BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. “No Palco da Saudade” é a rubrica semanal de Salvador Santos dedicada às figuras que deixaram o nosso convívio. Hoje recorda-se aquele que foi grande na arte de representar, de seu nome Artur Semedo.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O Teatro no Bancada Directa. “No Palco da Saudade” é a rubrica semanal de Salvador Santos dedicada às figuras que deixaram o nosso convívio. Hoje recorda-se aquele que foi grande na arte de representar, de seu nome Artur Semedo.

In memoriam
Artur Semedo, de seu nome próprio Artur Francisco da Cunha Semedo nasceu em Arronches. Portalegre em  2 de Novembro de 1924 e faleceu em Lisboa em 8 de Fevereiro de 2001.
Foi principalmente um actor e cineasta do Cinema Português


O Teatro no Bancada Directa.
“No Palco da Saudade” é a rubrica semanal de Salvador Santos dedicada às figuras que já desapareceram do nosso convívio.
Hoje recorda-se aquele que foi um monstro de talento na arte de representar, de seu nome Artur Semedo. 

No Palco da Saudade. 

Texto inédito e integral de Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto

 ARTUR SEMEDO

Descendente de uma família de tradições militares, mal acabou o ensino primário e o exame de admissão aos liceus, foi obrigado a deixar a sua terra natal (Arronches, Portalegre) para frequentar o Colégio Militar, em Lisboa. Mas seis anos depois foi expulso devido à irreverência da sua personalidade pouco dada a preceitos disciplinares demasiado rígidos. 


Regressou então ao seu Alentejo para concluir o curso dos liceus em Évora, partindo depois para Coimbra como calouro da Faculdade de Ciências. Mas cedo percebeu que o seu futuro passaria pelas atividades artísticas, como havia, aliás, antecipado o seu professor primário, o escritor José Régio, que, ao constatar a vocação do jovem aluno para a arte dramática, escrevera “Sonho em Véspera de Exame”, uma peça em três atos, para ele representar enquanto aluno do liceu. 

Ao fim de um ano apenas de Faculdade, Artur Semedo deixa Coimbra e os livros de Biologia para trás, rumando até à capital em busca de um lugar no curso de Teatro do Conservatório Nacional, no qual conquista o prémio Eduardo Brazão no exame final, com a interpretação da peça de Carlos Selvagem “O Ninho da Águia”. 

É curioso este título, que lhe assenta na perfeição. Vem isto a propósito do seu conhecido amor pelo Benfica, clube que defendeu de forma apaixonada nos mais diversos fóruns com a sua admirável e corrosiva ironia em debates muito acesos. Era tal o seu fervor clubista que terá sido ele o primeiro a pronunciar a frase ainda hoje frequentemente usada: «mudamos de mulher, mudamos de partido, mas nunca mudamos de clube!» Era enorme o seu benfiquismo, mas também grande a sua paixão pela arte de representar. 

Ainda enquanto aluno do Conservatório, Artur Semedo teve a sorte de ingressar no elenco de alguns dos espetáculos dos Comediantes de Lisboa, grupo liderado pelos manos António e Francisco Lopes Ribeiro, onde recebeu verdadeiras lições de representação na contracena com os atores António Silva e João Villaret, sob a direção de Mestre Ribeirinho. 

Simultaneamente tomou ali contacto com as mais elementares regras da criação cinematográfica, através dos ensinamentos de António Lopes Ribeiro, um dos mais experientes realizadores portugueses, que fez crescer em si uma particular curiosidade por aquela arte. Era o bichinho do cinema a fazer das suas! Foi, por isso, natural que os seus primeiros anos do período pós-Conservatório tivessem sido bastante preenchidos por trabalhos no cinema. 

Filmografia de Artur Semedo. Filme "Querido Lilás". No elenco trabalharam Herman José, Rita Ribeiro, Henrique Viana e Victor de Sousa

Só entre 1949 e 1957, paralelamente a uma intensa atividade no teatro, Artur Semedo andou envolvido em dez projetos cinematográficos. “Sol e Toiros” de José Buchs e “Vendaval Maravilhoso” de Leitão de Barros foram os seus filmes de estreia como ator, a que se seguiu uma interpretação com um elevado cunho dramático naquele que viria a ser considerado o primeiro filme neorrealista português: “Os Saltimbancos” de Manuel Guimarães, ao lado da popular atriz Maria Olguim. 

E a imagem de galã que o acompanhou nos anos seguintes chegaria pouco depois com “O Cerro dos Enforcados” de Fernando Garcia. Em 1957 Artur Semedo abalança-se na produção e realização, com “O Dinheiro dos Pobres”, e não se sai nada mal. Repete a experiência em “Perdeu-se um Marido”, mas fazer cinema em Portugal nunca foi bom negócio, muito menos nesses tempos em que sofreu uma das suas piores crises, e vê-se obrigado a adiar o sonho de se dedicar exclusivamente à sétima arte. 

Filmografia de Artur Semedo. Filme"Encontro com a Vida". Na cena Maria Dulce

A neófita televisão leva-o então a participar em séries como “O Carlinhos e a Lena” e “Dr. Borelli”, ao mesmo tempo que reforça a sua participação em programas de rádio. Paralelamente, passa pelo Teatro Monumental, onde esteve onze anos e ao longo dos quais trabalhou com Laura Alves em peças como “A Rainha do Ferro-Velho”, “Criada para Todo o Serviço” e “Meu Amor é Traiçoeiro”. 

Depois de ter passado algum tempo no Brasil, onde integrou o elenco de oito filmes, regressou a Lisboa para duas experiências no teatro de revista, no Teatro ABC (“Mulheres à Vela” e “Mini Saias”), e uma nova incursão pela comédia, no Teatro Villaret (“O Vison Voador”, ao lado do amigo Raul Solnado), mas pouco depois optou por abandonar de vez os palcos para se dedicar por inteiro à sua assumida paixão: o cinema, acabando por dirigir ao todo dez filmes, entre os quais “O Rei das Berlengas” (com Mário Viegas), “O Barão de Altamira” (que também protagonizou) e “Querido Lilás” (com Herman José, que lhe valeu o Grande Prémio do Cinema Português). “Um Crime de Luxo” foi a última longa-metragem que realizou. 

Filmografia de Artur Semedo. Filme "Perdeu-se um Marido"

E a sua derradeira participação como ator aconteceu em “Aqui D’El Rei” de António Pedro Vasconcelos, a fechar uma gloriosa carreira composta por 55 filmes, alguns dos quais rodados no estrangeiro, como foi o caso de “Der Stand der Dinge” do alemão Wim Wenders. Mas, apesar dos seus inegáveis dotes de ator e realizador, foi pelo seu exacerbado benfiquismo e pela luva preta (adereço imposto pelo médico) que Artur Semedo se tornou mais conhecido. 
O seu benfiquismo levou-o a deixar escrito como última vontade que o seu cortejo fúnebre passasse pelo Estádio da Luz e que os amigos que o acompanhassem à sua última morada fossem vestidos de vermelho. 

E foi assim que aconteceu quando nos deixou, aos 77 anos, vítima de um cancro quase fulminante. 


Salvador Santos

Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2013. Agosto. 28

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