BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Na sua rubrica semanal “No Palco da Saudade” Salvador Santos recorda hoje o versátil actor Camacho Costa

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O Teatro no Bancada Directa. Na sua rubrica semanal “No Palco da Saudade” Salvador Santos recorda hoje o versátil actor Camacho Costa

In memoriam
Camacho Costa, de seu nome completo José Manuel Militão Camacho Costa nasceu em Odemira em 8 de Junho de 1946 e faleceu em Lisboa em 1 de Março de 2003. 
Tinha 57 anos.
Foi um actor português

O Teatro no Bancada Directa. 
Na sua rubrica semanal “No Palco da Saudade” Salvador Santos recorda hoje o versátil actor Camacho Costa 

“No Palco da Saudade” 

Texto inédito e integral de Salvador Santos 
CAMACHO COSTA 

Alentejano de Odemira, onde nasceu numa radiosa manhã de junho de 1946, ele teve a concretização da sua paixão de menino pelo cinema e pelas artes performativas dificultada pela distância da capital, pela falta de oportunidades na sua terra e pela exigência familiar de uma licenciatura com futuro (para os pais, essas coisas do espetáculo não davam «comer a ninguém»). 


A Filologia Românica foi então a sua escolha após a conclusão dos liceus, mas acabou por desistir no terceiro ano de faculdade. Como consequência, foi chamado a cumprir o serviço militar. No regresso à vida civil optou por dar aulas, por ser a única coisa que se sentia capaz de fazer. E foi como professor de História num Liceu de Lisboa que a Revolução de Abril o encontrou. 

Paralelamente à sua atividade como docente, Camacho Costa foi crítico de cinema e jornalista, primeiro por sugestão do seu amigo Lauro António no vespertino Diário de Lisboa, depois a convite de Luís de Sttau Monteiro no suplemento A Mosca daquele mesmo jornal e de seguida por iniciativa de Raul Rego no jornal República. 

Mas não se ficou por aqui a sua colaboração na imprensa, tendo-se desdobrado depois na escrita de crónicas, criticas e artigos de opinião para outros prestigiados órgãos de comunicação social, como a revista Vida Mundial, os semanários Expresso, Jornal do Fundão e Jornal Novo, e o vespertino Diário Popular, mantendo no entanto sempre viva e em ebulição a chama do sonho da representação que o perseguia em tudo o que fazia. Camacho Costa dava aulas na Escola António Arroio, em Lisboa, quando o seu amigo Artur Semedo lhe perguntou se ele ainda queria ser ator. 

Filmografia de Camacho Costa. "Bolero", uma curta metragem com José Raposo e Madalena Leal no elenco. 1998.  No Teatro Villaret "Bolero" a peça foi levada à cena com Camacho Costa, José Raposo e Rui Paulo

E alguns dias depois lá estava a ele, no Teatro Adoque, a ensaiar a revista “1926, Noves Fora Nada”. Foi o começo de tudo para o ator adiado que havia no professor exigente e rigoroso no uso da língua portuguesa, que ele defendeu e promoveu como poucos em tertúlias literárias e sessões de poesia. Houve quem estranhasse, por isso, a sua adesão à revista à portuguesa, tida como literariamente pobre pelos grandes literatos. 


O que ele sempre contestou vivamente, afirmando por diversas vezes que o teatro de revista é um género de uma nobreza absoluta que devia ser obrigatório no currículo de todos os atores. O percurso de Camacho Costa no teatro de revista estendeu-se naturalmente ao Parque Mayer, onde participou em mais de vinte produções, entre as quais se destacam “Lisboa, Tejo e Tudo”, “Ai Cavaquinho”, “Lisboa, Meu Amor”, “De Pernas P’ró Ar” e “Há Festa no Parque”, onde teve oportunidade de conhecer e trabalhar com aquele que viria a ser um dos seus maiores amigos e admiradores, José Viana. 

Na sitcom "Malucos do Riso", Camacho Costa interpretou o papel do merceeiro André, aqui contracenando com Almeno Gonçalves. Naquela loja tudo se vendia importado da Tailandia

Foi, aliás, este quem mais o motivou a explorar outros géneros teatrais e a representar grandes textos, o que acabaria por acontecer frequentes vezes, designadamente com os encenadores José Carretas (“Bolero”, um texto do próprio encenador), Jorge Silva Melo (“Os Irmãos Geboers” de Arne Sierens) e Solveig Nordlund (“Sonho de Outono” de Jon Fosse). Também o cinema nacional beneficiou do talento de Camacho Costa. 

O primeiro filme em que participou teve como realizador Lauro António (“Manhã Submersa”), que o considerava um grande nome da nossa comédia, «um cómico na tradição nacional que enraíza nos valores nacionais, como o António Silva, Vasco Santana ou Beatriz Costa em Portugal, o Totó em Itália, o Cantiflas no México ou o Fernandel em França». 


Este sentimento pelo ator foi reconhecido por outros grandes cineastas portugueses com quem trabalhou, como Francisco Manso (“O Testamento do Senhor Nepumoceno”), António Pedro Vasconcelos (“Oxalá”), Artur Semedo (“O Barão de Altamira”), Eduardo Geada (“Santa Aliança”) ou Rosa Coutinho Cabral (“Cães Sem Coleira”). 
Ainda na sitcom "Malucos do Riso" Camacho Costa deu vida a uma figura que se tornou muito popular: a do cigano Lelo da Purificação.


Mas foi na televisão que Camacho Costa melhor soube evidenciar o seu enorme talento de comediante, depois de fugazes presenças em algumas telenovelas. No programa “SIC 10 Horas” criou 14 personagens impagáveis que ainda hoje vivem na memória dos telespectadores, como foi o caso do Barbeiro Almeida (um barbeiro dos políticos), do Virgílio Serôdio (artista de variedades e apresentador da Rádio Brados de Alcochete), da Maria dos Prazeres (uma enfermeira tresloucada) ou da Cici Bucelas (uma divertida cronista social que brinca com as tias). 


Antes já o ator havia deliciado as plateias familiares com divertidos bonecos desenhados para a série televisiva “Malucos do Riso”, como foi o caso do cigano Lelo, do merceeiro André e do alentejano Cacildo. Em 2002, na noite de Santo António, que ele idolatrava ao ponto de possuir uma enorme coleção de imagens do santo casamenteiro, quando desfilava na avenida da Liberdade como padrinho de uma das marchas de Lisboa, Camacho Costa sentiu-se indisposto e foi levado de urgência ao Hospital de São José. 
O seu pulmão direito tinha sido atingido por um cancro, que o obrigaria a violentos tratamentos de quimioterapia e outros. Mas o ator nunca quis parar. A operadora de televisão SIC instalou-o num hotel do Estoril, onde ele estudou o seu papel do programa de humor “Não Há Pai”, realizado ao vivo, ao mesmo tempo que ia trabalhando num talk-show, onde pensou entrevistar Herberto Hélder, Gonçalo Ribeiro Teles e Mário Alberto, um dos últimos surrealistas portugueses. 

Nunca conseguiu concretizar este seu sonho. A morte chegou primeiro. 


Salvador Santos 

Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2013. Novembro. 11

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