BANCADA DIRECTA: Igrejas Caeiro. Um nome grande do Teatro, Radio e Televisão é hoje lembrado por Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”. Como sempre às quartas feiras é o Teatro no Bancada Directa

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Igrejas Caeiro. Um nome grande do Teatro, Radio e Televisão é hoje lembrado por Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”. Como sempre às quartas feiras é o Teatro no Bancada Directa

In memoriam
Igrejas Caeiro, de seu nome completo Francisco Igrejas Caeiro nasceu na freguesia da Castanheira do Ribatejo, concelho de Vila Franca de Xira em 18 de Agosto de 1912 e faleceu em Lisboa em 19 de Fevereiro de 2012.
Foi uma figura da Radio, Cinema e Televisão portugueses
Igrejas Caeiro. 
Um nome grande do Teatro, Radio e Televisão é hoje lembrado por Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”. 
Como sempre às quartas feiras é o Teatro no Bancada Directa 

“No Palco da Saudade”. 

Texto inédito e integral de Salvador Santos 

IGREJAS CAEIRO 

Começou no teatro e na rádio, mas depressa se assumiu como um homem do espectáculo em toda a sua dimensão. Foi actor, locutor, realizador, produtor e empresário, repartindo-se por uma multiplicidade de formas de expressão artística e por diversos meios de comunicação. O teatro, o cinema, a rádio e a televisão não tinham segredos para ele, tendo começado a trilhar muito cedo estes territórios. 

A partir dos dez anos conheceu diversos empregos, ao mesmo tempo que cumpria vários graus académicos, desde o curso geral do comércio ao curso do conservatório nacional, até que a porta do teatro se lhe abriu ao vencer o concurso “À Procura de um Actor”, organizado pelo Teatro D. Maria II em parceria com o Diário de Lisboa e a Emissora Nacional. 

Foi com a peça de Ramada Curto “Caso do Dia” que Igrejas Caeiro se estreou nos palcos, em 1940, e logo no primeiro teatro do país. Nesse mesmo ano é admitido como locutor na emissora de radiodifusão do Estado e recebe o convite para integrar o elenco do filme “O Porto de Abrigo”. O ano de 1945 assinala a sua promoção à categoria de locutor de primeira classe e os convites para integrar o elenco dos mais importantes filmes e peças de teatro da época, como primeira figura. 

É desse tempo, por exemplo, a rodagem de “Camões”, a obra-prima do realizador Leitão de Barros, que o desafiou a interpretar um dos principais papéis desse memorável filme, depois de ter visto as suas excelentes criações em “Amor de Perdição” e “Fátima, Terra de Fé”. Em agosto de 1948, Igrejas Caeiro, que desde os tempos de estudante se havia afirmado contra a opressão ou qualquer forma de tirania instituída, é alvo de um saneamento político, alargado a uma dezena de funcionários da Emissora Nacional, que culmina na sua demissão. 

Uma cena do filme "O Violino do João" de 1944 interpretado por Igrejas Caeiro e Ada Luftmann ( na imagem)

Sinopse deste filme: João, professor de música, conta às alunas a história, vinte anos antes, da sua ligação com uma artista de circo, Anustchka, por quem tudo abandonou, passando a tocar na companhia ambulante do pai, Pedro Derminova, inescrepuloso nos negócios. Entendendo que João merece um coração casto e divinal, e não conseguindo dissuadi-lo do casamento, Anustchka suicida-se sob a aparência dum número de sensação, o "turbilhão da morte"... E, na agonia de Anustchka, chora o violino de João.
 
Não desiste, porém, do seu trabalho como locutor e recorre à rádio comercial, de onde resulta, em 1951, a produção do célebre programa “Os Companheiros da Alegria” – um projecto para-teatral de caráter itinerante, cujo formato misturava rádio, variedades e publicidade –, que atingiu uma popularidade invulgar, mobilizando não só uma extraordinária audiência na sua realização ao vivo como também um numeroso grupo de fiéis seguidores na sua transmissão radiofónica. 

Alguns anos depois, no auge da sua popularidade, Igrejas Caeiro voltaria a ser perseguido pelo regime de Salazar quando, numa entrevista, aponta o primeiro-ministro indiano Nehru como o maior estadista daquele tempo. Desagradado por ver assim elogiado um homem que começava a pôr em causa a presença de Portugal na Índia, o Ministro da Presidência proibiu a sua participação em espetáculos públicos. 

Perante esta determinação, o programa “Os Companheiros da Alegria” passou a ser emitido aos microfones do Rádio Clube Português, em moldes mais reduzidos, passando a integrar a rubrica “Perfil de Um Artista”, composta por entrevistas a intelectuais progressistas, que marcou um espaço de reflexão e liberdade pela defesa dos direitos humanos. Levantada a suspensão da sua participação em espetáculos públicos, em 1969, Igrejas Caeiro decide regressar às lides teatrais. 

Mas os convites tardam, com os empresários a invocarem que a sua voz estava demasiado marcada pela rádio e pela publicidade. Outras razões decerto estariam por detrás deste vazio de oportunidades de regresso aos palcos. Perante esta incrível situação, resolve enfrentar o desafio de dirigir o Teatro Maria Matos, um novo equipamento da cidade de Lisboa integrado num complexo que englobava um hotel, um cinema e um teatro. 

O espectáculo de abertura deste novo espaço cénico teve por base o romance de Aquilino Ribeiro “O Tombo no Inferno: o Manto de Nossa Senhora”, a que se seguiram adaptações de obras de outros grandes escritores portugueses, como foi o caso de “A Relíquia” de Eça de Queirós. Em 1974, o homem que marcou a rádio no nosso país com inúmeros programas e rubricas de autor, como o folhetim humorístico “A Lelé e o Zéquinha” (com Vasco Santana, Maria Matos e Irene Velez), o concurso “Adivinhe se é Capaz” ou o evento “Rádio Espetáculo”, ingressou na televisão para produzir e apresentar “TV Palco”, um programa composto por notícias e reportagens sobre a atividade teatral no nosso país. 

Nesse mesmo ano, em junho, e como corolário do 25 de abril, reentrou na Emissora Nacional pela porta grande, e foi depois eleito deputado pelo Partido Socialista à Assembleia Constituinte e, mais tarde, à Assembleia da República, onde integrou a Comissão de Direitos, Liberdades e Garantias, produzindo aí trabalho de relevo. A principal ação de Igrejas Caeiro enquanto deputado visou os problemas da comunicação social, com particular incidência na radiodifusão. 

Entretanto, em outubro de 1976, aceitou a nomeação para Diretor de Programas da RDP (ex-Emissora Nacional), funções de que foi exonerado três anos depois devido a atritos com a Comissão Administrativa. A rádio ficaria para trás, como já ficara o teatro e o cinema. Restava a televisão e a política, que aos poucos também foi deixando sem azedumes. 

 Os últimos anos da sua vida, bruscamente interrompida em 19 de fevereiro de 2012, foram dedicados à Fundação Sara Beirão-António Costa Carvalho, instituição que visa a prestação de serviços a idosos, privilegiando artistas e gente da comunicação social. 

Salvador Santos 

Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2013. Outubro. 28

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