BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade” e hoje recorda-se o encenador Joaquim Benite

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade” e hoje recorda-se o encenador Joaquim Benite

In memoriam
Joaquim Benite nasceu em Lisboa no ano de 1943 (circunstancias varias nunca permitiram definir a data do seu nascimento com exactidão) e faleceu em Lisboa em 5 de Dezembro de 2012
Foi um grande encenador de teatro e viveu o mesmo intensamente
O Teatro no Bancada Directa.
Salvador Santos apresenta a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade” e hoje recorda-se o encenador Joaquim Benite 


No Palco da Saudade
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)

 JOAQUIM BENITE 

Filho de uma relação ilegítima que podia ter saído da pena de um qualquer grande romancista ou dramaturgo, que teve por protagonistas um empresário teatral e uma pretendente a corista, foi no Parque Mayer, em Lisboa, que ele aprendeu a dar os primeiros passos. A mãe morreu quando ele tinha apenas seis anos e o pai pouco tempo depois. Orfão, foi viver para casa de uns tios que mal conhecia. Com doze anos decide afrontar a família do pai e adota o apelido da mãe em tudo em que se envolve, na rua entre os amigos, na escola, num grupo cultural da Amadora. 

O tio materno, Aleixo de seu nome, um homem atingido pela cegueira, republicano absoluto e forte opositor ao regime, que o iniciou na leitura dos grandes escritores, era o seu companheiro preferido. Foi o tio Aleixo que lhe deu a conhecer toda a Lisboa, em longos passeios que terminavam habitualmente num banco de jardim ou no Café Pigalle, na Amadora, e quase sempre com a leitura de um romance de Camilo Castelo Branco ou Balzac. Aí, e como acontecia regularmente nas noites de fim-de-semana, o tio pedia-lhe que lesse para ele. 

E Joaquim Benite percebeu mais tarde que, aquilo que pensou ser moeda de troca pelos passeios, não era um favor que fazia ao tio, mas o contrário. Foi assim que ele se iniciou no universo dos grandes romancistas. Da leitura em voz alta de livros para o tio, passou depois para um quase compulsivo consumo íntimo de romances, peças de teatro e outras obras, que acabariam por formatar também o seu gosto pela escrita. Com quinze anos, ao mesmo tempo que experimenta a representação no grupo de teatro do Liceu, Joaquim Benite começa a colaborar com o Diário Juvenil. 
Escreve depois para o Notícias da Amadora e daí parte para um jornalismo mais sério, primeiro no República e de seguida no Diário de Lisboa. Passa a acumular as funções de redator e repórter com as de crítico e vem ao de cima a sua costela paterna de teatreiro, como lhe chamou um dia Paulo Renato numa das tertúlias do Café Monte Carlo. Estávamos em 1970 quando fundou o Grupo de Campolide, seguro de que as experiências de encenação que fizera na adolescência numa velha garagem da Amadora iriam ter continuidade como forma de vida, quase sacerdócio, tal era a sua paixão pelo teatro. 

Pode dizer-se que tudo começou de verdade nas exíguas instalações do Campolide Atlético Clube, uma popular coletividade de bairro, num palco pequeno, com o público sentado em bancos corridos para ver “O Avançado-Centro Morreu ao Amanhecer”, um texto de Agustin Cuzzani que se pode classificar de teatro do pensamento, mas que Joaquim Benite preferiu chamar de teatro de ação, um género que, segundo ele, leva as pessoas a pensar no seu dia-a-dia e que lhes muda a vida de alguma maneira. 

Tal como a política, rematava o encenador, que desde jovem teve sempre uma intervenção cívica e política ativa, perfilhando ideias próximas do Partido Comunista Português, onde se filiou e militou posteriormente durante mais de trinta anos. Os espetáculos que se sucederam ao texto de Cuzzani foram merecendo grande destaque por parte da crítica, e a coletividade de Campolide começou a ser demasiado pequena para a grandeza dos espetáculos de Joaquim Benite. 
Joaquim Benite dirige o actor Pedro Walter na reposição em 2010 da peça "Hughie" de Eugene O"Neil

Após o sucesso da peça “Aventuras do Grande D. Quixote de la Mancha e do Gordo Sancho Pança” de O Judeu, que conquistou o Prémio da Critica para o melhor espetáculo de teatro amador em 1972, o Grupo de Teatro de Campolide começou a circular por outros palcos, acabando por se fixar no Teatro da Trindade de Lisboa, de onde partiu para Almada. Aí, decorria o ano de 1978, o grupo profissionalizou-se e passou a chamar-se Companhia de Teatro de Almada. 

Depois foi o que se sabe: transformou-se num dos principais focos teatrais do país, que tem o seu expoente máximo no Festival Internacional de Teatro de Almada. Pelo Festival de Almada, que vai já na sua 30ª. edição, passaram encenadores como Peter Brook, Luca Ronconi, Luc Bondi, Bernard Sobel, Robert Lepage, Benno Besson e Thomas Ostermeier, e companhias de referência como o Piccolo Teatro di Milano, a Schaubuhne de Berlim ou o Teatro Lliure de Barcelona. 

Entretanto, muito graças ao empenho de Joaquim Benite e ao trabalho por ele realizado, a cidade de Almada ganhou um novo Teatro, que ostenta agora o seu nome. Naquele palco, o encenador criou algumas das suas mais notáveis obras, como “O Fazedor de Teatro” de Thomas Bernhard, “A Mãe” de Bertolt Brecht ou “Troilo e Créssida” de William Shakespeare, deixando para trás largas dezenas de outras encenações memoráveis. 
Foram, aliás, inúmeros os espetáculos de Joaquim Benite premiados, tendo ele próprio sido distinguido por diversas entidades nacionais e estrangeiras pelo seu trabalho na renovação do teatro português e na divulgação das artes cénicas do espaço europeu. Trabalho esse que sofreu um pequeno interregno há cerca de ano e meio, quando a diabetes o mandou para enfermaria de um hospital com diversos problemas de saúde. 

Apesar de muito doente, ainda conseguiu colocar de pé mais uma edição do Festival de Almada e o espectáculo “Timão de Atenas”, sempre com a colaboração do seu dedicado assistente Rodrigo Francisco, que o viria a substituir em todas as funções a partir de 5 de dezembro de 2012, dia em que o encenador nos deixou para sempre. 

Salvador Santos
Teatro Nacional de São . Porto
Porto. 2013. Setembro. 23

Sem comentários:

Obrigado Pela Sua Visita !