BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa apresentando a rubrica do nosso companheiro Salvador Santos “No Palco da Saudade”. O actor Antonio Rama é a recordação desta quarta feira

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O Teatro no Bancada Directa apresentando a rubrica do nosso companheiro Salvador Santos “No Palco da Saudade”. O actor Antonio Rama é a recordação desta quarta feira

In memoriam
António Rama  nasceu em   Montemor-O-Velho em 4 de Fevereiro de 1944  e faleceu em Lisboa em 1 de Julho de 2013
Foi um actor de teatro residente do Teatro Nacional de Dª Maria II. Nos últimos tempos da sua vida trabalhava regularmente para a Televisão.
António Rama foi um dos fundadores de A Comuna – Teatro de Pesquisa e do Teatro Experimental de Cascais.
O Teatro no Bancada Directa.
Apresentando a rubrica do nosso companheiro Salvador Santos “No Palco da Saudade”. 

O actor Antonio Rama é a recordação desta quarta feira no palco da saudade 

Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

ANTÓNIO RAMA 
Era uma vez um jovem de cabelos e olhos claros da pequena freguesia de Ereira, no concelho de Montemor-o-Velho, estudante muito aplicado que nunca perdia os espetáculos da modesta sala do Grupo Caras Direitas da Figueira da Foz sempre que uma companhia profissional lá se apresentava e que dividia as suas noites entre os livros escolares e os antigos folhetins da ex-Emissora Nacional e as peças de teatro dos gloriosos tempos da RTP. 

Era tal o seu encantamento pelos palcos, que aos fins-de-semana pulava regularmente até à capital para ver revistas e comédias no Parque Mayer, imaginando-se a contracenar com os seus atores de eleição. E quando atingiu os dezoito anos, concluído que estava o Curso dos Liceus, partiu para Lisboa em busca do seu sonho, levando consigo apenas uma forte e inabalável vontade de vencer. 

Por sorte, o encenador Fernando Amado andava a procura de um ator com a sua idade e com as suas características físicas para um espetáculo na Casa da Comédia. E foi aí, nesse pequeno teatrinho às Janelas Verdes, que nasceu o ator António Rama faz agora exatamente cinquenta anos. “A Farsa de Inês Pereira” de Gil Vicente foi a sua estreia, que lhe fez recordar os seus tempos de menino quando representava os autos de Natal ou participava nos rituais da igreja da aldeia. 

O sonho começava a ganhar forma. Pouco depois viu-se envolvido na criação do Teatro Experimental de Cascais, dirigido por Carlos Avilez. E volvido pouco tempo foi a Comuna que ajudou a criar, juntamente com o João Mota, a Manuela de Freitas e o Carlos Paulo, entre muitos outros. Na década de 1970, António Rama conseguiu finalmente concretizar um dos seus grandes sonhos – trabalhar com Laura Alves, com quem fez a comédia “Querida Mamã” no Teatro Capitólio. 

Depois desta divertida peça, que esteve largos meses em cena sempre com salas lotadas, o ator manteve-se por mais dois anos a prestar colaboração nos teatros do empresário Vasco Morgado, mas após a Revolução de Abril voltou aos grupos independentes. Os Bonecreiros, Os Cómicos e o Grupo 4 foram os coletivos de criação teatral onde representou alguns dos espetáculos que mais o marcaram, mas os papéis que mais adorou fazer e que mudaram toda a sua vida foram os protagonistas das peças “A Traição do Padre Martinho” e “Jesus Cristo em Lisboa”. 

Foram eles que originaram o convite para ingressar no Teatro Nacional D. Maria II. No Nacional de Lisboa, António Rama desempenhou os mais diversos papéis em quase todas as peças levadas a cena naquele teatro, entre 1981 e 2001, com especial destaque para “Anatol” de Arthur Schnitzler, com direção de Ricardo Pais, que lhe valeu a sua primeira nomeação para o Prémio Garrett de Melhor Ator do Ano, distinção que receberia de novo dois anos depois pela sua interpretação em “Pais e Filhos” de Ivan Turgueniev, com encenação de Rogério de Carvalho. 


E já que falamos em distinções, impõe-se recordar o Prémio da Critica que recebeu pela sua interpretação do personagem Esganarelo em “D. João” de Molière, com direção de Jean-Marie Villegiér, espetáculo que acabaria por representar o nosso país no Festival da Europa em Paris. Começava aqui a incursão de António Rama por palcos além-fronteiras. 
"A Farsa Sensível". Teatro Nacional Dª Maria II. 1966. Encenação de Carlos Porto. Antonio Rama contracena com João Grosso e Alexandra Rosa

As peças “Fausto.Fernando.Fragmentos” de Fernando Pessoa e “Madame” de Maria Velho da Costa, ambas com encenação de Ricardo Pais, levaram-no depois a Espanha e ao Brasil, a primeira integrada no Festival de Outono de Madrid e a segunda no programa das comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil, com apresentações em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. 

As cidades de Estrasburgo, Bruxelas, Caen e Luxemburgo foram as paragens seguintes de António Rama no circuito internacional, com o espetáculo “Bettina” de Goldoni, que Jean-Claude Berutti dirigiu para o Teatro Nacional de Estrasburgo, com a particularidade de ter representado em francês. 


Em 2001, com a reestruturação operada no D. Maria II pelo então ministro da Cultura José Sasportes, António Rama deixa o elenco residente daquele Teatro Nacional, conjuntamente com outros grandes atores, e passa a dispor de mais tempo para aceitar propostas de algumas estruturas de produção independentes e das várias estações de televisão, onde rubrica interpretações de elevado recorte artístico em inúmeras peças, telenovelas e séries, de onde que sobressaem títulos como “Desencontros”, “A Raia dos Medos” e “Os Filhos do Vento”. Simultaneamente, mantém a sua ligação ao Grupo de Teatro Bescénico, onde desenvolve um interessante trabalho de formação assente na experimentação de novas linguagens cénicas. 
"Romulo o Grande". Teatro Nacional Dª Maria II. 1981. Peça de Friedich Durrenmatt. Antonio Rama contracena com Maria Amélia Mota

Um enfisema pulmonar, que arrasta consigo graves e complexas complicações de saúde, começa por forçá-lo a uma diminuição da intensidade no seu trabalho e leva-o depois a diversas hospitalizações que o afastam quase completamente do exercício da profissão ao longo dos últimos dez anos. No início de junho passado, os sintomas da doença agravam-se e António Rama sujeita-se a um novo internamento. 

Após a alta hospitalar, quando regressa a casa, desata a telefonar para todos os amigos. Sem nunca o dizer, estava implícito nos telefonemas, o adeus, a despedida. Uma paragem cardiorrespiratória, no dia 1 de julho, levá-lo-ia do nosso convívio para sempre. 


Salvador Santos

Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2013. 09. 17

1 comentário:

Anónimo disse...

Senhor Adriano
Conheci Antonio Rama pessoalmente. Um Grande e firme caracter pelas suas convicções
Coração do tamanho do mundo
Partiu tão cedo.
Beijinhos para a sua familia.
Maria de Lourdes Bonito

Obrigado Pela Sua Visita !