara sozinho na sala, a bebericar um café que uma mão deslizante lhe pusera em frente. Quando pousava a pequena chávena Vista Alegre em cima do pires desirmanado, reparou num papel fininho azul pálido que espeitava sob o pires. Era uma bandeirinha de manjerico com uma quadra popular. Intrigado, pôs 

Gosto de ti porque gosto, 

Gosto de ti porque sim, 
Gosto de ti porque aposto, 
Que também gostas de mim. 


O coração aterosclerótico de Tempicos bateu mais apressado. Seria da menina Arlete? Mas… a Dona Fatinha é que andara pelos Santos Populares, estaria ela a ficar saturada da boçalidade do canalizador…. As cogitações surgiam em catapulta alucinada, Arlete, Fatinha… 

Salvadorinho era um excelente bailarino, made in Parque Mayer, mas seus recursos financeiros eram duvidosos. Falava-se num passe de slow no BPN


Mas um guincho terrível inumano ecoou pela Pensão Kumbala, ou melhor pela Almirante Reis fora. Tempicos nem reconheceu a voz da Arlete, mas o seu passado na PJ veio ao de cima, empurrou de rompante a cadeira de palhinha modernizada com assento de estofo, tropeçou nos atacadores mal atados e correu em passo pequeno até à entrada. 

O que viu ficaria registado para sempre: Arlete, de olhos esbugalhados, arrepanhava o pano de limpeza amarelo junto à boca escancarada, e com o braço direito estendido apontava para um corpo caído de borco sobre os primeiros degraus da escada que levava ao piso superior. 

Vamos a ver qual será a importancia na novela desta lança africana. Seria uma recordação viva de Tempicos na sua campanha bélica em Nambuangongo?

Nas costas da camisa clara alastrava-se uma mancha vermelho sangue. No centro da mancha erguia-se em riste uma lança africana


A autora deste episódio

Policiarista. Campeã Nacional de Policiarismo . 2011
Vencedora da Taça de Portugal




Sem comentários:

Obrigado Pela Sua Visita !