BANCADA DIRECTA: O Detective Tempicos volta a atacar. Bancada Directa inicia hoje una nova série de aventuras deste famoso ex-inspector, muito especialista em tudo, menos descobrir crimes. Os outros que o façam nesta novela colectiva. Nós fazemos-lhe a vontade. Episódio zero. "Tempicos e os pastelinhos de nata".

sábado, 2 de novembro de 2013

O Detective Tempicos volta a atacar. Bancada Directa inicia hoje una nova série de aventuras deste famoso ex-inspector, muito especialista em tudo, menos descobrir crimes. Os outros que o façam nesta novela colectiva. Nós fazemos-lhe a vontade. Episódio zero. "Tempicos e os pastelinhos de nata".



O Detective Tempicos volta a atacar. 
Bancada Directa inicia hoje una nova série de aventuras deste famoso ex-inspector, muito especialista em tudo, menos descobrir crimes. 
Os outros que o façam nesta novela colectiva. 
Nós fazemos-lhe a vontade. 
Episódio zero. "Tempicos e os pastelinhos de nata". 
Autor: Tempicos, um vosso criado quase para todo o serviço.

TEMPICOS E OS PASTELINHOS DE NATA (conto moralista, sequela de um conto policial) 




Na Pensão Kumbala (Av. Almirante Reis- Lisboa) já se viveram melhores dias. A crise tinha chegado à indústria hoteleira. Dos hóspedes só havia Tempicos e um ou outro casal que pagava o quarto, estava lá umas horas e partia sorridente. 

O pior de tudo é que Tempicos –em relação à dona da pensão – a Dona Fatinha já não estava a cumprir os mínimos. 


O pratinho de pastelinhos de nata que costumava aparecer no final da refeição como “senha” para uma visitinha noturna para espreitarem o luar, estavam a escassear e a culpa disso cai toda em Tempicos. 

A culpa teria que ser repartida pelo fabricante dos comprimidos azuis que adquirira no Martim Moniz num bazar indiano, estavam completamente falsificados. 
Apesar da crise Tempicos ainda conseguia dar vida às suas veleidades amorosas. E o pastelinho de nata era o leit motiv para se encontar à noite com a dona da pensão. Mas foi sol de pouca dura. Inevitavelmente foi trocado por outro maganão

Pudera – a dois euros a embalagem familiar não seria de admirar. Após a toma – Tempicos seguia a bula – esperava 10 minutos a ver revistas eróticas, retirava os sapatos e descia pé ante pé – em meias – pois já fazia fresquinho à noite, e dirigia-se directamente à porta da patroa da pensão. Com os comprimidos do indiano o efeito começava ao cimo das escadas e acabava no patamar. 

Tempicos costumava dizer entre dentes: maldita indústria farmacêutica internacional, ou rouba no preço ou rouba na dose! Dona Fatinha resolveu o problema – arranjou novo namorado. Eduardo um rapaz de 30 anos, bem-apessoado, canalizador, fora lá à pensão arranjar um autoclismo. Fatinha agarrou a oportunidade. E saía mais barato. 

Claro que os pastelinhos de nata eram mais doces, mas o novo namorado de Fatinha era adepto do Bairro de Alfama, com as suas sardinhas, quartos de pão escuro de 2ª e um carrascão para acompanhar

Não precisava de pastéis de nata. A coisa estava pegada e a Fatinha lá ia à noite, de braço dado, para Alfama, para a sardinha assada, fadunchos e vinho carrascão. Era um óptimo e natural motor de arranque. Naquele dia – de Santo António – lá foram eles para a farra. Na pensão – a tomar conta da casa – ficou a menina Arlete, ajudante de Fatinha, uma “cabritinha” de 18 anos que viera de Africa com a patroa. Tempicos andava a escrever as memórias. 

Coisas passadas na sua vida activa na Judiciária como Inspector. Depois do jantar subia ao seu quarto e recostado na cama a fumar um cigarrito ia escrevendo as memórias que pensava um dia publicar. As dez da noite a menina Arlete trazia ao seu quarto uma chávena de chá de camomila, para entreter a escrita e aliviar a artrite. 


O seu amigo Dr. Aurélio, recomendara-lhe vivamente trocar o whisky pelo chá. Dizia o ilustre médico da Caixa que a vantagem da mudança das bebidas alegrava a líbido e fazia renascer o interesse. Ele próprio tinha feito a opção e não estava nada arrependido. Andava era muito esquecido, mas 80 anos já é obra. Tempicos era mais um a fazer a tentativa mas não era grande adepto até porque resultados não via. Melhor: não sentia. 

Tempicos tinha saudades dos pastelinhos de nata, mas suas perfomances negativas acabaram com esta doçura. O outro queria era sardinhas assadas na brasa

Já passava das 10 quando Arlete bateu à porta e entrou com o chazinho fumegante. -Posso entrar? Tempicos pigarreou e ela entrou toda cheirosa. fora ao perfume da patroa! A magana. Arlete fizera 18 anos e tinha já tudo nos sítios e sobretudo um sorriso que o nosso herói classificava de – no mínimo maroto! 

Entre a ingénua e a sabidona – é isso. Tempicos tinha uma forma cortez de falar com as senhoras – novas ou velhas – bonitas ou feias – era simpático e a sua voz de barítono avinhado ajudava. Transmitia confiança e conforto e uma imensa paz. A menina Arlete – sem o saber – sentia uma forte atracção por ele, não obstante o “gap” de idades. Estava uma noite de calor e o quarto tinha só uma pequena janela que dava para as traseiras e daí que o ar mal circulava. 

 Tempicos vestia uma camisola sem mangas, branca, com um coração vermelho bordado. Já nem se lembrava quem lha tinha dado. Alguma turista de mau gosto. Umas coçadas calças de ganga, completavam a indumentária. Na cama de madeira antiga uma colcha de tecido colorido aos quadrados em diferentes tons e matizes – patchwork – diziam. Um guarda-fatos vagamente “Queen Anne”, em pinho, encolhido contra a parede, um sofá desbotado e num tom verde azeitona. Um candeeiro de teto dava ao ambiente uma luz fraca amarelada. A casa de banho era ao fundo do corredor. 


Tempicos recebeu a chávena de chá e deixou-a a arrefecer na mesinha de cabeceira, ao lado do cinzeiro cheio de piriscas. Como o chá ainda fumegava acabou pedindo à cabritinha: -Menina Arlete, eu só gosto de chá frio. Se quiser eu conto-lhe uma história das que vivi em Africa. Depois poderá levar a chávena para baixo. Não demora muito. Tá bem - sussurrou Arlete ruborizando um pouco apesar da sua tez morena. – Conte lá, porque hoje não tenho muito que fazer. A patroa foi para o bem bom, mais o Eduardo. 


Largo do Martim Moniz em Lisboa. Algures por uma destas lojas de produtos asiáticos Tempicos fornecia-se dos revigorantes para a função, mas como eram falsificados deu em negativas sem jeito nenhum

Tempicos, recostado na cama, retirou um cigarrito do maço e acendeu com o seu velho isqueiro Dupont ( uma oferta de uma simpática amiga inglesa). Atirou ao ar um rolo de fumo e começou o relato. Arlete sentou-se na beira da cama do outro lado. -Pois eu estava na guerra de Africa no norte de Angola em Nabuongongo. 

Aquilo por lá estava feio. Bazucada de dia e de noite. Estávamos praticamente cercados. Combinei com o sargento e como havia no quartel uma mota com “side car” trazida para servir ao Spínola, para os seus passeios no mato, se acaso ele por lá fosse inspecionar as tropas, coisa que nunca chegou a acontecer. Roubámos uns “ jericans” de gasolina e de noite demos o salto na direcção do Congo. Levávamos uma bússola, algumas latas de conserva e um garrafão de vinho branco, pois a água escasseava. Os pneus da moto já estavam carecas e nos trilhos do mato ficaram nas lonas. 

Nambuongongo. Por onde Tempicos viveu a guerra e do facto dava conhecimento à Arlete cabritinha. Imagem real ao tempo da guerra. No topo da elevação à direita vê-se a igreja e à esquerda era a casa do Chefe do Posto transformada em Posto de Comando.


Fomos dar com uma tribo de negros da etnia cuanene que sendo do sul de Angola tinham fugido da guerra. Tinha uma característica esta tribo, era comandada por uma rainha. Como a rainha é que mandava e o pessoal obedecia, aconteceu que ela – uma jovem de fartos seios e larga bunda, nunca tinha tido um branco na cubata para sua distracção. Lá fui para a rede, mais a negra, com risco de queda e forte contusão. Só 

Deus sabe como era forte a negra Kuvu nos seus amplexos sem complexos. Às tantas, com o papinho cheio, a negra adormeceu e eu consegui saltar da rede e fugir pelo mato até ao nascer do sol, cu à mostra, calças e botas na mão. Ala que se faz tarde. Depois de muito calcorrear encontrei uma cabana à beira do caminho que era nem mais nem menos administrada por um casal português há muito radicado no Congo e familiarizados com a população.…. ….como a história de Tempicos parecia não ter fim Arlete deitou-se na cama ao lado de contador de histórias e disse: -Então, vamos aos finalmentes? 

Já tinha ouvido que Tempicos tinha feito imensas tropelias. Mas roubar jericans nunca

Tempicos ficou baralhado. O que seria que Arlete queria dizer? Ao fim da história? Entretanto o cigarro estava já quase no fim e ele rolou para apaga-lo no cinzeiro. Ao rodar o braço de volta e como era canhoto, acabou tombando sobre a coxa da cabritinha. Coxa roliça diga-se. Pediu de imediato desculpa mas tendo encontrado uma cova na perna perguntou-lhe: -A menina tem algum defeito na coxa? Uma prótese? É que faz uma cova! Arlete deu uma risadinha e disse: são as ligas – só isso. Deu uma gargalhada ainda mais forte e com um sorriso maroto ajuntou: - Aqui não há nada de plástico, é tudo original. Só vendo – insistiu Tempicos e riram-se os dois. -Então veja lá. E subiu a saia até à virilha. 

Tempicos embevecido observava a perna leitosa e roliça da Arlete e achou que não precisava das pastilhas azuis coisa nenhuma para, como dizia o seu amigo Dr. Aurélio, despertar a líbido adormecida. Para quê “Ersatz”? Cogitou em língua tedesca. Sabemos como Tempicos é mestre em aproveitar as ocasiões que surgem sem prevenir. 

Logo com a sua voz melosa de cobra que deseja hipnotizar o ratinho, argumentou: - A menina Arlete não deve usar isso. É mau para a circulação e provoca varizes. Amanhã vou à Rua dos Fanqueiros, tenho lá um amigo que me faz um preço jeitoso e não debita IVA. Compro-lhe um cinto de ligas vermelho escarlate e ainda o resto: um soutien e umas cuequinhas. Para fazer “parure”. Levantou-se e foi buscar a fita métrica que tinha na caixa da ferramenta, para tirar as medidas à Arlete. 

Tinha que ser e ela não recusou. Peito, cintura, ancas e nem foi preciso tomar nota: fixou tudo. - Ora, a história que eu estava a contar ficou-se a meio, insistiu Tempicos. Bonita história- afirmou Arlete.- E se eu fosse como a preta e o obrigasse a fazer o que ela fez? Tempicos para criar um clima mais descontraído, apagou a luz. 

Fim do episódio zero

O autor

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