BANCADA DIRECTA: Maria Olguim, uma grande actriz do nosso teatro e cinema do passado é hoje recordada em “No Palco da Saudade”, uma rubrica semanal do nosso companheiro Salvador Santos. É o Teatro no Bancada Directa.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Maria Olguim, uma grande actriz do nosso teatro e cinema do passado é hoje recordada em “No Palco da Saudade”, uma rubrica semanal do nosso companheiro Salvador Santos. É o Teatro no Bancada Directa.

In memoriam
Maria Olguim, de seu nome completo Maria Cipriano Lobato Olguim, nasceu em Castelo Branco em 26 de Abril de 1894 e faleceu na Figueira da Foz em 31 de Dezembro de 1983. 
Foi uma extraordinária e versátil actriz do nosso teatro e cinema.
Duas notas de Bancada Directa: Salvador Santos refere a data do seu falecimento como tendo ocorrido no ultimo dia do ano de 1983, o que é um facto real. Sem o explicitar o Salvador baseia-se na sua morte fisica. Quanto ao seu nascimento alguns biógrafos referem 1894, mas de facto ela nasceu quatro anos depois. Morreu com 85 anos de idade

Maria Olguim.

Uma grande actriz do nosso teatro e cinema do passado é hoje recordada em “No Palco da Saudade”.
Rubrica semanal do nosso companheiro Salvador Santos. 
É o Teatro no Bancada Directa. 

 “No Palco da Saudade” 

Texto inédito e integral de Salvador Santos/Teatro Nacional de São João. Porto. 

 
MARIA OLGUIM 

Filha de pais espanhóis radicados há algum tempo em Castelo Branco, sua cidade natal, parte muito cedo para a Figueira da Foz onde brinca, estuda, cresce e faz-se mulher. Assediada por alguns dos seus amigos que são amadores de teatro numa coletividade recreativa local – a Sociedade Filarmónica 10 de Agosto –, faz-se também ela atriz. 


Por ali representa os mais diversos tipos de repertório, onde sobressaem a revista e os grandes dramas, ganhando aos poucos uma enorme paixão pelo teatro. Nos palcos apaixona-se perdidamente por um jovem rapaz, com o qual representou os maiores romances de amor de grandes dramaturgos. Os amores vividos em cena transportam-na para um amor real e o noivado é anunciado num jornal da terra. Estávamos no ano de 1917 e a guerra assolava a Europa. 


Filmografia de Maria Olguim. No filme "Saltimbancos" ela fez o papel de Miss Dolly


Entre as centenas de soldados portugueses que partiram para a frente de batalha, seguiu o noivo de Maria Olguim. Movida pelo amor, alista-se como enfermeira na Cruz Vermelha, com o objetivo de ser mobilizada para a guerra e poder estar junto dele. Depois de uma dedicada aprendizagem, concluiu o curso. O grupo de enfermeiras de guerra onde estava incluída partia dentro de dias. 

Mas inesperadamente declarou-se peste no barco e ficou adiada a partida. E ela acabou por não embarcar porque, entretanto, foi suspenso o envio de enfermeiras portuguesas para o campo de batalha. Quis o destino que a jovem não mais visse o rapaz que tanto adorava. Ele seria uma das inúmeras vítimas da guerra. Mas o tempo passa e tudo atenua, até a dor da perda de quem mais amamos. Era muito doloroso manter-se no lugar onde as recordações lhe queimavam a alma e aumentavam o seu sofrimento, e muda-se para a cidade do Porto, onde passa a exercer a profissão de modista. 


O ateliê onde trabalha recebe uma encomenda de confeção de guarda-roupa para um espetáculo de teatro e de súbito reacende-se o fogo da paixão pelos palcos que havia estado adormecida no fundo do seu íntimo. Não se sabe bem como aconteceu, mas a verdade é que algumas das peças de roupa que ajudara a costurar acabariam por ser por ela usadas na revista “Tiro ao Alvo”, que subiu a cena no Cine-Teatro Águia d’ Ouro, onde Maria Olguim voltou a ouvir os aplausos do público. 

Filmografia de Maria Olguim. Filme "O Costa do Castelo"

Durante quatro anos, percorreu os diversos palcos da cidade Invicta, alcançando sempre grande sucesso. Aliás, é devido a esse sucesso que ela acaba por ser convidada a participar no filme “Tinoco em Bolandas” de António Pinheiro, ainda no tempo do cinema mudo. Mas de repente, e sem qualquer motivo aparente, abandona os palcos e decide abrir o seu próprio ateliê. A atriz voltava a ser modista! Anos mais tarde, Maria Olguim vinha a sair do Cinema Batalha, no Porto, e encontra um velho amigo então assistente do realizador Leitão de Barros, que a convence a prestar provas para um novo filme que se encontrava em fase adiantada de pré-produção. 

E foi assim que ela se estreou no cinema sonorizado no filme “Ala Arriba”, rodado na Póvoa de Varzim. A partir daí Maria Olguim torna-se numa das figuras secundárias mais importantes do cinema português. Participa nos principais filmes dos anos de ouro do nosso cinema de comédia, como “O Costa do Castelo”, “A Menina da Rádio”, “Um Homem do Ribatejo”, “O Leão da Estrela”, “Os Vizinhos do Rés-do-Chão”, “Cantiga da Rua”, entre muitos outros. Mas é em 1951 que ela vive a sua única verdadeira protagonista no cinema, ao desempenhar o difícil papel de Miss Dolly em “Saltimbancos”. 


Maria Olguim como actriz teatral. Cartaz da peça em que entrou. "A Promessa"


A crítica seria unânime nos elogios ao seu desempenho, considerando que ela se revelara uma extraordinária atriz dramática ao encarnar a figura central daquele filme, uma personagem que requeria talentos de excelência interpretativa. 

Se no cinema Maria Olguim passou a ser sistematicamente convidada para interpretar os mais diversos papéis de primeira atriz, nos palcos a sua participação é muito espaçada e fugaz. Ficam no entanto para a história do teatro português a sua colaboração nas operetas “Cantiga da Rua” e “Maria da Fonte” e na revista “Lisboa é Coisa Boa”, levadas a cena nos anos de 1950. 

Na década seguinte brilha no palco do Teatro Monumental em dois espetáculos protagonizados por Laura Alves, que foram grande sucesso: “Sim, Quero” e “A “Promessa”. Entretanto, havia surgido a televisão em Portugal e Maria Olguim passa a ter uma constante participação nas célebres “Noites de Teatro” da RTP e nos mais diversos programas de humor e entretenimento. A última aparição de Maria Olguim nos palcos aconteceu em 1973 numa festa em sua homenagem no Teatro Municipal São Luís, onde foi agraciada com o Grau Oficial da Ordem do Mérito. 
Filmografia de Maria Olguim. Filme "A costureirinha da Sé

E a sua derradeira participação no cinema verificou-se em 1979 no filme “Manhã Submersa” de Lauro António, uma adaptação do romance homónimo de Virgílio Ferreira que retrata a perda da infância na austeridade do sacerdócio, na repressão da educação e nas desigualdades sociais do Portugal beirão, pobre, dos anos 1940. 


Após este poderoso filme, a atriz muda-se para a Figueira da Foz, onde tudo havia começado verdadeiramente para ela: a descoberta do amor e a paixão pela arte de representar. Foi lá também que veio a falecer a 31 de Dezembro de 1983. 


Salvador Santos

Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2013. Setembro 07

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