BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade” é a rubrica semanal de Salvador Santos e hoje recorda-nos o grande actor António Vilar. É o Teatro no Bancada Directa

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

“No Palco da Saudade” é a rubrica semanal de Salvador Santos e hoje recorda-nos o grande actor António Vilar. É o Teatro no Bancada Directa

In memoriam
António Vilar, de seu nome próprio António Vilar Justiniano dos Santos, nasceu em Lisboa em 13 de Outubro de 1912 e faleceu em Madrid em 16 de Agosto de 1995
Foi um um grande actor do teatro, do cinema português e internacional
“No Palco da Saudade”
Rubrica semanal de Salvador Santos
Recorda-nos hoje o grande actor António Vilar. 
É o Teatro no Bancada Directa 

No Palco da Saudade 

Texto inédito e integral de Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 

ANTÓNIO VILAR 
Foi um dos atores mais famosos do seu tempo, mas a sua ascensão ao estrelato levou-o primeiro a percorrer caminhos muito modestos. Depois de concluídos os estudos de liceu, iniciou-se como ator amador num grupo cénico do bairro alfacinha de Alcântara que o vira nascer dezoito anos antes. Passou depois pelo Teatro Nacional D. Maria II como figurante na peça “Romance” até que conseguiu um pequeno papel no filme “Milagre da Rainha” de António Leitão, que não chegou a estrear por motivos financeiros. 
Figurou depois no filme “A Severa” de Leitão de Barros, ao mesmo tempo que se assumia como cantor de rádio e repórter do jornal O Século. Aceitou de seguida ser assistente de realização no filme “Gado Bravo” e mudou-se depois para Espanha onde continuou a trabalhar no cinema… mas como técnico de plateau e maquilhador. Dois anos depois do início da sua primeira aventura por terras de Espanha, António Vilar regressa a Portugal e torna-se caracterizador no filme “Bocage” de Leitão de Barros. 
Duas cenas do filme "Le Femme et le Pantin" Brigitte Bardot foi a partenaire de Antonio Vilar

Regressa então aos palcos como ator na opereta “A Costureirinha da Sé”, no Teatro Sá da Bandeira do Porto, mas sem grande notoriedade. O cinema português chama-o de novo para a frente das câmaras, no desempenho de pequenos papéis em “Feitiço do Império” e “Pão Nosso”, mas a sua estreia como ator de cinema dá-se verdadeiramente com “O Pátio das Cantigas” de António Lopes Ribeiro. 

E é com este filme, no papel de Carlos Bonito, que António Vilar consegue impor-se como ator. No ano seguinte, recebe rasgados elogios da crítica pela sua prestação no filme “Amor de Perdição” e ganha o prémio de melhor ator pelo seu desempenho no filme “Camões”. 

António Vilar regressa a Espanha, desta vez como ator, assentando arraiais em Madrid, onde vive até ao fim dos seus dias. Começa por protagonizar o filme “Rua Sem Sol” de Rafael Gil, o primeiro de quarenta filmes castelhanos com os quais conquista dimensão europeia, filmando ao lado de atrizes como Brigitte Bardot, Virna Lisi, Ana Karina, Maria Félix e Odile Versóis, entre muitas outras grandes vedetas internacionais. 
António Vilar contracena com Martine Carol no filme Le Désir et L"Amour

Em Espanha, onde foi por várias vezes galardoado, destaca-se a sua participação nos filmes “La Mantilla de Beatriz”, “Reina Santa”, “Muerte al Amanecer” e “Disco Rojo”, mas os seus papéis mais marcantes no cinema espanhol foram sem sombra de dúvida os que desempenhou em “Don Juan” e “Alba América” (encarnando Cristóvão Colombo). Mas é o filme “El Judas”, onde António Vilar se desdobra em três personagens distintas (Mariano Tomé, um homem que apenas pensa no lucro, Judas e o próprio Jesus Cristo), recebido com grande sucesso no Festival de Veneza, que lhe abre as portas dos estúdios de cinema de França, Itália, Brasil e Argentina. 

Em Buenos Aires, filma “La Quintrala”, “Os Irmãos Corsos”, “Miercoles Santo” e “El Juramento de Lagardère”, que não conclui devido a uma queda. 

No Rio de Janeiro participa com êxito em “Guarany”. Em Roma protagoniza “Santo Disonore” e “Il Padrone Delle Ferriere. E em Paris integra o elenco dos filmes “Bel Amour”, “Le Désir et L’Amour” e “La Femme et Le Patin” (A Mulher e o Fantoche), no qual contracena com Brigitte Bardot quando estava no apogeu da sua fama, interpretando o rico e orgulhoso Matteo Diaz. 

 De sucesso em sucesso, António Vilar consolida a sua carreira, sendo alvo das apreciações cada vez mais acaloradas dos críticos internacionais e das mais diversas propostas para filmar em importantes estúdios cinematográficos europeus. 

Porém, isso não o impede de aceitar o convite para participar no filme “O Primo Basílio” que António Lopes Ribeiro roda nos estúdios rudimentares da Tóbis Portuguesa. Mas apesar da excelente prestação do ator e da cuidada realização, a adaptação do romance de Eça de Queirós passa despercebida e a crítica dos órgãos de comunicação social considera-a absolutamente falhada. 

Por coincidência, ou não, esta seria a derradeira longa-metragem de António Lopes Ribeiro e a última vez que António Vilar trabalha em Portugal. Espanha seria inevitavelmente o seu destino, onde era há muito considerado como um dos seus filhos. 

E por lá foi continuando a interpretar os mais importantes papéis de filmes produzidos e realizados por prestigiados nomes do cinema espanhol, francês, italiano e norte-americano. “Embaixadores do Inferno” e “Histórias de La Féria” foram as películas que mais marcaram os últimos anos da sua brilhantíssima carreira, mas o seu último filme foi “Estimado Señor Juez”, que teve estreia em simultâneo nalguns dos maiores cinemas dos mais diversos países europeus em 1978. 
Nos anos seguintes, António Vilar perseguiu o sonho de produzir, realizar e protagonizar um filme épico sobre o navegador português Fernão de Magalhães, tendo gasto quase toda a sua fortuna pessoal na pré-produção do filme quando se viu confrontado com as recusas de subsídios por parte dos governos de Portugal e de Espanha. 

Para esse efeito, António Vilar conseguiu construir a réplica de uma nau quinhentista da frota de Magalhães, que acabaria por ser oferecida à Comissão Nacional dos Descobrimentos Portugueses após a sua morte, ocorrida a 16 de agosto de 1995. Apesar de muitas propostas anteriormente feitas à Comissão de Toponímia, só nessa altura a Câmara Municipal de Lisboa deu o seu nome a uma das ruas da cidade. 

Salvador Santos

Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2013. Agosto. 24

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