BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. O musico Frederico Valério é a recordação de hoje de Salvador Santos na sua rubrica "No Palco da Saudade".

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O Teatro no Bancada Directa. O musico Frederico Valério é a recordação de hoje de Salvador Santos na sua rubrica "No Palco da Saudade".


In memoriam

Frederico Valério nasceu em Lisboa em 11 de Junho de 1913 e faleceu nesta mesma cidade em 12 de Maio de 1982

Foi um compositor português de grande prestigio

O Teatro no Bancada Directa. 
O maestro Frederico Valério é a recordação de hoje de Salvador Santos na sua rubrica "No Palco da Saudade"

"No Palco da Saudade"
Texto inédito e integral de Salvador Santos

FREDERICO VALÉRIO 

Inspirado e perfeccionista, ele foi um dos maiores compositores de música ligeira portuguesa de sempre. Filho de um modesto marceneiro alfacinha, interessou-se vivamente pela música aos treze anos de idade, iniciando a partir desse momento a sua aprendizagem na Academia de Amadores de Música enquanto concluía o antigo Curso Geral do Comércio. Fora essa, aliás, a condição imposta por seu pai para permitir que se matriculasse depois no curso de piano do Conservatório Nacional de Lisboa, como era seu desejo. 

No Conservatório a sua notoriedade revelou-se muito cedo através das composições que criava e pelo talento natural de homem nascido para a música, não chegando a terminar o curso devido ao seu ingresso repentino no mundo do espectáculo. Com apenas vinte anos de idade, decorria então o ano de 1934, Frederico Valério estreou-se no teatro musicado com “A Pérola da China”, tendo composto no ano seguinte o seu primeiro grande sucesso para a revista “Milho Rei”, a canção popular As Carvoeiras criada pela inesquecível actriz Maria das Neves, que durante muitos anos andou de boca em boca. 
A este êxito popular seguiram-se outras composições que fizeram história nos palcos do teatro de revista, mas foi após o seu primeiro contacto com Amália Rodrigues, na revista “Essa é Que é Essa”, em 1942, que a sua veia de compositor despontaria para as suas maiores criações que marcaram a história da música ligeira portuguesa e conquistaram os mais exigentes palcos internacionais. A primeira vez que Frederico Valério saiu de Portugal foi a convite de Amália Rodrigues como director de orquestra de uma das frequentes deslocações da nossa Diva do Fado ao Rio de Janeiro. 

E foi aí, na cidade maravilhosa, que ele compôs a música para o fado “Ai, Mouraria”, com letra de Amadeu do Vale, uma das grandes referências do repertório de Amália, que lhe prestou sempre os maiores elogios: «A existência do Frederico Valério, quando eu estava a começar a cantar, foi formidável. Tinha um tipo de melodia que era para a minha voz. Conhecia muito bem a minha voz e escrevia para mim, para toda a gama da minha voz… Nos fados do Valério a melodia está lá toda, nem que se faça uma voltinha pequena, não se nota, a orquestra segue na mesma». 

No regresso do Rio de Janeiro, Frederico Valério compôs a música da opereta “Rosa Cantadeira”, um êxito sem precedentes que juntou no mesmo palco Amália Rodrigues e Hermínia Silva, e fez depois a banda sonora do filme “Capas Negras” – outro grande sucesso –, ao mesmo tempo que foi criando temas inesquecíveis. Quem não se lembra dos fados “Malhoa”, “Severa”, “Madragoa”, “Sabe-se Lá”, e tantos outros? Por essa altura, em finais de 1948, um empresário norte-americano leva-o para os Estados Unidos, onde a sua canção “Don’t Say Goodbye” atinge rapidamente o primeiro lugar no Hit Parade. 

E, dois anos depois, é convidado para musicar a opereta “On With the Schaw”, no carismático Teatro Marke Hellinger, na Broadway. A música de Frederico Valério espalha-se pelo Mundo inteiro, com gravações na Bélgica, Brasil, Espanha, Estados Unidos, França e Inglaterra. A versão inglesa de “Ai Mouraria” (Star of the Night), foi gravada por Vic Damone e Eddie Fisher, entre muitos outros. 
Maria Candido, uma cantora francesa nascida em 1922, de seu verdadeiro nome Simone Marius, grava “Les Cloches de Lisbonne” (versão do “Fado da Madragoa” imortalizado por Amália) e o tema obtém um grande sucesso em França, sendo depois regravado – como era habitual na época – por muitos artistas de renome, como Tino Rossi, Luis Mariano, Gloria Lasso, Bob Azzam, Francisco Grandey ou Pierre Carré. Entretanto, a Broadway contrata-o de novo para mais um musical: “Hit the Trail”. 

Apesar do seu enorme sucesso internacional, que o permitiria viver para sempre apenas dos direitos de autor se quisesse, Frederico Valério nunca deixou de trabalhar em Portugal, compondo para cinema e para teatro, bem como para as vozes portuguesas que mais admirava. 
Entre os filmes em que colaborou é inevitável que se recorde “Aqui Portugal”, “Fado, História de uma Cantadeira” e “Madragoa”. No teatro musicou, por exemplo, a reaparição de Beatriz Costa na revista “Ela Aí Está” e inaugurou o Teatro Monumental regendo a orquestra na opereta de Strauss “As Três Valsas”. 

Mais tarde surpreendeu a sua sobrinha Maria José Valério com a canção “Folha de Hera” e compôs um dos últimos grandes êxitos de Simone de Oliveira: “Esta Lisboa Que Eu Amo”. “Confesso” foi outro tema de Frederico Valério que alcançou considerável sucesso, acabando por ser gravado por Maria Bethânia no álbum Memória da Pele, de 1989, depois de cantado por Caetano Veloso e outras grandes vozes da música popular brasileira. 

Antiga Marcha de Carnaval de Loulé. Frederico Valério está no centro da foto e foi o autor da musica dessa marcha

Mas não se ficam por aqui os temas do compositor que ainda hoje constituem o repertório das mais prestigiadas vozes, muitos deles criados para os palcos de revista em espectáculos como “Anima-te, Zé!”, “Chuva de Mulheres”, “Cigarro Forte” ou “Rua da Paz”, que animaram o Parque Mayer na década de 1940. Nessa altura Frederico Valério enamorou-se da jovem actriz Laura Alves, mas as voltas da vida não permitiram o romance. 

Quis o destino que quarenta anos depois recuperasse esse seu amor, casando com a actriz em 18 de Julho de 1979. Três anos depois, a sua morte interrompia tudo. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2013. Novembro. 26

Sem comentários:

Obrigado Pela Sua Visita !