BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Fernanda Batista é a recordação de hoje do nosso Salvador Santos na sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O Teatro no Bancada Directa. Fernanda Batista é a recordação de hoje do nosso Salvador Santos na sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”.

In memoriam
Fernanda Batista nasceu em Lisboa em 7 de Maio de 1919 e faleceu no Hospital de Cascais em 25 de Julho de 2008
Foi uma fadista e artista de teatro de notáveis méritos artísticos


O Teatro no Bancada Directa. Fernanda Batista é a recordação de hoje do nosso Salvador Santos na sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”. 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

FERNANDA BAPTISTA 

Vasco Santana, seu vizinho, apelidou-a, quando ela era ainda criança, de O Papagaio das Cantorias, tal era o seu costume de cantarolar pelas ruas do bairro onde morava, o velho Bairro Alto. Com apenas dez anos de idade participa como fadista numa peça de teatro infantil num grupo amador, mas estava ainda muito longe de pensar em enveredar por uma carreira artística. 

Aos dezanove anos, já casada, abraça a profissão de modista num conceituado ateliê da baixa lisboeta. O vício das cantigas não a larga, pelo que começa a encantar colegas e clientes que a convidam a abrilhantar festas particulares em salas modestas e em espaços onde se passeia o luxo e a elegância, sendo recebida e aplaudida em qualquer dos lados como uma vedeta em potência. 

As costureirinhas colegas da jovem Fernanda Baptista decidem inscrevê-la à sua revelia num concurso de cantigas organizado pelo extinto jornal Canção do Sul, cujas eliminatórias decorrem em dois dos mais importantes recintos de fado, o Retiro dos Marialvas e o Café Latino. O seu estilo genuíno de cantadeira é muito apreciado pelos críticos de fado, chegando um deles a considerá-la «um dos valores mais sólidos da moderna geração». 

Quem não perde tempo é o conhecido empresário teatral José Miguel, então proprietário de vários lugares noturnos, que a contrata como fadista residente do Retiro dos Marialvas. Dali até à sua estreia no mítico Café Luso medeia apenas um ano, de onde transita poucos meses depois para o teatro de revista. 

Foram os empresários Rosa Mateus e Lourenço Rodrigues que perceberam o lado revisteiro de Fernanda Baptista, juntando-a ao elenco do Teatro Maria Vitória que representava “Banhos de Sol”, onde sobressaía a vedeta Luísa Satanela, para cantar o tema “Ronda Fadista”. 

A este fado, que andou na boca do povo nos idos de 1946, seguiram-se outros que tiveram o mesmo sucesso, como foi o caso de “Trapeiras de Lisboa” na revista “Canções Unidas” ou “O Fado da Carta” na revista “Tico Tico”, temas que passaram de geração em geração e ainda hoje integram o repertório de muitos dos nossos fadistas mais tradicionais. E aos poucos o seu nome foi ocupando os cartazes dos teatros do Parque Mayer não só como atração musical, mas também como… atriz. 


Quando o ator Eugénio Salvador decidiu montar empresa no Teatro Maria Vitória não a dispensou. Bem pelo contrário. Manteve-a no elenco e acrescentou à sua veia fadista de Fernanda Baptista trabalho de atriz, função que ela não rejeitou nem descurou apesar de nunca se assumir como tal. 

A falta de formação na área da representação foi compensada com a sua peculiar comicidade marcadamente popular com que passou a interpretar os excelentes números musicais que afortunadamente foram compostos a pensar no seu inegável talento de fadista. “Saias Curtas”, “Cala o Bico” e “Festa é Festa”, levadas a cena entre 1953 e 1955, foram a sua verdadeira prova de fogo como atriz popular, que soube ultrapassar com enormíssimo sucesso. 

A digressão da revista “Saias Curtas”, no final da década de 1950, a algumas das principais cidades das ex-colónias portuguesas de África abriu caminho a diversas deslocações de Fernanda Baptista para fora de portas, com paragens mais demoradas no Brasil, Argentina, Estados Unidos e Canadá, concretizando ao todo dezoito tournées internacionais. 


As saudades do Parque Mayer foram sendo superadas com esporádicas presenças no teatro de revista, que ia intermediando com espetáculos a solo nos mais longínquos palcos onde a requisitavam, até que a criação do tema “Saudades de Júlia Mendes” na revista “Ena Já Fala”, que foi um sucesso retumbante no Teatro ABC em 1969, obrigou-a a permanecer durante mais tempo na Lisboa que a viu nascer. 



O estrondoso sucesso de Fernanda Baptista com aquele fado, que se tornou para sempre um tema incontornável do seu repertório, levou-a ao programa “Zip-Zip” de Raul Solnado/Carlos Cruz/Fialho Gouveia para falar de si e da sua brilhante carreira de quase 27 anos e que haveria de se prolongar por mais 37. 

É certo que pensou várias vezes em retirar-se definitivamente da vida artística, sobretudo quando atingiu a idade de 70 anos, mas essa ideia acabaria por ficar apenas por pequenos interregnos. Porque a verdade é que a sua potente voz fez-se ouvir por muitos mais anos, para enorme satisfação dos numerosos fãs que a seguiam desde os primeiros discos e ainda se recordavam com nostalgia da sua participação no filme “Sol e Toiros” de 1949. 


Na sequência de umas das suas pausas, Fernanda Baptista voltou aos palcos de revista por duas vezes na década de 1990, primeiro em “Ai Cavaquinho” no Teatro Capitólio e depois em “Viv’ó Velho” no Teatro Variedades. E ainda antes da transição do século, o Teatro Municipal São Luiz promoveu-lhe uma homenagem pelos seus 50 anos de carreira, numa festa que juntou muitos colegas e amigos do Fado e do teatro de revista. 

Mas não se pense que isso representou um adeus definitivo aos palcos. Quando completou 87 anos, em maio de 2006, pudemos vê-la no musical “A Canção de Lisboa”, que Filipe La Féria montou no Teatro Politeama e que já antes a tinha contratado para as séries televisivas “Grande Noite” e “Cabaret”. Desde aí perdemos-lhe o rasto. E dois anos depois, a 25 de julho de 2008, recebemos a notícia da sua morte. 

Salvador Santos

Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2013.  Novembro. 05

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