BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa Bernardo Santareno é a recordação desta quarta feira de Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O Teatro no Bancada Directa Bernardo Santareno é a recordação desta quarta feira de Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”.

In memoriam
Bernardo Santareno, de seu nome próprio Antonio Martinho do Rosário, nasceu em Santarém em 19 de Novembro de 1920 e faleceu em Carnaxide. Oeiras em 29 de Agosto de 1980.
Está considerado o maior dramaturgo português 
O Teatro no Bancada Directa 
Bernardo Santareno é a recordação desta quarta feira de Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”. 

“No Palco da Saudade” 

Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

BERNARDO SANTARENO 

Unanimemente reconhecido como o maior dramaturgo português da segunda metade do século XX, ele conciliou durante vários anos a escrita para teatro com o exercício da psiquiatria. Nascido em Santarém, foi em Coimbra que se formou em medicina. E foi lá que produziu os seus primeiros trabalhos, que resultariam em dois livros de poesia editados após o seu estágio de especialização médica: “A Morte na Raiz” (1954) e “Romance do Mar” (1955). 

Em 1957, ainda antes de dar a conhecer a sua escrita dramática, promove a edição de “Os Olhos da Víbora”, mais um livro de poesia onde se prenunciava o dramaturgo que surgiria nas bancas nesse mesmo ano. “A Promessa”, “O Bailarino” e “A Excomungada”, três peças reunidas num só volume, desvendavam a espessura dramática que haveria de atravessar toda a sua obra teatral. 


Entre registos realistas, de tonalidade naturalista ou com traços épicos, a escrita de Bernardo Santareno foi essencialmente de denúncia, atenta à realidade do país e visando uma consciência social, o que lhe valeu a proibição de algumas das suas peças e a perseguição pelo regime salazarista. O clero reacionário do norte deu o mote censório que os homens do lápis azul haveriam de dedicar às suas peças, ao desencadear uma campanha de intoxicação da opinião pública nortenha quando “A Promessa” foi levada a cena pelo TEP, no Teatro Sá da Bandeira, em 23 de novembro de 1957. 

Tal campanha determinaria a suspensão das representações da peça, que viria a retomar os palcos apenas dez anos depois, em nova montagem, no Teatro Monumental, em Lisboa. “A Promessa” terá sido a grande obra-prima de Bernardo Santareno (nome artístico do cidadão António Martinho do Rosário) e aquela que foi a mais perseguida pelos censores, mas outras peças houve que mereceram os maiores louvores da crítica e também não escaparam à proibição nas primeiras tentativas de as levar a cena. 

Foi o caso de “António Marinheiro” (escrita em 1960), “O Duelo” (1961) e “O Pecado de João Agonia” (1961), que só receberam luz verde da famigerada comissão de censura anos depois. A primeira foi estreada pela Companhia Portuguesa de Comediantes, no Teatro Municipal São Luiz, e as duas outras foram originalmente produzidas pela companhia do Teatro Nacional D. Maria II no Capitólio e no Trindade, respetivamente. 

Com estas últimas peças encerrou-se o primeiro ciclo do teatro de Bernardo Santareno, caracterizado pela fusão de temas populares com ambíguas preocupações existenciais, pela extrema agressividade dos conflitos examinados e pela ousadia do tema comum: o das violentas paixões e impulsos dos instintos, hetero ou homossexuais, que prevalecem sobre a razão. A força subversiva da escrita simbólica e poética do dramaturgo foi recebida no seu tempo com a adesão imediata de todos a crítica literária e teatral progressista, para quem algumas fragilidades inerentes à construção dos diálogos e a um certo preciosismo literário ocupam um espaço secundaríssimo. 

A partir de 1966, com a narrativa dramática “O Judeu”, o tom do autor fez-se mais intervencionista e a estrutura brechtiana foi posta ao serviço de um estilo pessoal já bem definido e desenvolvido. Aquela peça, levada à cena com um êxito memorável em 1981 no Teatro D. Maria II, baseia-se nas vicissitudes do dramaturgo António José da Silva, morto na fogueira no século XVIII, e formula um paralelismo entre a intolerância da Inquisição e a do regime salazarista. 

Esta segunda fase, de subversão do modelo aristotélico para uma transmissão mais significativa da consciencialização social, contou ainda com “O inferno” (1967) e “A Traição do Padre Martinho” (1969), esta última estreada em 1970, em Havana, numa tradução do dramaturgo cubano José Triana. “Português, Escritor, 45 Anos de Idade” (1974), foi o primeiro texto de Bernardo Santareno representado depois da queda da ditadura, cuja estreia ocorreu no Teatro Maria Matos. 

Nesse mesmo ano, escreveu quatro textos para a revista “P’ra Trás Mija a Burra”, do Teatro ABC. Um outro texto originalmente escrito para aquela mesma revista, mas não utilizado, acabaria por ser integrado no espetáculo “Ao Qu’Isto Chegou” nos inícios do Teatro A Barraca. Registe-se que estes quatro textos acompanharam mais três breves peças, caracterizadas pela fusão dos pressupostos criativos das duas fases anteriores: “Vida Breve em Três Fotografias”, “Restos” e “A Confissão”, as duas últimas representadas com sucesso pela Seiva Trupe, em 1979. 

O drama “O Punho”, escrito no período pós-revolucionário, empenhado na defesa da reforma agrária, encerrou uma brilhante produção penalizada por vezes pelo desfasamento temporal que os acontecimentos históricos e políticos abriram entre as datas de escrita e a possibilidade de representação, diminuindo a força da denúncia de que se fazia portadora, mas valorizada posteriormente por reinterpretações cénicas inovadoras ou inesperadas e por estudos académicos especializados. 

O conjunto da sua obra viria a ser revisitado em 2005 no espetáculo “Bernardo Bernarda”, criado pela Escola de Mulheres a partir de vários textos de Bernardo Santareno, e que constituiu um grande e tocante fresco em homenagem a um dos maiores e mais marcantes dramaturgos portugueses, falecido em 29 de agosto de 1980 com apenas sessenta anos. 



Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2013. Outubro. 21

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