BANCADA DIRECTA: Tempos de Agosto. Tempos de Verão. Tempo de férias. Mas o nosso Salvador Santos -grande homem do nosso Teatro- não descansa e apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” recordando hoje aquele que foi o grande Arthur Duarte. É o Teatro no Bancada Directa.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Tempos de Agosto. Tempos de Verão. Tempo de férias. Mas o nosso Salvador Santos -grande homem do nosso Teatro- não descansa e apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” recordando hoje aquele que foi o grande Arthur Duarte. É o Teatro no Bancada Directa.

In memoriam 
Arthur Duarte, de seu nome próprio Arthur de Jesus Pinto Pacheco, nasceu em Lisboa em 17 de Outubro de 1895 e faleceu nesta mesma cidade em 22 de Agosto de 1982 
Foi um realizador português. 
Começou a sua carreira no cinema como actor, tendo realizado diversos pequenos papéis, designadamente na Alemanha, França, Suíça e Áustria. 
O seu interesse pelas questões técnicas levam-no à produção de filmes e seguidamente à realização.
Damos a palavra ao nosso Salvador Santos, com os agradecimentos do blogue Bancada Directa


Tempos de Agosto. 
Tempos de Verão. 
Tempo de férias. 
Mas o nosso Salvador Santos -grande homem do nosso Teatro- não descansa e apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” 
Recorda-se hoje aquele que foi o grande Arthur Duarte. 
É o Teatro no Bancada Directa. 

 No Palco da Saudade 

Texto inédito e integral de Salvador Santos 

ARTHUR DUARTE 



Podia ter sido um extraordinário ator de teatro, mas não deu tempo a que isso acontecesse. Iniciou-se nos palcos apenas com vinte e três anos e depressa trocou o teatro pelo cinema, onde acabaria por se afirmar internacionalmente. Tudo começou por influência do seu irmão mais velho, que o convenceu a frequentar o Conservatório Nacional. Nessa mesma altura, a empresa Rosas & Brazão deixou o Teatro D. Maria II e instalou-se no Teatro República (atual São Luiz). 

Pouco tempo depois, o ator João Rosa procurou informações sobre os alunos com maiores aptidões e ficou bem impressionado com o ar gaiato e malandreco de um jovem do bairro alfacinha da Madragoa, dono de um à-vontade pouco comum, alto e bem constituído fisicamente. E foi assim que Arthur Duarte se estreou como ator, na peça “A Conspiradora” de Vasco Mendonça Alves. 


Foi uma estreia muito auspiciosa, que mereceu grande destaque nos jornais da época mas pouca consequência e aplicação do ator. Arthur Duarte ainda participou em mais alguns espetáculos teatrais nos maiores palcos da cidade de Lisboa, mas o seu pensamento estava focado nas potencialidades da arte cinematográfica. Em 1921, três anos após a sua aparição no teatro, o ator Erico Braga aliciou-o para o cinema, contratando-o para fazer um pequeno papel no filme “A Morgadinha de Val-Flor” de Ernesto Albuquerque. 

O Pai Tirano - filme 

Um ano depois, quando estava em digressão na cidade do Porto, a Invicta Filmes convidou-o para fazer o Ernestinho do filme “O Primo Basílio” do realizador Georges Pallu, e… a sua paixão pela sétima arte foi-se consolidando. No regresso à capital, Arthur Duarte tinha à sua espera o convite do realizador Raul Caldevilla para fazer o seu primeiro papel de relevo, o Daniel de “As Pupilas do Sr. Reitor”, e abandonou de vez os palcos de teatro. Seguiu-se o filme “Os Olhos da Alma”, a meio da rodagem do qual acumulou o papel de ator com as funções de assistente do realizador Roger Leon. 

A convite deste partiu então para Paris, como ator e assistente de realização, onde ficou também com a missão de visionar filmes para exibição em Portugal por conta da empresa Castelo Lopes e com a incumbência de contratar artistas para o Casino Maxim’s de Lisboa. Para além desta multiplicidade de funções, ainda arranjou tempo e imaginação para o seu primeiro documentário como realizador: “Castelo de Chocolate”, encomendado por uma Fábrica de Chocolates. 


 A sua ida para Paris marcou o início de uma vida de andarilho pelos estúdios de cinema. Em 1927 partiu para a Alemanha para cumprir um contrato com a Ufa, a mais importante produtora de cinema alemã, no âmbito do qual interpretou 57 (!) filmes. Entre estes está o filme “Sexo Algemado”, sob a direção de Willhelm Dieterle, cujo diretor de produção era um tal Joe Pasternak, que mais tarde o receberia em Hollywood. Arthur Duarte trabalhou ainda na Áustria, na África do Sul e em Espanha, nunca deixando de exercer atividade em Portugal. 

E é aqui que roda a sua primeira longa-metragem como realizador, adaptando para o cinema a obra de Júlio Dinis “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, onde, apesar de um certo convencionalismo formal, é visível um apuro técnico resultante de vários anos de trabalho com grandes cineastas europeus. Arthur Duarte tornou-se num dos mais profícuos realizadores portugueses e um dos maiores responsáveis pelo período de ouro do nosso cinema de comédia, embora a maioria dos seus filmes acabem por não se integrar propriamente nessa categoria. 

É, todavia, na comédia que o seu trabalho melhor se afirma, graças à sua competência técnica e ao ritmo que imprime aos filmes, utilizando situações do quotidiano da nossa pequena burguesia, histórias de humor que vão resistido à passagem do tempo. É o caso de “O Costa do Castelo”, considerado um dos maiores clássicos do nosso cinema. E o mesmo se aplica ao filme “A Menina da Rádio”, de feição mais musical, que ficou para a história do cinema português por uma cena antológica onde um aparelho de rádio se transforma de súbito num televisor, algo que era ainda desconhecido em Portugal. No final dos anos 1950 a filmografia de Arthur Duarte afastou-se de vez da comédia e enveredou pelo melodrama, para deceção dos cinéfilos seus seguidores. 

Filmografia de Arthur Duarte

Do moralismo de “A Graça e a Serpente” ao convencionalismo de “O Noivo das Caldas”, passando pela tentativa neorrealista de “Parabéns, Senhor Vicente”, nada acolheu o agrado da crítica e do público. Numa fase em que o número de espectadores de cinema decrescia e os que possuíam maior cultura cinematográfica exigiam inovação, restou-lhe um novo exílio artístico. Espanha e França receberam-no com a admiração de sempre, mas com menos propostas de trabalho, o que cedo determinou o seu regresso a Portugal. 
Na fase final da carreira, Arthur Duarte, um cineasta que, pela sua longevidade profissional, corporizava a memória do próprio cinema português, ficou cerca de vinte anos inativo, sobrevivendo em condições muito precárias. E isto aconteceu depois de mais de cinco décadas de intensa atividade! Perto do fim da vida, conseguiu realizar uma obra há muito sonhada: “A Recompensa”, um filme formalmente convencional, mas feito com um indubitável profissionalismo. Três anos depois, com oitenta e cinco anos, Arthur Duarte foi ao encontro da sua morte no Instituto Português de Oncologia. 

Salvador Santos 

Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2013. Agosto. 08

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