BANCADA DIRECTA: .“Tenho nojo daquilo que Portugal se está a transformar”! Esta frase foi proferida pelo encenador Mario Barradas, figura hoje recordada pelo nosso homem do Teatro, Salvador Santos, na sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”. E bem tinha razão o Mário Barradas. É o Teatro no Bancada Directa.

domingo, 11 de agosto de 2013

.“Tenho nojo daquilo que Portugal se está a transformar”! Esta frase foi proferida pelo encenador Mario Barradas, figura hoje recordada pelo nosso homem do Teatro, Salvador Santos, na sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”. E bem tinha razão o Mário Barradas. É o Teatro no Bancada Directa.

In memoriam 
Mário Barradas, de seu nome completo Mário de Melo dos Santos Barradas, nasceu nos Açores. Ilha de São Miguel. Ponta Delgada em 7 de Agosto de 1931 e faleceu em Lisboa em 19 de Novembro de 2009. Foi um actor e encenador do Teatro Português 
Foi uma das figuras mais marcantes do panorama teatral português após a Revolução dos Cravos .

“Tenho nojo daquilo que Portugal se está a transformar”! Esta frase foi proferida pelo encenador Mario Barradas, figura hoje recordada pelo nosso homem do Teatro, Salvador Santos, na sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”. E bem tinha razão o Mário Barradas. É o Teatro no Bancada Directa. 

 “No Palco da Saudade” 

Texto inédito e integral de Salvador Santos 

MÁRIO BARRADAS 
Foi responsável pela formação de numerosos homens do teatro em Portugal no período pós-Revolução de Abril e a ele se deve também a primeira tentativa séria e consequente da implementação de um projeto de descentralização teatral no nosso país. Nasceu nos Açores e foi no Liceu Nacional Antero de Quental, em Ponta Delgada, que tomou o gosto pelo teatro. 

Mas foi em Lisboa, enquanto aluno da Universidade de Direito, que dirigiu o seu primeiro espetáculo. Partiu mais tarde para a cidade de Lourenço Marques (atual Maputo), onde iniciou uma promissora carreira de advogado. Mas o apelo do teatro foi forte demais, levando-o a acumular a barra dos tribunais com o exercício teatral num grupo amador que ele próprio fundou na capital moçambicana, onde dirigiu e interpretou textos de Lorca, Albee e Brecht, entre muitos outros. 




Antes da sua decisão de emigrar para o continente africano, Mário Barradas havia estado em Timor no cumprimento do serviço militar obrigatório, onde acabaria por desenvolver uma curiosa atividade cultural com as comunidades locais. 

Enquanto dirigia atores nativos em peças como “A Farsa de Mestre Pathelin” de autor anónimo do século XV, ou “O Mestre Escola” do guienense Keita Fodebado com tradução de Mário Pinto de Andrade, a sua voz ia desfiando as palavras dos poetas maiores da língua portuguesa nos lugares mais improváveis da Ilha. 

Esta sua experiência de animador da poesia já havia prosseguido em lugares contestatários ao regime de Salazar de Lisboa, Barreiro e Coimbra, mas fazê-lo numa terra em latente ebulição, na qualidade de militar do país colonizador, era um atrevimento maior e muito mais perigoso. A grande reviravolta na vida de Mário Barradas deu-se em 1969, quando decidiu pedir uma bolsa à Fundação Calouste Gulbenkian para frequentar a Escola Superior de Arte Dramática do Teatro Nacional de Estrasburgo. 


A advocacia ficava definitivamente para trás. Após a conclusão do curso em Estrasburgo foi convidado para manter-se naquela Escola como professor assistente. Mas um convite de Madalena Perdigão para dirigir a comissão de reforma do Conservatório Nacional determinou o seu regresso a Portugal. Entretanto, a fundação d’ Os Bonecreiros, um dos grupos pioneiros na história do desenvolvimento do teatro independente e da descentralização, onde dirigiu peças como “A Mosqueta” de Ruzante e “A Grande Imprecação Diante das Muralhas da Cidade” de Drost, consagrou-o como um dos melhores encenadores portugueses. 

Centro Cultural de Évora. 1975. Mário Barradas na peça "O Proprietário Puntillo e o seu criado Matti"

Com a Revolução de Abril, tornou-se no primeiro teórico da descentralização cultural e instalou-se em Évora para aí promover a apresentação pública das suas ideias. Esteve na origem da criação da Associação Técnica e Artística de Descentralização Cultural, cuja presidência alternou com o encenador Joaquim Benite, cuja história ainda hoje está por fazer e que teve um papel crucial no estudo das formas de reestruturação do teatro português. Antes porém, Mário Barradas encenou espetáculos nos Açores, em Viana do Castelo, Porto, Braga, Vila Real, Covilhã, Coimbra, e em diversos outros locais, onde simultaneamente ia dirigindo cursos de formação de jovens atores. 


A sua ida para o Alentejo aconteceu em 1975. Com outros camaradas de profissão fundou o Centro Cultural de Évora – mais tarde rebatizado de Centro Dramático –, com sede no Teatro Garcia de Resende, onde recuperou os tradicionais Bonecos de Santo Aleixo e encenou e representou Aristófanes, Molière, Corneille, Shakespeare, Marivaux, Goldoni, Brecht, Koltez, Vicente, Garrett, Brandão e muitos, muitos outros autores. E, paralelamente, Mário Barradas criou a Escola de Formação de Atores do Cendrev. 

Mário Barradas na companhia de Joaquim Benite

Tratava-se de iniciar uma coisa que há muito estava feita nos restantes países da Europa, mesmo em Espanha, que apesar do franquismo conseguia ter um movimento teatral vasto espalhado pelas suas diferentes parcelas geográficas. Em 1994, pouco depois de encenar “Viver Como Porcos”, de John Arden, Mário Barradas deixou o Cendrev, desgostoso com as orientações programáticas e com a falta de recursos. 

Decidiu então aceitar o convite do ministro da Cultura Manuel Maria Carrilho para presidir ao IPAE - Instituto Português das Artes do Espetáculo, que deixaria na sequência de cortes orçamentais. O Teatro Municipal de Almada seria o seu próximo palco, na qualidade de encenador de “Troilo e Créssida” de Shakespeare. A produção daquela peça, nunca até então representada no nosso país, era um dos sonhos de toda a sua vida, partilhado com o cenógrafo francês de Christian Ratz, seu antigo colega na escola do Teatro Nacional de Estrasburgo. 


Vicissitudes várias impediram-no de realizar esse sonho. E quando estava prestes a consegui-lo, surgiu a morte. A memória que guardamos de Mário Barradas é a de um grande homem da cultura que sacrificou tudo, com exemplar abnegação, a um projeto de teatro que visava a criação de um novo público e de uma nova mentalidade, num país cujo atraso o incomodava, mas que ele amava verdadeiramente e para cujo desenvolvimento desejava contribuir. Partiu desiludido. Uma das frases com que terminou a sua autobiografia diz bem do seu sentimento face à triste situação política do país: «Partilho a ideologia marxista-leninista e tenho nojo daquilo em que Portugal se está a transformar». 


Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2013. Agosto. 02

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