BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta, como habitualmente, a sua rubrica “No Palco da Saudade” e hoje recorda-se Luiz Francisco Rebello

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta, como habitualmente, a sua rubrica “No Palco da Saudade” e hoje recorda-se Luiz Francisco Rebello

In memoriam
Luiz Francisco Rebello nasceu em Lisboa em 10 de Setembro de 1924 e faleceu nesta mesma cidade em  8 de Dezembro de 2011.
Foi um advogado, dramaturgo, critico teatral, historiador de teatro e ensaísta português.

O Teatro no Bancada Directa.
Salvador Santos apresenta, como habitualmente, a sua rubrica “No Palco da Saudade” e hoje recorda-se Luiz Francisco Rebello “

No Palco da Saudade”. 

Texto inédito e integral de Salvador Santos

LUIZ FRANCISCO REBELLO 

Dramaturgo, crítico teatral, ensaísta e historiador de teatro, advogado e especialista de prestígio internacional em matéria de direitos de autor, ele foi um dos fundadores do Teatro-Estúdio do Salitre, grupo experimental criado em meados dos anos 1940 onde se preconizou um teatro que refletisse os novos movimentos que desde o fim do século anterior se afirmavam no resto da Europa. 

Uma década antes havia descoberto precocemente as suas duas grandes paixões, o direito e o teatro, ao escrever a peça em três atos “A Culpa”, cuja temática gira em torno de um processo judicial por roubo. A sua primeira peça a ser representada, em 1946, chama-se “O Mundo Começou às 5,47”, posteriormente considerada como manifestação de um antiteatro lusitano. 

Há quem questione ainda hoje a obra de Luiz Francisco Rebello como dramaturgo, mas a verdade é que o seu nome tem sido associado com frequência a Pirandello, Beckett e Frisch pela recusa de se adaptar aos modelos naturalistas, pela riqueza das tensões metafísicas e existenciais em termos simbólicos e pela afirmação de um eu individual condenado à impotência. Assim como tem sido muitas vezes referenciado com equivalências a Brecht, Camus, Sartre e Freud pela defesa do homem, pelo empenhamento social e pela espessura psicológica das suas personagens, contempladas sempre num relacionamento dialético com a realidade objetiva. 

Estas comparações poderão ser polémicas, mas a importância das suas peças é inegável. Aquela que será a peça mais conhecida de Luiz Francisco Rebello – “O Dia Seguinte” – foi proibida pela censura de Salazar quando estava em vésperas de estreia no Teatro D. Maria II, em 1952, tendo sido apresentada um ano mais tarde em Paris, no Théâtre de La Huchette. Traduzida e representada em doze países, a peça teve que esperar até 1963 para que os públicos pudessem vê-la nos palcos portugueses. 
Mas se esta foi a sua peça de maior fortuna, outras houve que tiveram também um bom acolhimento. Foi o caso de “Alguém Terá de Morrer” ou “É Urgente o Amor”, que os grupos amadores ainda hoje representam com regularidade. Mas seria imperdoável esquecer “Os Pássaros de Asas Cortadas”, que Artur Ramos transpôs para o cinema. Todo o teatro do século XX respira na obra extraordinária de Luiz Francisco Rebello, mas não só enquanto dramaturgo. 

São imensos os trabalhos que editou como estudioso e crítico, como historiador e divulgador de teatro. Têm a sua assinatura obras fundamentais para conhecimento do nosso teatro como “D. João da Câmara e os Caminhos do Teatro Português”, “Cem Anos do Teatro Português” ou “História do Teatro Português”. Mas o seu contributo pela promoção e desenvolvimento do nosso teatro conheceu ainda outras esferas de atuação, como o foi caso da fundação do Teatro-Estúdio do Salitre, a que já se fez referência acima, e a sua passagem pela direção do Teatro Municipal São Luiz, que abandonou em protesto contra as restrições censórias. 

O teatro entrou na vida de Luis Francisco Rebello muito cedo, tinha ele pouco mais de quatro anos. O pai construiu-lhe um teatrinho de madeira, onde ele punha os seus bonecos a representar, diante de cenários recortados das Images d’Épinal e colados em folhas de cartolina, histórias que inventava ou recriava a partir de outras que ouvira de sua mãe. E não tardou que, desse teatro de brincar, passasse ao teatro a sério. Nos anos 1930, o avô paterno criou o café Palladium, um espaço da lisboeta avenida da Liberdade muito frequentado por atores, que, entre o final dos ensaios da tarde e os espetáculos, ali se reuniam em animadas tertúlias com escritores e jornalistas. Escusado será dizer que, à noite, lá estava ele nas salas de teatro, na plateia e… nos camarins. 

Dos bastidores do teatro, Luiz Francisco Rebello passou depois para os lugares de onde emergiram grandes senhores da advocacia: Fernando Abranches-Ferrão, de quem foi, durante mais de vinte anos, companheiro de escritório, José Magalhães Godinho, Salgado Zenha, Mário Soares, Duarte Vidal... E, entre os mais novos, Jorge Sampaio e José Carlos de Vasconcelos, que foi seu estagiário... 

Os tribunais e a escrita dramática – ou sobre o teatro e os seus maiores protagonistas –, foram o universo que elegeu para a vida. Em 1973, porém, com a sua eleição para a presidência da Sociedade Portuguesa de Autores, começou a afastar-me progressivamente da barra dos tribunais e a dedicar-se a outra área jurídica muito descurada entre nós: o Direito de Autor. Luiz Francisco Rebello escreveu e falou bastante mas não o que baste, dentro e fora do país, sobre esta importante matéria. 

Lecionou sobre ela no Instituto Jurídico da Comunicação da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e sobre ela legislou quando, em 1985, participou na discussão e votação parlamentares do Código de Direito de Autor ainda hoje em vigor. Entretanto, foi vice-presidente da Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores. E mais tarde fundou, juntamente com José Saramago, Urbano Tavares Rodrigues, Manuel da Fonseca e Armindo Magalhães, a Frente Nacional para a Defesa da Cultura. 

O seu laborioso trabalho em defesa dos direitos de autor foi bruscamente interrompido na tarde de 8 de dezembro de 2011, quando a morte o roubou do nosso convívio para sempre. 

Salvador Santos

Teatro Nacional de São João.Porto 
Porto. 2013. Outubro. 14

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