BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade” e hoje recorda Mario Alberto

terça-feira, 19 de novembro de 2013

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade” e hoje recorda Mario Alberto

O Teatro no Bancada Directa. 
Salvador Santos apresenta a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade” e hoje recorda Mario Alberto 

“No Palco da Saudade” 

Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

MÁRIO ALBERTO 
Ele foi o último morador do Parque Mayer a abandonar a sua casa, mas fê-lo apenas depois de vencido pela doença e após várias e enérgicas recusas em fazê-lo quando confrontado com tentativas compulsivas ditadas pelos poderes municipais. O seu coração estava na pequena broadway portuguesa e no teatro de revista, onde cabiam inteira toda a Lisboa que ele aprendeu a amar de paixão depois de ter vivido nas mais belas cidades. 
Sá da Bandeira. Angola. Terra de naturalidade de Mário Alberto

Nasceu em Angola, em Sá da Bandeira (atual Lubango), onde ficou até aos quatro anos. Veio depois para Elvas e anos mais tarde, após o divórcio dos pais, foi para Coimbra, onde passou a adolescência. E só então conheceu Lisboa e duas outras cidades que amou e onde viveu em curtas mas inesquecíveis temporadas: Paris e Porto. 

Foi na cidade do Mondego que Mário Alberto descobriu o teatro. Durante a semana trabalhava de dia numa fábrica de cerâmica e à noite frequentava o ensino industrial, mas os sábados e os domingos eram passados a conceber, a carvão, nas paredes das ruas mais movimentadas, cartazes promocionais dos espetáculos de teatro de cordel produzidos por um grupo amador ou a caracterizar os seus atores com lápis, batom e rolhas de cortiça queimada. 


A sua paixão pela arte de Talma intensificou-se quando assistiu às primeiras peças do TEUC (Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra), nos gloriosos tempos de Paulo Quintela e Manuel Deniz Jacinto, experiência que o marcou profundamente e «onde aprendeu a ver e a perceber Gil Vicente». A morte do pai provocou um considerável agravamento das condições financeiras da família, que já eram antes muito criticas, levando Mário Alberto para Lisboa. 

Então com dezassete anos, empregou-se num escritório. Mas a sua fixação pelo teatro falou mais alto e pouco tempo depois fazia figuração no espetáculo “A Casta Susana” no desaparecido Teatro Avenida, onde deu também alguma colaboração na construção do cenário. O emprego de escriturário ficaria definitivamente para trás, em favor de inúmeros pequenos trabalhos de ator e de assistência à montagem de cenografias, até que se dedicou principalmente à caricatura. 

E foi através do desenho que ele conheceu o cenógrafo e figurinista Pinto de Campos, o seu primeiro mentor. Mário Alberto nunca negou a importância da presença de Pinto de Campos na sua vida profissional, chegando a considerar-se, de certo modo, um discípulo daquele grande artista plástico da revista à portuguesa: «Foi com ele que aprendemos todos. Era Genial». Seguiu-se a colaboração com os irmãos Hernâni e Rui Martins, dois grandes mestres com quem trabalhou na concretização da montagem de inúmeras revistas e deu continuidade à sua aprendizagem. 

Mário Alberto com o escritor Luís Pacheco

Até que, em 1949, foi convidado a conceber a cenografia para alguns espetáculos d' Os Companheiros do Pátio das Comédias, companhia encabeçada por ilustres figuras como Jorge de Sena, António Pedro e Luiz Francisco Rebello, que ocupou durante várias temporadas o extinto Teatro Apolo. A sua formação enquanto artista plástico foi marcada, em 1957, por uma breve estada em Paris – possibilitada pela ajuda financeira de Beatriz Costa, com quem esteve para casar – onde estudou pintura na prestigiada Academia La Grande Chaumière. 

Na cidade luz teve por mestres Yves Brayer e Henri Goetz, conviveu com Vieira da Silva e Arpad Szènes e expôs o seu trabalho na galeria de Raymond Duncan. Contudo, Mário Alberto, que como pintor teve sempre um traço muito distintivo – um seu quadro não pode ser efetivamente de mais ninguém! –, dividindo-se entre a pintura abstrata, a pop art e o surrealismo, declinou uma carreira no mundo da pintura e, ao regressar a Lisboa, regressou também ao teatro, embora nunca tivesse deixado propriamente de pintar. 



Actividade nos dias de hoje do TEUC (Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra). Mario Alberto deu a sua colaboração a este grupo de teatro

Durante mais de quatro décadas, Mário Alberto colaborou na criação de centenas de revistas, realizando também cenários e figurinos para alguns grupos de teatro universitário, como o TEUC, o CITAC (Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra) e o Grupo Cénico de Direito, bem como para o Teatro Experimental do Porto, entre outras companhias profissionais como o Grupo de Teatro A Barraca, do qual foi um dos membros fundadores. 

Ainda antes do 25 de abril, encabeçou – juntamente com Francisco Nicholson e Gonçalves Preto, entre outros – um notável esforço de revitalização do teatro de revista, com espetáculos inovadores e de grande êxito como “O Fim da Macacada”, “P’ró Menino e P’rá Menina” e “Tudo a Nu”. Homem de esquerda com firmes convicções políticas e dotado de um espírito crítico muito forte e franco, Mário Alberto era «um militante do prazer, um homem generoso, heterossexual praticante, antifascista visceral, rabulista imparável, bebedor consistente, anarco-surrealista». 

Beatriz Costa. Foi uma grande amiga do cenógrafo Mario Alberto

É preciso, no entanto, acrescentar que ele era um génio, um sarcasta, um amante da noite… o último boémio de Lisboa! Na verdade, não há outro assim. Com ele acabou uma certa Lisboa. Mário Alberto seguia um princípio: se os inimigos não tinham defeitos, inventava-os. Ele próprio admitia que gostava de ter amigos e… inimigos. 

Ao mesmo tempo – e isso é consensual entre todos os seus camaradas – era «o melhor amigo do mundo». Deixou muitas saudades, mas também deixou a certeza d

e que não viveu em vão. Ele foi uma verdadeira pedrada no charco! 

Salvador Santos

Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2013. Novembro. 18

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