BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Como sempre às quartas feiras o nosso Salvador Santos mostra-nos a sua rubrica “No Palco da Saudade”. Hoje é recordado Uma figura muito mediática: Artur Ramos

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O Teatro no Bancada Directa. Como sempre às quartas feiras o nosso Salvador Santos mostra-nos a sua rubrica “No Palco da Saudade”. Hoje é recordado Uma figura muito mediática: Artur Ramos

In memoriam
Artur Ramos, de seu nome completo Artur Manuel Monteiro Ramos nasceu em Lisboa em 20 de Novembro de 1926 e faleceu nesta mesma cidade em 9 de Janeiro de 2006.
Foi um notável encenador, cineasta, realizador de televisão e tradutor.
O Teatro no Bancada Directa. 
Como sempre às quartas feiras o nosso Salvador Santos mostra-nos a sua rubrica “No Palco da Saudade”. Hoje é recordado Uma figura muito mediática: Artur Ramos 

“No Palco da Saudade” 

Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

ARTUR RAMOS 


Foi uma personalidade artística que marcou profundamente a vida cultural portuguesa do século XX, quer como encenador, cineasta, realizador de televisão, ensaísta ou tradutor. Em qualquer destas funções foi sempre um intelectual, um artista que procurou estar na linha da frente. A um só tempo artista-criador e homem da cultura, teve a capacidade de se inserir e de se envolver na sua época e na modernidade. 

E soube sempre, com exemplar coerência e convicção, assumir uma atitude cívica e política, apesar de vivermos em pleno regime ditatorial, o que determinou o seu saneamento da RTP em 1961, acusado pela polícia política de Salazar de ter simpatia pelo Partido Comunista Português, sendo apenas reintegrado após abril de 1974. 


Artur Ramos licenciou-se em Filologia Germânica, não chegando, porém, a defender a tese, porque, em 1951 – com 23 anos – já trocara a literatura pelo cinema. É nesse ano que se inscreve nos cursos de realização e montagem, em Paris, no Institut des Hautes Études Cinématographiques, concluindo-os três anos depois com a tese “Le Regard Portugais sur la TV Française”. 

A chegada da televisão a Portugal trá-lo de volta, já que a experiência adquirida na televisão francesa o tornava indispensável ao lançamento da RTP. É justamente esta circunstância que o transforma numa espécie de realizador para todo o serviço. 

Mas a sua experiência anterior como ator amador no Teatro do Salitre, leva-o a ter um papel fundamental na produção de programas culturais, designadamente as célebres Noites de Teatro, desde as primeiras emissões. 

Artur Ramos transpôs para o pequeno ecrã inúmeras peças de teatro de autores como Molière, Tcheckov, Oscar Wilde, Bernard Shaw, Gil Vicente, Luís de Sttau Monteiro, Mário de Carvalho, entre muitos outros. Ainda para a RTP realizou séries como “Retalhos da Vida de Um Médico” e “Resposta a Matilde”, ambas adaptadas de romances de Fernando Namora, “Esta Noite Sonhei com Brueghel” de Fernanda Botelho ou “Um Amor Feliz” de David Mourão-Ferreira. 

Afastado da televisão pelo regime de Salazar, estreou-se no cinema, rodando em Paris, em 1961, a curta-metragem “Avant le Petit Déjeuner” e, no ano seguinte, fez “L’Anglaise”. Dois anos depois realizou, já em Portugal, a longa-metragem “Pássaros de Asas Cortadas”, uma crítica à sociedade burguesa do final dos anos 1950 onde denunciou corrupções e preconceitos. 

Continuava aqui a perseguição à sua obra por parte da PIDE, que sabia, mas não tinha como provar, da filiação de Artur Ramos ao PCP desde 1957, fazendo com que a famigerada comissão de censura determinasse imensos e significativos cortes naquele filme. 
Mas nada disso o amedrontou, prosseguindo nos palcos os dois propósitos claros que nortearam o seu trabalho na televisão e no cinema: a renovação do cânone dramatúrgico praticado entre nós e a qualificação estética de um tecido artístico empobrecido. A ele ficou a dever-se a grande divulgação em Portugal de autores fundamentais, como Samuel Beckett ou Harold Pinter, e a projeção (na época) de novos dramaturgos portugueses, como Teresa Rita Lopes ou Luiz Francisco Rebello. 

Ficou célebre a encenação de Artur Ramos de “Os Dias Felizes” de Samuel Beckett, com uma notável interpretação de Glicínia Quartin, na pequena sala Casa da Comédia. Como será sempre inesquecível as obras levadas a cena no Teatro Villaret pelo Grupo de Ação Cultural, por ele dirigido. Da mesma forma que ficarão para sempre registadas na história do teatro português as produções da Companhia de Teatro da RTP, de que foi grande impulsionador após a sua reintegração na televisão do Estado, no palco do Teatro Maria Matos. Mas não ficou por aqui a sua intervenção na divulgação do grande teatro entre nós. 

Cartaz e cena da peça "O soldado Schweik na 2ª Guerra Mundial" que Artur Ramos encenou, segundo o texto de Bertolt Brecht

O trabalho por ele realizado como crítico teatral na revista Seara Nova e as suas aulas como professor de teatro e cinema no Conservatório Nacional foram cruciais para o desenvolvimento do teatro em Portugal. O cinema, a maior paixão de Artur Ramos, acabou por sair prejudicado pela multidisciplinaridade da sua brilhante atividade como criador. Para além dos filmes já acima referidos, conseguiu realizar apenas mais duas longas-metragens: “O Luto de Electra” e “A Noite e a Madrugada”. 

Perdeu o cinema o que ganhou o teatro, onde deixou algumas marcas que os tempos jamais apagarão graças à transcrição para vídeo e transmissão televisiva de algumas das suas mais brilhantes encenações, que a RTP guarda no seu riquíssimo arquivo. Foi o caso de “Schweik na Segunda Guerra Mundial” de Bertolt Brecht, que Raul Solnado protagonizou com enorme sucesso no Teatro Maria Matos e que ainda hoje é considerado um dos melhores espetáculos dos anos 1970. 

Cena de "Retalhos da vida de um médico" segundo o romance de Fernando Namora

O desaparecimento de Artur Ramos, em 2006, foi «uma grande perda para a cultura portuguesa», afirmou o encenador Joaquim Benite, que o considerou «um exemplo de qualidade artística, de escrupulosa seriedade e de permanente energia». Por sua vez, o ator Raul Solnado enalteceu nele «o profissionalismo e a amizade», atributos reconhecidos também pelo dramaturgo Luis Francisco Rebello, que o considerou «um homem na vanguarda do teatro», elevando-o à categoria de «encenador de grande nível e imaginativo». Curvamo-nos perante as palavras e a memória de tão ilustres Homens! 

Salvador Santos

Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2013. Outubro. 07

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