BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade” é uma rubrica semanal do nosso companheiro Salvador Santos e dedicada às figuras do nosso Teatro que já desapareceram do nosso convivio. O grande e versátil actor Morais e Castro é a recordação de hoje. É o Teatro no Bancada Directa

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

“No Palco da Saudade” é uma rubrica semanal do nosso companheiro Salvador Santos e dedicada às figuras do nosso Teatro que já desapareceram do nosso convivio. O grande e versátil actor Morais e Castro é a recordação de hoje. É o Teatro no Bancada Directa

In memoriam
Morais e Castro, de seu nome completo José Armando Tavares de Morais e Castro nasceu em Lisboa em 30 de Setembro de 1939 e faleceu nesta mesma cidade em 22 de Agosto de 2009.
Foi um grande actor de Teatro e Televisão portugueses

“No Palco da Saudade” é uma rubrica semanal do nosso companheiro Salvador Santos e dedicada às figuras do nosso Teatro que já desapareceram do nosso Convivio. 
O grande e versátil actor Morais e Castro é a recordação de hoje. 
É o Teatro no Bancada Directa 

"No Palco da Saudade"
Texto inédito e integral de Salvador Santos

MORAIS E CASTRO 
Determinado e firme nas suas convicções, lutador incansável na defesa dos direitos dos que vivem do seu trabalho, amigo presente em todas as horas, camarada fiel na contracena em palco e adversário leal em todos os confrontos ideológicos que travou, ele foi sempre de uma enorme dedicação e empenho em todas as responsabilidades que assumiu, quer como ator, advogado, sindicalista ou militante comunista. 

A sua aproximação ao Partido Comunista Português aconteceu muito cedo, por via da colaboração prestada pelo pai a alguns dos seus mais destacados dirigentes durante o período da clandestinidade e que acabaria por o envolver diretamente. Tinha doze anos quando o pai lhe disse que iam receber lá em casa um senhor que lutava para mudar o país, que ia conhecê-lo, mas que não podia falar em nada. Era Álvaro Cunhal, claro! 

A sua consciência política vem desses contactos na sua pré-adolescência. O amor pelo teatro chegou depois. Estreou-se em palco com o Grupo Cénico do Centro 25 da Mocidade Portuguesa, ainda no liceu. E apaixonou-se pela representação ao ponto de querer largar os estudos. Por insistência do pai, que além de advogado também tinha uma grande paixão pelo teatro, acabou por se licenciar em Direito. 

Ainda estudante universitário estreou-se profissionalmente no Teatro do Gerifalto, de António Manuel Couto Viana, com a peça “A Ilha do Tesouro”. Entretanto, o encenador e realizador Artur Ramos convidou-o para fazer “O Rei Veado” de Carlo Gozzi na RTP, trabalho que desenvolveu em paralelo com a representação de peças como “O Fidalgo Aprendiz” ou “Os Velhos Não Devem Namorar” no grupo liderado por Couto Viana. Temia-se que o curso de Direito fosse ficando para trás. 

Teatro de Almada. Morais e Castro interpretou "O Fazedor de Teatro"

Mas não, a palavra dada ao pai falava mais forte do que o cansaço das noites vividas como ator e das poucas horas que conseguia dormir, e lá foi cumprindo cadeiras atrás de cadeiras ao mesmo tempo que era chamado a papéis de maior responsabilidade nos palcos. 

Em 1960 interpretou com Laura Alves e outras grandes estrelas dos nossos palcos a peça “Margarida da Rua” no Teatro Monumental e entre 1961 e 1965 integrou o elenco do Teatro Moderno de Lisboa, onde representou com enorme sucesso peças como “O Tinteiro” de Carlos Muñiz e “Humilhados e Ofendidos” de Dostoievski. Pelo meio, Morais e Castro estreava-se na encenação com “O Borrão” de Augusto Sobral, no Grupo Cénico de Direito, espetáculo que viria a ser premiado no Festival de Lyon. 

Tão jovens que nós éramos! A foto é do António Xavier obtida em 1966. Lá estão o Fernando Gusmão, o João Lourenço, o Rui Mendes, a Luisa Salgueiro, o Morais e Castro e a Irene Cruz

Em 1966, Morais e Castro, juntamente com Rui Mendes, Irene Cruz e João Lourenço envolveu-se na criação do Grupo 4, uma sociedade de atores que pretendia fugir a um conceito de teatro empresarial assente na produção de espetáculos de revista e de comédia ligeira que vigorava na época, promovendo um tipo de repertório intimista e de grande interação com os públicos. 

Sem qualquer subsídio do Estado, e tendo por palco principal de trabalho o Teatro Tivoli, em Lisboa, aquele coletivo artístico conseguiu colocar em cena, em diversas cidades do país, autores como Peter Weiss, Bertolt Brecht, Peter Handke ou Boris Vian, atingindo êxitos assinaláveis com peças como “Knack” de Ann Jelicoe ou “Amanhã Digo-te Por Música” de James Saunders. 

Uma dupla de sucesso e dois grandes amigos. Morais e Castro e Luís Aleluia. Quem não se lembra  das "Lições do Menino Tonecas"? Um dos bons momentos da nossa Televisão

Após a Revolução dos Cravos, Morais e Castro envolve-se no sindicalismo, ao mesmo tempo que prossegue o seu trabalho de advogado numa empresa multinacional e nos palcos de teatro. Na década de 1980, volta ao teatro de comédia para fazer “Pouco Barulho”, com Nicolau Breyner. 

Passa depois pela Companhia Teatral do Chiado para protagonizar “À Espera de Godot” com Mário Viegas. Interpreta mais tarde “Um Casal Muito Avançado” de Dario Fo e Franca Rame, no Teatro Nacional D. Maria II, e obtém o prémio da crítica para o Melhor Actor do Ano na peça “O Fazedor de Teatro” de Thomas Bernhard que Joaquim Benite encenou na Companhia de Teatro de Almada. 

O cinema, a rádio e a televisão foram outros dos seus territórios de criação, sendo presença regular na caixinha mágica em inúmeras novelas e séries portuguesas, obtendo grande popularidade sobretudo quando interpretou o professor de “As Lições do Tonecas”, rubrica de humor que ocupou espaço no horário nobre da RTP entre 1996 e 1998. Mas eis que, em dezembro de 2000, Álvaro Cunhal, já muito debilitado, pediu-lhe para ler a sua saudação no XVI Congresso do PCP. Morais e Castro tinha consciência da pesada fatura que iria pagar, mas acedeu ao pedido com muita honra. 

E a verdade é que, decerto não por coincidência, os convites para trabalhos nos palcos e na televisão pararam de imediato. Sem trabalho, o ator decidiu envolver-se ainda mais na gestão da Casa do Artista, instituição a que esteve ligado desde a sua fundação. 

Foi, aliás, nesta casa de apoio aos artistas que Morais e Castro viveu os últimos anos da sua vida, desde o momento que o maldito cancro que o afligia há já algum tempo lhe retirou definitivamente a voz. 

Formaram um casal espectacular, Morais e Castro e Linda Silva. Linda faleceu fez há poucos dias quatro anos (28 de Setembro de 2009)

Em Julho de 2009, o seu estado de saúde complicou-se, obrigando-o a um internamento de urgência no Instituto de Oncologia, em Lisboa. Um mês depois, exatamente a 22 de Agosto de 2009, o ator, o cidadão consciente e empenhado tanto no progresso do país como da vida das pessoas, e que esteve na vanguarda do teatro independente em Portugal, deixou-nos para sempre. 

Salvador Santos 

Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2013. Setembro 30


Sem comentários:

Obrigado Pela Sua Visita !